Surpresas baldadas.

Já devia saber, claro. Mas continuo a espantar-me com o número de pessoas que, tendo acesso a informação de qualidade, continuam a olhar para as eleições americanas como se a vitória Hillary Clinton ou Donald Trump fossem qualitativamente semelhantes.

Entre as várias esquerdas existe até uma claque anti-Hillary bastante vocal. O fenómeno remete para o estertor da República de Weimar e a ascensão do nazismo: nessa altura muitos comunistas preferiam Hitler a entendimentos com os social-democratas. Tiveram o que desejavam.

Equiparar os defeitos dos candidatos — a cupidez de Clinton com o desprezo de Trump pelas regras do jogo democrático, por exemplo — é recusar uma hierarquia de valores fundamental e convidar a tragédia.

Em Portugal, que não vai por enquanto a votos, isto serve de aviso para o futuro.

A conspiração dos estúpidos.

Quando escrevi o título deste post, o corrector automático modificou a palavra “conspiração” para “inspiração”. Alguém, nos subúrbios de São Francisco, considera que o meu vocabulário deve ser adaptado aos usos de um analfabeto funcional. Não precisamos de nos afastar muito para vermos o que está errado no nosso tempo.

No momento em que escrevo, Donald Trump tem uma hipótese real de ocupar a Casa Branca. Marine Le Pen será, provavelmente, a próxima Presidente de França. Após uma campanha reles, indigna de uma velha democracia, a Grã-Bretanha deixará a União Europeia. No Brasil, a quadrilha que derrubou Dilma elevou um fanático imbecil a Prefeito do Rio de Janeiro.

Durante algum tempo julgávamos que a abundância de informação disponível através dos novos meios de comunicação (canais por cabo, redes sociais, podcasts) nos tornaria mais lúcidos e racionais. Puro engano. Os piores instintos da populaça tomaram de assalto quase todos os espaços da opinião informada.

A direita portuguesa mal consegue disfarçar a satisfação, ao observar todas estas vitórias sobre o “politicamente correcto”. Mas o que é o “politicamente correcto”? Honestidade, decência e empatia, pouco mais. Milhões de pessoas em Portugal e no mundo consideram que estes são valores a combater.

Não será apressado prever que tempos de terror se aproximam. Assim que uma das grandes nações ocidentais ficar nas mãos dessa chusma repugnante, alterar-se-ão as regras do jogo democrático e do diálogo entre as nações.

Sem qualquer controlo sobre o nosso futuro, resta-nos seguir os exemplos de Joyce, Pessoa e tantos outros. Recolhimento e exílio.