O povo, o chulé.

Dizem que Ingvar Kamprad, fundador do IKEA, se desloca de autocarro sempre que pode e dorme em pensões quando viaja para negócios. Nos Estados Unidos não é incomum vermos celebridades no metropolitano. Vários políticos europeus lideram pelo exemplo, na bicicleta ou no eléctrico.

Em Portugal anda-se de BMW Série 7. Só assim se explica que durante todo o Verão não houvesse um metropolitano com mais de três carruagens em Lisboa, para gáudio do milhão e meio de turistas que por esta altura visitam a capital.

Os administradores da Metropolitano de Lisboa, E.P.E, devem ter tanta vontade de conhecer in loco o serviço que prestam aos consumidores como de embarcar num vagão de gado a caminho de Auschwitz. E o que os olhos não vêem o coração não sente, lá diz o povo nos próprios transportes em que é largado ao abandono.

Porque não se fala disto na blogosfera nem se mostra no Instagram? Credo, antes cuspir para o chão.

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A conspiração contra o Donald.

As sondagens recentes nos EUA revelam que Trump é considerado mais honesto e mais competente em assuntos económicos do que Hillary Clinton.

Não esperaremos muito até que uma profusão de artigos nos jornais de referência portugueses comecem a enumerar as qualidades do candidato republicano.

Há década e meia, recordo como se fosse hoje, Sarsfield Cabral, guru coevo da televisão pública, afirmava à boca cheia que Gore ou Bush mal se distinguiam.

Tanta sabedoria tinha de fazer escola.

É dia de luto.

Não haverá sanções. Os nossos grupos de comunicação estão inconsoláveis. Tanta dedicação, tanto trabalho meritório para isto. Vamos rezar para que o amigo Schäuble e aqueles bravos rapazes da Polónia se consigam impor.

Você não acredita?

Não acredita no fim do mundo? Mas devia acreditar. O tempo está cada vez mais quente e o coração dos homens está cada vez mais frio, há assassinatos todos os dias, terrorismo, sodomia, pessoas ateias nos mais altos cargos da administração. Admira que o Senhor esteja zangado? Mas estava escrito:

Nação se levantará contra nação, e reino contra reino. Haverá fomes e terramotos em vários lugares (Mateus 24:7)

E ainda:

… num lugar após outro, falta de alimentos e pestilências; e as pessoas verão coisas atemorizantes e grandes sinais do céu. (Lucas 21:11)

Pois quando o Espírito falou às igrejas, avisou:

Tens lá os que seguem a doutrina de Balaão, o qual ensinava Balaque a lançar tropeços diante dos filhos de Israel, para que comessem dos sacrifícios da idolatria, e fornicassem. (…) Arrepende-te, pois, quando não em breve virei a ti, e contra eles batalharei com a espada da minha boca. (Apocalipse 2:14-16)

Mais nada.

Somos o melhor país do mundo.

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Na verdade estamos entre o 24º e o 28º lugar em todo o tipo de estatísticas internacionais, mas vamos dar de barato que o professor Marcelo tem razão. Se assim é, por que diabo os alvarinho de preço médio (7 euros, vá) que se bebem em Portugal são tão menos agradáveis do que os galegos? Menos perfumados, com uma acidez menos trabalhada, porquê?

Em casa.

Fui brevemente ao Algarve, mas a rotina de apanhar um barco ou a miniatura de um comboio para ir à praia não me serve. Detesto calor, detesto pó, detesto parques de estacionamento ao ar livre e calções de banho de tecidos sintéticos e esplanadas ruidosas e sol. Também detesto ler platitudes sobre terrorismo e detesto ouvir gente que adora ouvir-se. Mas estou a gostar disto:

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Estou a gostar tanto que considero encomendar a versão em papel, aquela matéria de que as árvores são feitas ou vice-versa onde a magia se deposita  em partículas iridescentes quando mais nada nos serve. Obrigado, querida Marilynne.

O estilo que somos.

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Folheio a Literary Review e sou quase tomado de surpresa pelo intimismo alcatifado, as palavras escolhidas, as enumerações.

We think we know the Romantics. Their endlessly retold lives have become familiar through shorthand vignettes: Blake and his wife sitting naked in their Summer house; Coleridge scribbling poetry under the influence of class A drugs; Wordsworth jumping his own sister; Shelley commiting suicide by sailboat; Keats Born in a stable.

Escrever assim, sem assomo de provocação, rejeitando a ascendência dos tablóides ou da publicidade, parece-nos tão anacrónico como um livro de Anita Brookner com as suas virgens de cinquenta anos. Já não sabemos o que fazer com este estilo — a falta que nos faz.

Simples.

Basta-nos ler as sondagens para compreendermos que é uma questão de tempo até que um Trump, uma Le Pen tomem de assalto uma grande potência ocidental. O incêndio do Reichstag que parece ter ocorrido anteontem na Turquia, ou o golpe reaccionário do Brasil não nos permitem grandes ilusões quanto à evolução natural do resto do mundo. Portanto, não há nada a fazer. Aproxima-se uma tragédia. É tempo de recolhimento.

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Tenho estado a ler isto. Balzer consegue capturar bem a atmosfera do mundo das artes num sentido que nos revela uma coisa interessante: mostrando que a sucessão estonteante de referências e olhares sobre a produção artística nunca abandonou, mesmo em momentos de rebeldia, a aliança com o capitalismo. Não se esgota em Durão Barroso a lista de patrocínios da Goldman Sachs.

 

Pronto.

Ontem, no Negócios da Semana, quando uma jornalista sugeriu com um assomo de candura que o Governo anterior tinha deixado os bancos esfrangalhados ao deus-dará, José  Gomes Ferreira lembrou-lhe que nessa época havia coisas importantes para tratar.

Ficamos, portanto, assim.

Portugal très bien.

Gostei de ver o jogo que ontem consagrou Portugal. Os nossos compatriotas mereciam estes dias de júbilo após anos de sofrimento imposto por elites servis e líderes desconchavados. Isto dito, não me agrada nada o ressentimento anti-francês que observo desde a vitória. Fui a França umas dez vezes, como turista, tendo passado bons momentos no Loire, na Bretanha, na Riviera e em Paris. Em todo o lado fui recebido com enorme consideração pelos locais. Se os portugueses querem dar lições a França, sugiro que sejam de elegância e boas maneiras.

A diferença.

Num daqueles jantares de Washington em que é suposto que o Presidente faça de comediante, Obama antecipava com gozo maquiavélico o tempo em que iria “trabalhar para a Goldman Sachs”. Para ele, essa possibilidade pertencia ao campo da anedota. Não sei se me faço entender.

Entretanto, em Inglaterra.

Escuto a LBC, radio online britânica, escolhida por zapping. Discute-se a demissão de Farage. Uma participante por telefone, com entoações de Margaret Tatcher, defende que “temos uma dívida para com ele”. O moderador concorda, acrescentando que “muitos de nós gostariam de a saldar em pessoa”. Eis um país que não perde o humor.

 

A gorda do Texas.

Numa rua nem boa nem má que fica a meio caminho da casa da namorada havia hoje bruá. Uma gorda viril e espancadora, ocupando a estrada, berrava para um tipo num prédio da frente — “desce cá abaixo que te parto a tromba”, e imprecações do calibre. A vizinhança atónita. Entro num café e está o balcão partido, vidros no chão.

– O que se passou?
– Estavam na esplanada, o meu marido disse-lhes que não podiam ter lá o cão e partiram tudo. Quase ficava sem braço.
– Chamou a polícia?
– Para quê? Só aparecem aos domingos, não sei quem são.

Não é a primeira coisa que vejo assim este ano. Lisboa está um Velho Oeste.

Os princípios.

Tomando o Brexit como pretexto, Bernie Sanders fez publicar ontem um artigo no New York Times. Lê-se como um manifesto mas é, na verdade, uma pequena lista das grandes questões do Século. A sua enunciação clara impressiona, acima de tudo, por aparecer de modo tão isolado no ecossistema mediático.

Próximo: Itália.

Wolfgang Münchau no Financial Times:

An Italian exit from the single currency would trigger the total collapse of the eurozone within a very short period.

It would probably lead to the most violent economic shock in history, dwarfing the Lehman Brothers bankruptcy in 2008 and the 1929 Wall Street crash. But my sense is that those who would advocate an Italian departure might even relish bringing down the whole house.

To prevent such a calamity, EU leaders should seriously consider doing what they have failed to do since 2008: resolve the union’s multiple crises rather than muddle through. And that will have to involve a plan for the political union of the eurozone countries.

Britain is not the cause for any of this. The eurozone and its appallingly weak leaders are to blame. But Brexit may well be the trigger.

É já em Outubro.

E agora, love?

Os vermes encolhem-se quando são pisados, explicava Nietzche, porque assim evitam ser pisados outra vez. Um dia depois do referendo britânico, os “seis países fundadores” da UE fizeram uma reunião. Os outros chucharam no dedo. Estamos portanto conversados quanto à estratégia europeia para enfrentar os efeitos do Brexit: encolher.

O euro servirá os países ricos do continente. O Estado Social idem. Para nós fica a austeridade infinita, ou a desvalorização abrupta de um regresso ao escudo. Quem não gostar que se amanhe.

Entropia, 2.

A direcção do Público não ignora que os seus leitores são pessoas educadas. Este editorial talvez fosse adequado noutros meios, mas ali comete um erro crasso: o de fingir que quem o lê não separa o trigo do joio distinguindo entre a estupidez ocasional de Canavilhas e a insídia com que Clara Viana, de modo recorrente, manchou a reputação do diário.

Não precisamos de repetir os pormenores: 2 mil manifestantes que se transformam em “alguns milhares”, ou em 15 mil, ou em 80 mil. Números que no caso dos colégios provém da organização, enquanto no outro caso são da polícia (que depois negou ter dado esses números). Referências constantes à “grande manifestação dos colégios”, como se às portas de São Bento houvesse lugar para hipérboles. Intervenientes do Bloco e do PCP que afinal não existiram (mas são convenientes, claro, porque o PS está “refém da extrema-esquerda” não é verdade?).

Tudo isto é demasiado mau para estar a acontecer. Mas pior do que o cortejo de mentiras a que o jornal não quer pôr termo é esta tentação chico-esperta de chutar para canto e arranjar quem se ponha a jeito para servir de alvo a paleio moralizador.

A direcção do Público quer mesmo continuar nesta posição de vestal? Não conhece os seus leitores? Não tem medo de os perder?

Entropia.

Em dois ou três dias, a nossa “imprensa de referência” exibiu várias notícias sem contexto ou escancaradamente falsas.

  1. A notícia de que John McCain responsabilizou Obama pelo morticínio de Orlando. É verdadeira, só que McCain fez um comunicado a corrigir essa afirmação, e esse comunicado não foi transmitido entre nós.
  2. O Público afirmou que na manifestação pela escola pública tinham aparecido 2 mil manifestantes, número que foi corrigido para “alguns milhares”. A Lusa e o Expresso contaram 80 mil.
  3. Depois chegou a história do cirurgião premiado que recusou trabalho a “seis euros por hora”. A Ana Matos Pires esclarece até onde chega  a deturpação. Não caberia a quem fez a notícia aprofundar esta história?
  4. (Adenda) No Truques da Imprensa Portuguesa, uma página de Facebook, leio que o Público noticiou as intervenções de Catarina Martins e Jerónimo de Sousa na manifestação da Avenida. Ora, essa intervenções não aconteceram.

Entretanto continua a orgia dos apontamentos sobre bola. Anteontem assisti a uma “reportagem” em que Cristiano Ronaldo e outro parolo qualquer eram filmados a olhar para duas jornalistas espanholas. Eis um assunto digno de prime time.

Ambrose Evans-Pritchard pelo Brexit.

Let there be no illusion about the trauma of Brexit. Anybody who claims that Britain can lightly disengage after 43 years enmeshed in EU affairs is a charlatan or a dreamer, or has little contact with the realities of global finance and geopolitics.

Stripped of distractions, it comes down to an elemental choice: whether to restore the full self-government of this nation, or to continue living under a higher supranational regime, ruled by a European Council that we do not elect in any meaningful sense, and that the British people can never remove, even when it persists in error.

É isto que interessa. Mais tarde ou mais cedo teremos de fazer a mesma escolha.

O humorista susceptível.

As redes sociais ensinam-nos mais do que o Correio da Manhã. Hoje li o caso de um tal Sinel que abandonou o Facebook protestando contra quem “quer denegrir” a sua “imagem”, o seu “nome” e o seu “trabalho”.

Que faz o Sinel? É “humorista”. Que diz o Sinel? Sobre o massacre de Orlando disse:

“Que este atentado seja uma lição para todos os homossexuais. Quando vos perguntam se vos podem abrir um buraco novo, nem sempre devem responder sim”

Mas diz mais. Disse:

“A minha namorada chegou a casa e disse-me que tinha cancro da mama. Terminei tudo com ela, porque nunca gostei de fruta com caroço.”

E disse:

Se estão a pensar ser pais, comprem primeiro um cão de raça boxer. Assim, se o vosso filho sair mongolóide já não estranham a baba pela casa.

E disse:

Ser mulher é a pior coisa do Mundo. Só há uma coisa pior que ser mulher, é ser mulher e preta. Deve ser fodido não saber conduzir duas vezes.

E disse:

 Ter síndroma de Down é como ser cigano. Para casar, só com alguém que tenha o mesmo problema.

Agora vai sair do Facebook por ser

“plataforma onde não é possível criar uma relação de interacção lógica, uma troca de ideias válida, um vislumbre de educação”.

Assim vai o mundo, sem troca de ideias ou vislumbre de educação. Não denigram a imagem do Sinel, pá. Não conspurquem o nome do rapaz.

 

Habemus directo.

Noto, com certa incredulidade, que o Papa Francisco ainda não lamentou o mau resultado da selecção nacional no confronto com a Islândia. Talvez se encontrem, no Vaticano, dois ou três cardeais de origem portuguesa que acedam a animar os nossos rapazes?

Islândia.

Reykjavik-Iceland-travel

Terra civilizada, com mais editores e livros publicados por pessoa do que qualquer outro país do mundo. Aqui, calcula-se, um em cada dez habitantes publica um livro. Com sorte os islandeses serão capazes de vencer Portugal num campeonato desportivo idiota, poupando-nos a horas e horas de reportagens em directo e relambórios patrioteiros.

Escolhas.

O morticínio de Orlando pode ser narrado como um ataque terrorista, um crime de ódio contra a comunidade gay ou um testemunho da iniquidade das leis americanas sobre uso e porte de armas. O discurso de Obama consegue enunciar com sensibilidade essas três condições, a que junta o lamento pela tragédia pessoal e familiar das vítimas. O risco, aqui, reside nas escolhas da interpretação — um risco que a imprensa portuguesa não deixará de calcorrear da pior maneira possível, como é seu hábito.