vida breve

textos quase originais de luis m. jorge

A missão de um desempregado é a de ser indiferente aos contextos. Isto está para além de qualquer retórica política: porque se ninguém tem mais “oportunidades” por não ter trabalho, também é verdade que a riqueza do mundo não desaparece numa década má. Há muito ruído.

Omertá.

Na semana em que novas revelações sobre as PPP permitem, a quem sabe, falar no maior crime financeiro praticado em Portugal, a jornalista de causas Fernanda Câncio alerta-nos para os efeitos imponderáveis dos muitos anos de acusações inconsubstanciadas, calúnias e insultos, fatwas a propósito de tudo e nada que vitimaram o Governo de Sócrates. Tem toda a razão. Não nos devíamos ter maçado.

“Pensemos filosoficamente”.

O repto vem no “Retrato de Ricardina”, de Camilo Castelo Branco. Os irmãos Pimentel, na ruína, são abordados por um abade que pecara na juventude e queria casar duas filhas a troco de um dote de trinta mil cruzados por cabeça. Os irmãos recebem agastados a proposta, depois acalmam-se, depois pedem tempo para reflectir.

Finalmente, escreve Camilo, “os noivos acederam, tirando a partido que a mãe das nubentes se recolheria em mosteiro, antes das núpcias das filhas”. Nada feito. “Voltaram os Pimentéis a reflectir. Acharam-se subitamente filósofos”.

Pensemos filosoficamente – dizia o irmão de Clementina. – As raparigas que venham com a condição de cá não pôr o pé a mãe.
Comunicaram ao abade a modificação.
- Não, senhor – retorquiu o padre. – Onde as filhas estiverem há-de ir a mãe.
- Pensemos filosoficamente – disseram entre si os Pimentéis. – A mãe poderá vir alguma vez; mas o abade nunca..
- Não, senhor – insistiu o abade. – Eu hei-de ir ver minhas filhas, porque lhes quero muito, e decerto não dava sessenta mil cruzados com a obrigação de as não ver mais. (…)
- Pois deixemos vir o abade. Pensemos filosoficamente. A desonra (…) é coisa em que ninguém já fala. Tudo esquece. Foi uma desgraça; todas as famílias têm destas nódoas. Já agora, sejamos filósofos como toda a gente.

Desde que eclodiu o “caso Relvas” vejo uma parte da nossa direita a meditar com angústia na imperscrutabilidade do mundo, na inacessibilidade do real, nos mistérios da “coisa em si”. É bom sinal. Tal como os irmãos Pimentel, estão a “pensar filosoficamente”.

Dúvida.

Um aspecto menor do caso Relvas persiste em intrigar-me. Que danos estarão reservados à popularidade de um primeiro-ministro que hostiliza em simultâneo o “Público” e o Grupo Impresa para não demitir um dos seus? É uma pergunta singela, sem ponta de cinismo.

Venha ela.

Você decide.

1. A gaja boa das sextas.
2. A Palavra do Senhor.
3. O Filipe.

Mártires da opinião.

Eles apelam à produtividade comentando blogs durante o expediente. Eles querem mais empreendedores mas nunca criaram uma empresa. Eles invectivam o facilitismo em parágrafos de mau português. Eles exigem mais trabalho e menos conversa enquanto conversam e não trabalham. Eles são os mártires da opinião, último refúgio da pátria contra a obsolescência.

Press clipping.

O relatório sobre Francisco Pinto Balsemão não foi a única encomenda de Jorge Silva Carvalho enquanto já estava ao serviço da Ongoing. Em Setembro de 2011, o ex-director do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED), mandou fazer um relatório sobre a Finertec, a empresa de capitais luso-angolanos que opera no sector da energia e ao qual estão ligados dois dos homens com quem se se relacionava: Miguel Relvas, que foi administrador da Finertec até ser eleito dirigente do PSD, e José Braz da Silva, que hoje dirige a empresa.

Parece que há aqui um padrão, não é verdade? Isto, claro, presumindo inocências a eito desta gente toda, porque não estamos no tempo do Sócas e agora há estado de direito, liberdade e muitos caldos de galinha.

O Sérgio talvez goste de saber que a sua referência é mais exacta do que parece: Cidades Invisíveis é uma homenagem a Veneza.

Sabedoria popular.

À espera dos comentários do professor Marcelo, lá papo uma reportagem da TVI sobre a educação d’antanho. Vinte ou trinta carquejas com o diploma da quarta classe recitam títulos das obras de el rey Duarte e feitos da dona Barbuda de Guimarães. O subtexto da coisa é cristalino: os meninos antigamente sabiam mais que os doutores agora, e tal.

Esta entronização da parolice é a moda da saison desde que o ministro Crato decidiu apresentar às criancinhas as virtudes da lavoura. Pouco importa que os jovens de 2012 saibam programar em PHP e JavaScript, que conheçam países sem entrarem neles a salto e dominem razoavelmente o inglês: para milhões de pategos lusitanos, muitos deles atarantados com os comandos da TV, a única educação que presta é a de Oliveira Salazar.

E isto seria apenas grave, se alguns não estivessem no Governo.

- achas que estou mais gorda?
- não.
- dizes isso para me agradar?
- claro que não.
- porque tu nunca dirias nada para me agradar, não é?
- não. Sim.
- sim ou não?
- sim, sim, sim.
- eras capaz de mentir para me fazeres sentir feliz?
- claro.
- claro?
- não, só uma pequena mentira.
- já percebi. Estou mais gorda.

Fazia cá falta.

A ambição internacional.

Ética.

O To Zé temia que a Marisa não chegasse virgem ao casamento. Confrontada pelo noivo, ela sugeriu que aguardassem o trânsito em julgado. Depois da boda, invocou a prescrição.

Ajudando a direita.

Leia isto, menina. É cínico, mas não é analfabeto.

“É difícil fazer com que um homem compreenda uma coisa quando o seu salário depende de ele não a compreender”.

É só uma teoria, mas cá vai.

Um partido com vocação executiva tem apoiantes de vários tipos. O “hardcore” é aquele cujos interesses materiais (trabalho, acesso a negócios) dependem do partido. O “softcore” é o que se motiva por causas, como a despenalização do aborto ou o casamento entre homossexuais. O “missionário”, tradicionalista, é o que vota em quem sempre votou e encara o partido como uma extensão do clube, da família e do contexto local ou regional. Os três grupos têm em comum a fidelidade e o acriticismo: os “nossos” são bons, mesmo que façam mal, e os “outros” são maus, mesmo que façam bem.

O problema é que uma parte importante dos cidadãos que elevam um partido ao Governo não pertence a qualquer destes tipos. A sua avaliação dos partidos é casuística, independente do interesse próprio, e o seu apoio segue a lei da utilidade marginal: mais do mesmo dá-lhes cada vez menos prazer.

Pior, concentram as antipatias em “casos” e “figuras”. Alguns, como eu, são extremamente sensíveis aos indícios de corrupção. Outros rejeitam a arrogância, o controlo, o desleixo e a iniquidade. Em suma, não são fiéis.

A minha tese é que os grandes partidos deviam estar muito atentos a estes eleitores. Porque enquanto Armando Vara, Paulo Campos e Ricardo Rodrigues (no PS) ou Miguel Relvas (no PSD) tiverem rédea solta para exibirem a sua cupidez e impunidade, o desgaste das estruturas será mais rápido do que imaginam as elites que as dirigem.

E isto até um apoiante “hardcore” devia perceber.

Perfeito.

Foi uma boa semana para a república. Miguel Relvas ameaçou revelar detalhes da vida pessoal de uma jornalista, que obteve talvez por “press clipping”, e as reacções iradas dos defensores da liberdade não se fizeram esperar.

Mário Crespo inaugurou outra campanha temerária contra a “asfixia democrática”. Alguns blogues da direita, liderando pelo exemplo, organizaram manifestações à porta da Assembleia a que compareceram dezenas de cidadãos indignados. Rodrigo Moita de Deus vestiu-se de palhaço e fez marketing de guerrilha na Sant’Ana à Lapa.

Deputados do PSD distanciaram-se dos ataques à liberdade de imprensa, “por não admitirem no partido o opróbrio que manchou o Governo de José Sócrates”. Pedro Passos Coelho, compungido, afirmou que em matéria de valores fundamentais “não há esquerda nem direita, e que a todos se exige o mesmo respeito pela democracia”. Miguel Relvas acusou o toque e demitiu-se esta manhã. Ao “Público”, a quem pediu desculpa, confessou que fará umas “curtas férias, para visitar amigos em Angola e no Brasil”.

A nossa opinião pública, e os seus líderes, estão mais uma vez de parabéns.

É isto.

2500 anos depois.

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“A GRÉCIA É UM PAÍS INVENTADO; ERA UMA PROVÍNCIA DO IMPÉRIO OTOMANO”, José Luis Arnaut (ex-Ministro Adjunto de Durão Barroso e Ministro das Cidades e etc. do governo de Santana Lopes)

Decerto já toparam que o blog parou um pouco. Faço o que posso, não o que quero.

Os relambórios sobre o crescimento são as Tardes da Júlia da política europeia. Eu prefiro julgar que o continente necessita de um período de carência, como se diz na banca, e de um açaimo nas obras públicas. Combater Passos não é reabilitar Sócrates.