É só uma teoria, mas cá vai.
Um partido com vocação executiva tem apoiantes de vários tipos. O “hardcore” é aquele cujos interesses materiais (trabalho, acesso a negócios) dependem do partido. O “softcore” é o que se motiva por causas, como a despenalização do aborto ou o casamento entre homossexuais. O “missionário”, tradicionalista, é o que vota em quem sempre votou e encara o partido como uma extensão do clube, da família e do contexto local ou regional. Os três grupos têm em comum a fidelidade e o acriticismo: os “nossos” são bons, mesmo que façam mal, e os “outros” são maus, mesmo que façam bem.
O problema é que uma parte importante dos cidadãos que elevam um partido ao Governo não pertence a qualquer destes tipos. A sua avaliação dos partidos é casuística, independente do interesse próprio, e o seu apoio segue a lei da utilidade marginal: mais do mesmo dá-lhes cada vez menos prazer.
Pior, concentram as antipatias em “casos” e “figuras”. Alguns, como eu, são extremamente sensíveis aos indícios de corrupção. Outros rejeitam a arrogância, o controlo, o desleixo e a iniquidade. Em suma, não são fiéis.
A minha tese é que os grandes partidos deviam estar muito atentos a estes eleitores. Porque enquanto Armando Vara, Paulo Campos e Ricardo Rodrigues (no PS) ou Miguel Relvas (no PSD) tiverem rédea solta para exibirem a sua cupidez e impunidade, o desgaste das estruturas será mais rápido do que imaginam as elites que as dirigem.
E isto até um apoiante “hardcore” devia perceber.