Indigno.

Não gostei nada de saber que uma revista literária americana (esta vai sem link) revelou a identidade de Elena Ferrante. Principalmente porque o fez com uma abundância de pormenores que incluem o nome do marido, as transferências bancárias, as casas que comprou em Roma e muitas outras coisas  que a autora tentou proteger do olhar do público ao longo dos anos.

Este é um daqueles casos em que a escritora foi imaculada no reforço da sua privacidade: não fez dela um jogo, não manipulou os media fingindo que se escondia; pelo contrário, escondeu-se mesmo e dirigiu-nos para a obra, a única coisa que na perspectiva dela interessa.

Elena Ferrante merecia continuar protegida pelo seu pseudónimo, e a revista devia pagar caro pela indiscrição. Já está na altura de separarmos bem o interesse público do direito à privacidade, e de punir quem ignore essa diferença tendo a obrigação de a conhecer.

10 pensamentos sobre “Indigno.

  1. Não se zangue comigo, Luís Jorge, eu também defendo a privacidade da Ferrante (not really, no), mas isto é corriqueiro. O Salinger e o Thomas Pynchon foram perseguidos toda a vida por cães perdigueiros da melhor extração. Só em Portugal, se um escritor pretende manter-se anónimo é que lhe fazem reverentemente a vontade. Se o Herberto Helder quisesse ter permanecido mais anónimo do que era, bastaria ter pedido à meia dúzia de jornalistas culturais de plantão no momento e nem fotografia teríamos dele. Não nos faria excessivamente mal termos um misto de Jornal de Letras e Correio da Manhã. Desde que muito bem escrito, claro.

    Gostar

      1. Eu referia-me mais genericamente à questão da privacidade. Não sou muito apreciador do género biografia, mas gosto dos escritores com uma biografia, mínima, modesta, que não tem de incluir a conta bancária, se bem que já saibamos quase tudo sobre a conta bancária do Balzac e quanto gastava para tratar as hemorróidas.
        Quanto à Ferrante, era só uma questão de tempo.

        Gostar

        1. Meu caro, você gosta e as senhoras que assistem às Tardes da Júlia também. Mas isso não quer dizer que não se deva reforçar o respeito pela vontade de um autor de permanecer desconhecido se assim o entender. Até por motivos que se relacionam com a liberdade criativa, se o bem legalmente protegido no direito à privacidade não o impressionar muito.

          Gostar

          1. Está a falar a sério? Eu até acho que as senhoras do Tardes da Júlia gostam do mistério e ficaram desiludidas. Mas o anonimato de uma escritora de tanto êxito é uma coisa complicada de manter e a sua revelação é coisa que não me indigna tanto. Impressiona-me muito mais aquelas violações da privacidade que respeitam à reputação, ao bom nome. Mas espero que a senhora ultrapasse a timidez e continue a escrever livremente.
            Sinceramente, quem teria razões fortes para se esconder atrás do anonimato seria o Roberto Saviano, pelas razões que se sabe. Ou eu, que escrevo novelas eróticas às escondidas da família.

            Gostar

              1. Obrigado, Luís Jorge, mas eu nunca disse nada que merecesse tanta atenção e não tenho uma multidão de leitores e jornalistas curiosos com a minha identidade. Eu acho que não entendeu o que eu disse. De qualquer forma, todos sabemos de muita gente, escritores, artistas em geral, mais do que aquilo que eles gostariam que soubéssemos e isso raramente suscita muita indignação.

                Gostar

                1. meu caro , é um problema de consistência: se você der uma entrevista à Caras em que mostra a sua casa e o seu buldogue francês depois não se pode queixar muito por aparecerem lã notícias do seu divórcio. Porque você usou os media para se tornar uma figura pública o que enfraquece o seu direito à privacidade. Mas neste caso temos uma pessoa q escolheu não ser uma figura pública, pelo q esse direito devia ser reforçado. E nisto há mais cálculo jurídico do que você imagina. De resto, percebo-o sempre tão bem quanto a minha pobre cabeça o permite embora não seja fácil acompanhá-lo a esses pináculos de fulgor intelectual.

                  Gostar

                  1. Essa da “consistência” é uma forma sofisticada do “o que tu queres sei eu” ou do “estavas a pedi-las”. Se me mostras a sala, tu queres é que entre no teu quarto. Giro.
                    Mas continuo a achar piada à questão da privacidade neste caso. O jornalismo cultural “sério” sempre achou que para percebermos a obra tínhamos de saber com quem o autor foi para a cama, se fumou ou snifou, se foi da juventude hitleriana ou da mocidade portuguesa. Há até recensões sérias de livros de memórias de consagrados a contar os podres dos colegas. Para mim, a revelação da autoria, comparado com isto, é a uma forma benigna de devassa da privacidade. E não há qualquer coisa de irónico no facto de tanto já se ter perguntado “quem será o autor” e de repente, se achar escandaloso a sua revelação? Uma coisa é natural e até saudável, e a outra já não é?
                    Um texto mais desapaixonado, já agora:
                    http://www.nytimes.com/2016/10/06/opinion/italys-open-literary-secret.html?action=click&pgtype=Homepage&clickSource=story-heading&module=opinion-c-col-left-region&region=opinion-c-col-left-region&WT.nav=opinion-c-col-left-region
                    Mas, acima de tudo, o que me surpreendeu foi a forma como isto escalou aqui nas caixinhas de comentários.

                    Gostar

                    1. Tem razao nisso dos estudos literários. Mas repare, Milton e Poe eram tipos horríveis por exemplo, e o que retiramos das obras torna isso irrelevante. Como aliás deve ser. Eu não escalei nada, estou a responder-lhe de maneira sobrenaturalmente cool e mefistofélica.

                      Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s