Eram bons tempos, Alzirinha.

Como todos os neófitos, sinto uma inclinação por hipérboles. Quando me converti aos produtos biológicos sabia que eram mais saudáveis — por simples ausência de herbicidas, antibióticos, etc. — mas isso não me bastou. Queria que fossem também mais saborosos e me reconciliassem com as memórias da infância, período em que os tomates se desfaziam no sal sem que nada de poroso, farinhento ou adstringente estragasse o meu prazer enquanto os mordiscava sobre uma fatia de pão. Doce quimera.

O supermercado Miosótis, no qual vou abrindo caminho entre gente tão pura que parece ter passado as portas de Valhala, oferece-me um sentimento gratuito de vitória moral mas nunca me proporcionou o estremecimento de sensações ao alcance de qualquer das vendedoras de frutas que me levavam à boca um bago de moscatel, um gomo de laranja de inverno, ou a metade de um figo, por esta altura, quando ia à praça com a minha avó.

Talvez a minha frustração não provenha dos produtos, mas do palato que se dessensibilizou. Ou estamos tão prisioneiros dos negócios que não conseguimos escapar ao toque de finados da natureza, permitindo que se acolham nos próprios santuários do altermundialismo. Penso muito nisto quando vejo salsichas de seitan e merdas assim,  mas não cheguei a uma conclusão.

 

16 pensamentos sobre “Eram bons tempos, Alzirinha.

  1. Vamos ver as coisas numa perspetiva longa, Luís Jorge. Os tipos da escola dos Annales ensinam. Isso e ler o Carl Sagan, o do trilions and trilions, dá uma grande paz de espírito. A sua estranheza das salsichas de seitan equivale ao espanto que tinham as senhoras do século XVI quando iam ao mercado e viam os tomates que vinham das américas. Um dia vai-se lamentar a perda de sabor das salsichas de seitan que as avós faziam. As avós são sábias e entretanto enchem aquilo com pedacinhos de carne de porco e massa de pimentão.

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    1. Não obstante a sabedoria do Sagan e dos camaradas do Braudel, a verdade é que os alperces que compro no mercado ao pé de minha casa sabem a alperce, enquanto que os das grandes superfícies sabem a borracha, e isto nos dias bons. Ok, exagero um pouco, mas realmente o contraste é tremendo. Idem para as amoras, uvas, meloas, figos… é a diferença entre os produtos locais, que não passam pela grande distribuição, e os outros. Os grandes distribuidores e as grandes superfícies querem maximizar os lucros. Aquilo que vendem é apenas um meio para atingir esse fim. É trivial. Os seus ceos vão co,mprar a fruta ao ‘mercado da aldeia’, os Bill Gates deste mundo inscrevem os filhos em escolas ‘clássicas’ (sem écrans nem gadgets), e os dealers que se prezam não dão charros aos filhos. Chegará o dia em que um dos sucessores do Braudel vai escrever esta ‘história’ numa actualização às estruturas do quotidiano ou dos jogos das trocas. A pronunciada aceleração da evolução dos processos sociais exige uma certa subtileza metodológica na análise das tendências ‘longas’, pois longo e curto têm de ser entendidos em termos relativos.

      Já li ‘Rue des voleurs’. É interessante, bem escrito, mas não me pareceu propriamente novo. Fui lendo com a sensação de ‘déjà vu’. As críticas que desencantei por aí comparando-o, com algumas reservas, ao Céline ou ao Balzac são delirantes. Vou passar ao ‘Boussole’. Por outro, pergunto-me se seria capaz de reconhecer um grande escritor…. Tenho a impressão de que nunca descobri nenhum, que não soubesse já à partida que o era.

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      1. Miguel, os pequenos produtores também querem maximizar o lucro; não são propriamente nutricionistas. Nunca mais me esqueço de quando, tinha o euro entrado em circulação há pouco, uma vendedora do meu mercado me pediu um euro por um pequeno molho de salsa. De nada adiantou o meu protesto de que um euro era, em moeda antiga, duzentos palhaços… mas eu também já estive no lado de lá, quando vendia limões do quintal da minha avó, a um café, para fazer cariocas de limão; foi assim que comprei os primeiros vinis.
        Mas, já agora, o Bill Gates só inscreve os filhos em escolas sem computadores? É com lousas? Eu acho que, pelo contrário, são a triviais escolas públicas as grandes seguidoras da tradição clássica; os filhos dos mais pobres vão ser todos latinistas e helenistas.

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      2. Miguel, fui bisbilhotar e descobri que pelo menos o Bill himself andou na melhor escola privada de Seattle, que, por acaso, foi das primeiras a ter computadores nas aulas nos states, hehe

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        1. caramelo, e depois andou em Harvard, que não foi a primeira a ter computador, foi o IAS graças ao Von Neumann, ‘dropped out’, e resolveu dominar o mundo (para se desforrar?). Atenção, ‘écrans’ não são computadores, aprender a programar ou, pelo menos, compreender o que é um algoritmo, não é o mesmo que usar a calculadora para conseguir saber quanto é 8×8, aprender a fazer montagem de filmes, ou a anotar com a ajuda de software os filmes com o fim de os analisar e discutir na classe não é equivalente a usar o facebook ou o doodle para organizar a kermesse da escola, ainda menos a ideia peregrina de que não é necessário aprender a escrever à mão ou a dominar a caligrafia, que envolve o desenvolvimento da motricidade fina, só porque hoje se pode usar um teclado. Peço desculpa pela minha tendência para a alusão e para a metáfora. Mas é assim mesmo: nas boas escolas aprende-se a programar, a construir algoritmos, a montar filmes (e a anotá-los), aprende-se o cálculo científico, e também os clássicos (donde não estão excluídos os instrumentos informáticos) etc. Nas outras aprende-se a usar écrans, os ipads, os facebooks e essas cenas moderníssmas. Deixo à sua perspicácia descobrir de que lado da barricada estão os grandes tubarões da área, e qual a natureza do lobbying que não cessam de fazer juntos das autoridades públicas, ministérios, etc.

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          1. Miguel, e quem falou no facebook? Queria eu dizer que nas melhores escolas se usa a tecnologia, incluindo os écrans de computador, obviamente, e demais gadgets. Refiro-me ao e-learning, por exemplo, que, necessariamente, usa écrans, incluindo i-pads, sim, ou a todas as demais ferramentas on line de transmissão de conhecimento. E eu nem sequer falava na educação tecnológica (programar, etc), mas sim na aprendizagem de qualquer disciplina. Os melhores colégios colocam as crianças em diálogo, na sala de aula, com colegas de colégios franceses a falar das pinturas das grutas de Lascaux, ou com astrofísicos de um qualquer instituto do mundo. A propósito, também já não é em livros que observam a galáxia de Andrómeda, porque, para quem tem meios suficientes, isso já não tem qualquer sentido. Quem está afastado de tudo isto são as crianças das classes mais desfavorecidas e nem por isso ficarão mais bem preparadas. O Bill? Tenho a certeza que colocou as crianças numa escola com mais meios tecnológicos, incluindo écrans, do que o Instituto Superior Técnico (passe a minha tendência para o exagero).
            Quanto ao vídeo, fiquei logo de pé atrás com o “massacre des innocents”.

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            1. caramelo, fui eu quem falou em facebook e écrans/gadgets (metáfora). Quanto ao resto estamos de acordo em tudo (aleluia! está a pregar para um convertido), salvo quanto ao optimismo implícito ao seu comentário, como se as práticas dos melhores colégios fossem *naturalmente* (i.e. sem uma batalha dura e longa) percolar através do resto do sistema. A França, nem sendo dos países mais mal colocados neste contexto, sofre de enormes dificuldades na ‘democratização’ do ensino de qualidade. (Fui algo caridoso na caracterização do Stiegler: seria mais realista dizer que ele, por vezes, consegue evitar ser cabotino. Mea culpa, é que estou habituado e já nem ligo. Em todo o caso, o tipo anda envolvido há mais de trinta anos nas questões do numérico. Talvez este não seja o melhor vídeo, já não me recordo. Paciência.)

              A propósito de maximizar o lucro, lá em cima. Vale a pena aqui precisar a implicação de uma afirmação desse tipo. Esquematicamente. . ‘os pequenos produtores também querem maximizar o lucro”. Isto equivale a dizer que todos os agentes económicos querem maximizar o lucro, o que implicitamente equivale a dizer que todos aqueles que participam no jogo económico na sociedade capitalista são, essencialmente, agentes económicos (conceito abstracto desligado da actividade concreta que desempenham na economia real) acima de tudo e antes de serem qualquer outra coisa como agricultor, pintor, industrial, etc. Isto é o argumentário das business schools, e é puro liberalismo, ultra ou neo pouco importa, e é verdade para a espécie de gestores que podem gerir todo e qualquer tipo de negócio, dos jornais à aviação comercial passando pela grande distribuição . É uma visão ideológica extremista. Não é a minha, nem é a de muita gente. Eu acho que as empresas têm um papel social: produzir bens e serviços. O balanço financeiro tem de ser sustentável (acima de zero), e basta. O importante é a actividade produtiva e a sua utilidade social .

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              1. Eu estava a ser optimista? Lendo outra vez, até me parece que estava mais pessimista do que pretendia. Pelo menos na democratização da educação ou, se quiser, no acesso ao conhecimento, eu sou optimista. A tecnologia está simultaneamente melhor e mais barata, para começar. Isto é que é a função social das empresas e não há nenhuma diferença essencial nisto entre o homem que faz cestos de verga e o dono da Microsoft. O que me distingue dos liberais é o reconhecimento de que o estado tem não só uma função reguladora, como catalisadora. Porque, ao contrário do que parecem pensar muitos liberais, os grandes centros privados de investigação e ensino não sobrevivem sem o financiamento dos impostos.
                Há coisas muitos giras no e-learning para os miúdos, falando agora apenas nestes. Já ninguém lá em casa pega numa enciclopédia há anos. Entre tirar e voltar a colocar a enciclopédia na estante, aparece uma galáxia nova. Até o youtube tem coisas fantásticas.

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                1. caramelo, acho que estamos de acordo em muita coisa. Coisas giras para os miúdos há muitas, olhe aqui por exemplo:

                  http://portal.scienceintheclassroom.org/category/spore-prize

                  Ainda assim, é preciso haver quem dirija a miudagem até ali, e os ajude a explorar aquilo. E, apesar de todos esses recursos, o panorama do ensino científico nos EUA não se apresenta risonho, muito pelo contrário. O problema não é o acesso ao e-learning, é um problema conceptual, a noção do que é a ciência, a investigação, como transmitir tudo isso na prática, ‘praticando’ desde tenra idade em vez de levar com uma avalanche de informações descontextualizadas. Aconselho-o a ler os editoriais na revista Science de Bruce Alberts (eminentíssimo biologista molecular) ‘Teaching real science’, ‘Failure of skin-deep learning’, ‘Science demystified’, ‘Prioritizing science education’.

                  Para adultos também, você pode construir um belo programa de estudos de física teórica e matemática seguindo cursos online dados por excelentes professores. Tenho dificuldade em avaliar em que medida é que as pessoas conseguirão, isoladas frente ao écran, com a maior das boas vontades, tirar verdadeiro partido deste recursos. Faltam instituições outras, que federem as pessoas em torno da vontade de aprender, que tirem proveito dos amadores (no sentido nobre do termo) e benévolos, e tudo isto é um estaleiro político-social a construir.

                  Mas há muitas coisas espectaculares, olhe mais aqui:

                  http://www.sdss.org/surveys/

                  Aqui tem acesso a dados reais sobre galáxias, existe software disponível online para analisar esses dados, é extraordinário. Por que razão anda toda a malta atrás dos pokemons (e a trabalhar de borla para big data, e…)
                  quando existem um mundo maravilhoso a explorar a um clic de distância? Eu não queria insistir, mas bom, voilà,
                  c’est le massacre des innocents…

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                  1. Tem razão, Miguel. A questão é o que fazer com as ferramentas e com tanta informação. Por exemplo, continuo a achar que o Magalhães era uma boa ferramenta de trabalho para os miúdos. O problema é que os professores não sabiam o que fazer com aquele bicho. Ninguém lhes ensina a usar essas coisas. Para uma grande parte, passar um power point já é o zénite da inovação e mais do que isso já suscita uma enorme desconfiança. O problema é que há coisas já irreversíveis e que não se pode ensinar como há quarenta anos.
                    Quanto a otras cositas mas que eu também acho irreversíveis, como o uso do teclado pelas crianças, em prejuízo da caligrafia, bem…isso é uma outra história. Mas sobre isso não tenho certezas, apenas intuições, e por isso não arrisco uma discussão.
                    Ah, obrigado pelos links.

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        2. PS; a propósito, acrescento esta ligação a uma intervenção do Bernard Stiegler. que é, por vezes, algo cabotino, mas coloca questões pertinentes.

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  2. Há por aí uns serviços engraçados de entrega de cabazes hortícolas compostos pelo cliente, oferecidos por pequenos produtores. Experimentámos encomendar uma caixa com hortaliça, fruta da época e tomate, a um desses pequenos produtores/distribuidores. Era tudo bom, mas o tomate era especialmente doce e fragante. Notava-se que tinha apanhado muito sol. Lembro-me que cheguei a fazer caldo com a rama dos tomates.

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