Opinião pública (2): a bibliografia.
Quem quiser aprofundar a sua intervenção cívica recorrendo aos novos meios tem algumas obras recentes à disposição:

The Social Media Bible — um calhamaço de oitocentas páginas que funciona como uma introdução acrítica ao tema. É útil para quem procura ter uma noção das possibilidades destes meios. (Pub. em 2009).

Marketing to the Social Web — o melhor livro para quem tem uma noção dos meios técnicos mas procura uma maneira de os integrar numa estratégia de comunicação. (Revisto em 2009)

Groundswell — um dos livros com informações detalhadas e cases studies extraídos das organizações que utilizam os social media com mais sofisticação.

The New Rules of Marketing and PR — embora publicado em 2008, talvez seja a introdução mais útil para o praticante solitário. Não leiam os esforços mais recentes do autor.

Twitterville — para quem não percebe que interesse tem, afinal, o Twitter. Uma lição recente.

Brand Digital — o autor é especialista em construção de marcas e um ser pensante. Não abundam nesta área.
É preciso dizer mais algumas coisas.
Primeira: há muitos livros confusos ou simplesmente maus sobre o tema.
Segunda: não incluo menções ao Email nem ao uso de redes sociais por telemóvel. Temas vastos, complexos ou ainda em consolidação.
Terceira: embora estes sejam livros recentes, nunca estarão suficientemente actualizados. Nas últimas semanas por exemplo, a Google lançou o social search, e o Facebook revelou as suas intenções de se tornar num espaço “aberto”. Já nesta semana, salvo erro, o Twitter lançou as suas listas. Há dois ou três dias, as empresas do Linkedin e do Twitter começaram a partilhar as actualizações dos utilizadores.
Todos os dias há novidades.
Opinião pública.
A blogosfera, que começou por influenciar os jornais e os partidos políticos, é agora uma extensão dos partidos políticos e dos jornais. As centrais da posta dedicam cada vez mais recursos a abafar o pensamento crítico numa cacofonia de newspeak. Mas enquanto se preparam os próximos ataques à independência da justiça e ao exercício da opinião livre (não julguem que há processos Face Oculta sem uma resposta articulada do poder), a vigilância continua a ser um dos trabalhos nobres da democracia participativa.
Precisamos de reforçar as vozes isoladas, as mais preciosas, frágeis e descomprometidas do nosso ecossistema. Isso é possível recorrendo aos social media. Noto que muita gente bem intencionada, com pensamento próprio, despreza o twitter. É um erro que se paga caro. O estudo honesto destes instrumentos acaba por recompensar quem os utiliza.
Mais tarde ou mais cedo, a caixa de ferramentas de um cidadão preocupado terá que incluir isto:
Blogging
Micro-blogging (Twitter)
Social networking (Facebook, Linkedin)
Agregadores de social networking (Friendfeed)
Agregadores de RSS Feed (Google Reader)
Social bookmarking (Google Reader, Delicious, Stumbleupon)
Wikis (Wikipédia)
Photo sharing (Flickr)
Video Sharing (You Tube)
Livecasting (Ustream.tv)
Podcasting (iTunes)
Os blogs não vão desaparecer, mas já cumpriram a sua função. Há que seguir em frente.
“Ó Zézito, já trataste do casamento dos meus amigos homossexuais?”
Os colóquios de Solvay de 1927 marcaram até hoje o mundo da Física, pois aí ocorreu o primeiro duelo titãnico entre Einstein e Niels Bohr.
Este Sábado não foi menos importante para a nossa blogosfera, emocionada com o encontro fecundo entre José António Saraiva, o Einstein da imprensa portuguesa, e a rara perspicácia do seu émulo Vasco Lobo Xavier.
Laurinda Alves: e agora, os pensamentos.

Há anos iniciei as minhas incursões na blogosfera com O Cantinho do Luís Delgado, uma homenagem ao profeta do santanismo que misericordiosamente extingui. Hoje recordei esses tempos meigos e deleitosos ao ler o sanctum sanctorum de Laurinda Alves, ou melhor, o seu cul-de-sac.
Esquecer Pearl Harbour.
Há por aí uns teóricos que defendem que o investimento nos estádios do Euro 2004 deu lucro. O país precisava de eventos para se mostrar ao mundo, por isso, graças aos tais eventos e ao génio fulminante de Guterres o número de turistas que visitam Portugal cresceu nos anos seguintes. Infelizmente, essas contas nunca incluem o efeito da emergência das companhias aéreas low-cost, que ocorreu na mesma época. Falar nos estádios para explicar o incremento do turismo é como dizer que Churchill venceu sozinho a Segunda Guerra Mundial.
A cabeça nas paredes.
Einstein afirmou que a melhor definição de loucura é fazer a mesma coisa, uma e outra vez, e ficar à espera de um resultado diferente.
O país é pobre? Obras públicas. A dívida cresce? Obras públicas. A desigualdade? Obras públicas. Crise? Obras públicas. Corrupção? Obras públicas. O país é pobre? Obras públicas.
É só isto o que resta ao governo de Sócrates. Calar os juizes, pressionar os jornais, e obras públicas.
Este ganhou dinheiro sem andar no TGV.

O autor vende a sua casa, encaixa algum capital e decide duplicá-lo em seis meses. Se fosse português comprava um BMW e investia o resto em acções da Mota-Engil mas, como nasceu na Irlanda, vai dar a volta ao mundo e fazer negócios pelo caminho. A aventura começa em Marraquexe e inclui paragens na Somália (para comprar camelos), no Zimbabwe e Botswana (café e malaguetas), na África do Sul (vinho), Índia, Kirguistão, China e sudeste asiático, Japão, América Central e Brasil. A lista de trocas é excessivamente vasta e variada para caber nesta sinopse. O resultado manteve-me de olhos bem abertos até às seis da manhã (ter dormido a sesta ajudou). Qual twitter for business, qual social media marketing. Ganhar dinheiro é isto.
Sim, meu anjo: é “forçada”.
Em Paris visitei recentemente uma zona – o Marais – frequentada à noite por multidões de homossexuais, e confesso que fiquei muito impressionado com o que vi: milhares de jovens, alguns no início da adolescência, exibiam ostensivamente a sua atracção (real, forçada?) por pessoas do seu sexo.
O José António Saraiva continua imperdível.
Não aprendam, não.

Ontem, oito e meia da noite no Corte Inglês. Esfaimado, pus no cesto os novos tagliolini al nero di seppia da Rana, a que me propunha acrescentar em casa umas gambas fritas com sumo de limão e mais uns truques. Só faltava o vinho, que se queria fresco. Os meus pensamentos dirigiam-se para o Madrigal, ou qualquer coisa sur lie com batonnage (há que impressionar os leitores) — mas fundamental era não entrar na maldita loja gourmet, em que ninguém escapa ao risco de perder misteriosamente o cheque do rendimento mínimo e incorrer na fúria do dr. Paulo Portas.
Portanto, o realismo impunha-me que achasse depressa o expositor refrigerado. Havia um minúsculo, perto dos queijos. La dentro enregelavam duas dúzias de invólucros inúteis: nem Madrigal, nem Navazos Nieport, nem algo que me evocasse lichias, citrinos, avelãs ou outra porcaria qualquer. A garrafinha proverbial do argentino Mysterio não estava ao meu nível, o francês de quarenta euros estava ao meu nível, mas não numa quarta-feira, e os portugueses eram uma versão bojuda e borrachona de um romance do José Rodrigues dos Santos.
Assim, desculpem lá, não restam motivos para sermos patriotas. Peguei num La Motte Sauvignon Blanc 2006, meti-o no saco térmico e despejei-o em casa meia-hora depois. Todos os dias lamento o fraco espírito comercial destes palermas.
Temas.
Há temas que ainda podem ser muito aprofundados no romance de tradição realista.
A explosão das sex-shops de bairro e um magote de anúncios classificados demonstram-nos que a vida sexual dos casais é mais interessante e variada do que julgam os nossos literatos. Por outro lado, uma tradição secular de idealização das mulheres (o eterno feminino, e tal) ainda persiste nas figuras da bonequinha passiva-agressiva, ou da puta generosa mas seca por dentro desde que o tio Marcelino abusou dela em pequena — a que se soma uma galeria de retratos mais urbanos mas previsíveis: a caçadora de homens profissional liberal que suspira pelo latagão meigo e pai formidável, ou então a mulher masculinizada dos thrillers, que descobre as pegadas do dinossauro atrás da Gioconda e põe o Vaticano em alvoroço ao comprometer o transporte do urânio enriquecido.
Quero eu dizer que falta dedicar muito trabalho às mulheres.
Outro território importante é o da desigualdade — não a desigualdade entre ricos e pobres, que nos ocupou mais de um século e já enjoa. Mas tenho a certeza que existe potencial romanesco no facto de tantos homens, por exemplo, morrerem aos quarenta sabendo que a grande maioria atingirá o dobro da idade. A morte deixou de ser a grande niveladora, é menos partilhada. Que histórias retiramos daí?
Não tenho tempo para escrever mais, mas regressarei a estes assuntos.

Na Somália, um homem de 112 anos casou-se com uma jovem de 17. Não percamos a esperança.
Amiguismos. Notas breves.
- É indecente que o Francisco José Viegas se tenha referido por duas ou três vezes, e com grande amabilidade, a este blog sem que eu o cumprimentasse pelo melhor lançamento de um romance a que já assisti em Portugal. Esta manhã, por coincidência, estive a falar com uma editora a respeito do assunto: o que aconteceu com o 2666 de Bolano foi muito bom.
- Já o Pedro Mexia, que nunca se referiu com ou sem amabilidade a este blog (não me estou a queixar), escreveu uma recensão belíssima de La Terra Santa, de Alda Merini.
- O Eduardo Pitta anda a fazer uma análise discreta mas muito equilibrada das mudanças no Público. Vale a pena estar atento.
- O José Vegar, jornalista emérito e homem de coragem, criou um blog. Vai para a barra dos links mal eu tenha tempo.
- Por falar em jornalismo, também me atrasei no link para este post do Daniel Oliveira. Uma excelente reflexão sobre a cidadania e a imprensa.
3.

O jardim do Palace Hotel Bussaco, antes de me etilizar com três gin-tónicos na varanda e de perder sem qualquer dignidade ao crapô.

Ontem à noite. Nikon D700, Zeiss ZF 100 mm Makro-Planar, ISO 560, 1/125 seg., f/4.0. As cores ficaram esmaecidas na passagem para o blog, não me perguntem porquê.
E o Galambinha, já foi à pica?
A jornalista de causas Fernanda Câncio encerrou a noite de segunda-feira com esta prosa bem humorada:
às vezes sucede a todos ao mesmo tempo. um dia inteiro sem jugular. é giro.
Mais ou menos a essa hora uma criança de dez anos arrostava a última dor de cabeça da sua curta vida. Durante a madrugada o miúdo desfez-se em merda, com crises de vómitos e diarreia, e foi parar às urgências do hospital D. Estefânia, de onde o transferiram para o serviço de Infecciologia em que viria a morrer nessa mesma tarde.
Sim, eu tenho uma teoria. Após um ano de campanha no blog que administra, uma campanha marcada pelas indignações selectivas e pela adulação inane, mas bem recompensada, dos refluxos do primeiro-ministro, a Fernanda Câncio antecipou um problema ético maçadoramente real: como justificar a decisão do seu Governo de incluir os titulares dos órgãos de soberania entre os primeiros beneficiários da vacina contra o virus da gripe A?
Na América, o Presidente Obama já assegurou ao povo que vai esperar pacientemente pela sua vez. Ou seja, vai ser vacinado depois das crianças americanas, como qualquer adulto saudável. E em Portugal? Por cá, a jornalista de causas Fernanda Câncio, eminência colorida da blogosfera de Sócrates, prefere chutar para o canto, assobiar para o lado e vitimizar-se antes que alguém lhe faça perguntas incómodas. Só é pena que a sua estratégia nos pareça tão destituida de sentido de oportunidade.
Pois é, é muito giro. Mas o Adriano, ao contrário dos políticos que a Fernanda Câncio defende, morreu.
Meu reino por umas favas.
O país está repleto de artolas para quem aquilo que temos de bom é invariavelmente o melhor do mundo. As nossas praias são as melhores do mundo. Os nossos vinhos são os melhores do mundo. Lisboa é a mais bela cidade do mundo (e o que diriam se a Câmara limpasse de vez em quando a bosta acumulada nos jardins e multasse os automóveis que assoberbam os passeios).
Como é evidente, também os florilégios das nossas cozinheiras formam aos olhos dessa gente a melhor gastronomia do mundo. Que os chineses, os franceses, os italianos, os japoneses, os peruanos, os mexicanos, os marroquinos, os tailandeses e os indonésios lhes perdoem, a esses patêgos que arrotam postas de pescada de pulseirinha na água choca em Cancun e Varadero, porque eu não consigo.
Se temos a melhor cozinha do mundo, porque é que ainda não comi umas favas decentes desde que regressei a Lisboa? Umas favas, senhores: não são lombos de cavalo-marinho com redução de beluga em cama de línguas de colibri das montanhas rochosas e aipo-bola flambeado. São favas, caralho.
É assim tão difícil, para os génios que pontificam nos nossos tascos, servir umas favas que se traguem: feitas com enchidos das berças, com molho apurado, com um pouco de amor? Será que tenho de ir comer favas ao Pap’Açorda?
Livros.
Venice: Pure City, de Peter Ackroyd.

Nunca conseguiria ganhar a vida a escrever sobre livros: um terço fica por ler, outro é lido aos solavancos; e entre as obras que sobrevivem à punção nevrótica do meu modus operandi não são raras as que acabam posternadas, magras e exangues num banco de pau ao Jardim da Estrela.
O último livro de Peter Ackroyd, que por enquanto escapa ao golpe de misericórdia, seria um bom candidato a vítima se eu não amasse o assunto e não respeitasse o autor. Venice: Pure City está longe, muito longe de competir com a joie de vivre de J.G.Links, o belo estilo de Jan Morris, o humor eduardiano de Norwich, a alta literatura de Brodsky ou a atenção fascinada de Matvejevic. Nem vale a pena metermos na lista John Ruskin e Margaret Plant.
Por outro lado, é uma obra que acompanha bem Mary McCarthy, Tiziano Scarpa, Paul Morand, Liliana Magrini e a excelente síntese de Diehl. Ou seja, Venice: Pure City nunca será uma introdução indispensável, mas também não despreza a inteligência do leitor (para isso já temos os pastelões de John Berendt e Freely).
Ackroyd revela-se um homem consciencioso, que estudou as suas fontes. Infelizmente, como afirmou McCarthy, tudo o que podia ser dito sobre Veneza já foi dito, incluindo isto que estamos a dizer. O déjà vu de 400 páginas agora publicado não acrescenta um chavo à vasta bibliografia ou hagiografia venezianas.
Diga-se de passagem que a qualidade da escrita é coisa pouco importante. Se o texto necessitar de metáforas fulgentes, devemos proporcioná-las ao leitor. Mas Defoe redigiu clássicos com uma prosa canalha e atamancada. Flaubert andou à caça de palavras repetidas para nos fazer bocejar a meio dos Trois Contes. E no limite do ataviado, que encontramos nós? Não Proust, nem James, mas o ilegível Finnegans Wake.

A foto é miserável, mas vejam só estes bolinhos. Comprei-os no Luxembourg e fui papá-los a Versailles.
Da ironia.
Swift ficou irado com o êxito universal das Viagens de Gulliver. Ele tentara, afirmou, envergonhar os homens, e em vez disso apenas conseguira fazer com que se rissem.
Como instrumento do combate político, a ironia é ineficaz: não esclarece nem mobiliza, e os seus cultores parecem-nos quase sempre alheados, descomprometidos, detached.
Apesar disso, não é uma ferramenta desprovida de virtudes:
- A ironia mantém-nos dentro da arena em batalhas desiguais.
- A ironia atrai aliados improváveis.
- Em alguns casos, a ironia aponta exemplos aos seus alvos — mostra-lhes o que poderiam ter sido, se não se tivessem transformado naquilo que são.
Nietzche escreveu que todas as afirmações estúpidas merecem respostas inteligentes. A ironia é a resposta dos que aprenderam a esperar. Podia desenvolver o tema, mas o ensaísmo blogosférico aborrece-nos.
Há festa em África.

Na Costa do Marfim, Gana e Mali as multidões celebram os excelentes resultados obtidos no relatório sobre liberdade de imprensa dos Repórteres sem Fronteiras. O Ministro dos Assuntos Parlamentares, Dr. Hawa Mukeila Issaké, regozijava-se ontem por o jornalismo do seu país ser agora tão livre como o de nações prósperas, com governos reformistas e democracias sem mácula, mencionando a título de exemplo o caso português.

Durante a manhã, esta delegação de um jornal de referência sediado em Acra ultimava os preparativos da sua deslocação a Lisboa. O director do Daily Pasquin manifestou-se optimista com a anunciada troca de experiências, num ambiente de sã convivialidade, que irá decorrer no Hotel Altis a partir do dia 9. Todos temos a ganhar com esta partilha mútua de saberes e visões, obviamente complementares, e sempre marcadas pela excelência de conteúdos que distingue o trabalho dos nossos repórteres na Europa e em África.

Nikon D700, Zeiss ZF 35mm, f/8.0, 1/640s, ISO 200.
A namorada pediu-me uma fotografia para expor em casa dela. Suponho que não há maior pesadelo para um fotógrafo amador. Quando viajei pelos países nórdicos consumi mais de sessenta rolos e só aproveitei três impressões. Das viagens seguintes, nada encontro que sobreviva com dignidade a uma parede branca. Um dia perguntaram ao pintor Francis Bacon porque é que não existiam obras de arte no seu apartamento. Bacon respondeu que não conseguiria olhar para a mesma imagem durante vários dias.
Regresso à pátria e efemérides.

Deixemos para mais tarde as evocações da minha semana parisiense.
Ao chegar a Lisboa notei que um par de efemérides suplicava a homenagem ternurenta dos leitores: o Jugular comemora o seu primeiro aniversário, enquanto o Telejornal da RTP celebra meio século de informação isenta, que a todos enobrece.
Os quarenta e nove anos que os apartam não devem alhear-nos da tradição crítica que muito os aproxima. Nem as diferenças de estilo comprometem o reconhecimento de um objectivo comum: proteger a cidadania pela vigilância, sempre desinteressada, do poder.
Ao longo de cinco décadas o Telejornal denunciou os abusos do salazarismo, a pusilanimidade da primavera marcelista, os excessos do verão quente, a venalidade das elites e a pulsão autoritária que corrói todas as maiorias absolutas.
Ao longo de doze meses os autores do Jugular denunciaram os abusos da justiça, a pusilanimidade das corporações, os excessos da oposição, a venalidade da direita e a campanha negra que corroeu a última maioria absoluta.
Ambos deram voz aos pobres, às crianças, aos velhos, aos esquecidos dos regimes. Ambos condenaram as obras sumptuárias e o desperdício dos recursos públicos. Ambos puniram a corrupção do Estado sem cálculos partidários. Ambos defenderam a qualidade da nossa democracia.
Graças aos seus esforços, vivemos hoje num país mais próspero; e é feliz a nação que se pode orgulhar de tais instituições.
Em defesa de Berlusconi.

O João Morgado Fernandes aborreceu-se com o meu post anterior.
Ele afirma que o cinismo não é bom conselheiro. Mais, queixa-se amargamente por eu ter escrito que Berlusconi combateu interesses instalados e privilégios. Depois insinua que só quero fazer crítica doméstica (essa parte não entendo). E finalmente proclama, sem lugar a recurso, apelo ou agravo que este vosso serviçal releva uma azia desnecessária.
Corri logo para os sais de frutos. Nunca, em quase quarenta anos de reflexão serena, fui vitimado por tamanho renque de injustiças.
O que me ofende, desde logo, nem são os insultos à minha singeleza. Pior que tudo é o juizo severo e aprioristico que o João reserva ao primeiro-ministro italiano.
Desde que retomou a chefia do Governo, Silvio Berlusconi fez um trabalho a todos os títulos notável em defesa dos interesses do seu povo:
- Para começar enfrentou o poderoso lobby da justica, em que avulta a bem organizada corporação dos juizes.
- Depois fez uma corajosa reforma da administração pública e do sistema educativo, que trouxe para as ruas cerca de um milhão de professores.
- A seguir corrigiu alguns abusos da liberdade de imprensa, maliciosamente alimentados por um ou outro canal de televisão e alguns directores de jornais.
- Finalmente, tem vindo a encetar um expedito programa de obras públicas, sem a habitual canga de burocracias, concursos e regulamentos que entravariam o progresso de um país assolado pela crise internacional.
Perante tudo isto, confesse-nos, João: ainda acha que não é suficiente? Que estas medidas não combatem interesses instalados e privilégios?
Considera razoável alimentar insinuações torpes a respeito de um homem que mantém o seu cadastro imaculado, apesar de todas as aleivosias da oposição?
Mas afinal, onde é que você encontra um primeiro-ministro mais determinado, mais eficiente, mais reformista do que Berlusconi — aqui, na Europa do Sul?
Outra boa alma.
A Palmira Silva exibiu no Jugular a resposta de Berlusconi à lamentável decisão do Tribunal Constitucional que lhe retira a imunidade. Tal como eu, a Palmira deve estar muito triste com a campanha negra, feita de ataques pessoais e calúnias infames, orquestrada pelos partidos da oposição (e alguma comunicação social) contra o primeiro-ministro italiano que mais combateu os interesses instalados e os privilégios.
Wolf Hall. O veredicto.

Wolf Hall, de Hilary Mantel, venceu o Booker. Se eu fosse um blogger recomendável já teria despachado o calhamaço, que anda por aqui há um mês a apascentar ácaros. Assim posso asseverar que se trata de uma obra muitíssimo competente, para pousar cinzeiros e xícaras de café: tem sobrecapa lavável e ilustração anacrónica de inspiração floral, o que lhe confere certa dignidade de tabuleiro. Também seria um bom calço, se não viesse com 650 páginas — falha considerável do editor. Já li o Coetzee e a Byatt, na senda de uma tendência muito íntima para apostar em cavalos errados (com o devido respeito).
Vou ver o que posso fazer pelos leitores. Mas daqui a pouco estarei em França, onde só se admitem capas beije com alusões kinky. E a senhora Hilary Mantel, a crer na fotografia, nunca ganharia galardões literários abaixo de Calais. Falta-lhe, possivelmente, um je ne sais quoi.

Composição.

Há um momento em que o amante da fotografia tenta compreeder os princípios básicos da composição. Esse apetite louvável desagua num cataclismo de Temor e Tremor, à medida que as obras recomendadas por fotógrafos reputados nos manifestam a sua total indigência. Não conheço um livro de composição fotográfica que ultrapasse com mérito a regra dos terços, ou outras tolices do género.
Por outro lado noto que existem belos volumes sobre composição pictórica, os quais oferecem ensinamentos preciosos ao fotógrafo. Este Mastering Composition, de Ian Roberts, é um exemplo que me educou muitíssimo nos últimos dias.
Avis.

Avis mete nojo. As torres que se erguem na vila permanecem anónimas e inacessíveis. Em lado algum se faz menção à ordem militar que reconquistou parte do Sul e nos deu o primeiro monarca da segunda dinastia. O velho jardim público, sereno, repleto de sombras, foi substituido por uma armadura modernaça e reluzente a que só faltava fazer jogging e vestir Armani para aparecer nas revistas sociais com a noiva desamparada.
É aí que a juventude da terra, uma canalha pingona e cheia de ramela, coça os tomates, rouba beatas aos turistas e despeja vinho mau nos canteiros de cimento armado.
Os dois restaurantes decentes faliram. O clube náutico, provando o sentido comercial que inspira esta gente, recebeu o fim-de-semana prolongado com correntes e taipais. Apesar disso, a campanha eleitoral somou êxitos da Kátia Máriza, os panfletos atafulharam as ruas e junto à barragem houve uma concentração de putas com motards.
O que me magoa: Avis é um pardieiro que podia ser sublime, se não tivesse desprezado a sua história, destruído os seus jardins e transformado em papa a geração que a devia renovar. Tal como está, não sei se é uma coisa moderna ou medíocre. Sei que não tem memória, e que não vai a lado nenhum.
O que pensar.
Uma parte de mim concorda com o protesto do Henrique Raposo: o regime está podre, é preciso renová-lo, e tal. Mas depois de pensar melhor cheguei a esta conclusão: o que está podre não é o regime, é o PSD.
Todos os problemas de regime identificados nos últimos tempos (e são quase sempre identificados pela direita) resolviam-se com uma oposição decente do Partido Social-Democrata.
Não tenho muito tempo para formular este raciocínio, mas gostava de propor grosseiramente o seguinte: só podemos dizer que um regime está moribundo quando as instituições são incapazes de se renovar. E em democracia é vulgar que as instituições não se renovem porque os partidos políticos as bloqueiam. O ancilosamento institucional resulta do rigor mortis partidário.
O problema, para os defensores da tese do Henrique Raposo, é que os nossos partidos estão bem e recomendam-se. O CDS renasceu das cinzas. O Bloco cresce há 10 anos sem interrupção. O PCP gere com sabedoria a sua inevitável decadência. O PS não só sobreviveu como se reconstruiu após a devastação do caso Casa Pia, e tem agora uma liderança fortíssima com um projecto de poder impiedoso.
Autofagia, cacofonia, incompetência estratégica, bizantinismo — só mesmo o que nos chega do PSD. O regime não se renova porque o PSD não deixa. Não temos oposição a sério porque o maior partido da oposição não funciona. Não temos alternativas de Governo, porque o PSD não consegue ter uma ponta de credibilidade.
É só este o problema: não é o género humano, é o Manuel Germano.
O que o Presidente devia ter dito.
Portugueses,
A Presidência da República é frequentemente invocada, citada e criticada pelos actores políticos, muitas vezes sem razão, durante os períodos de campanha eleitoral. Essas ocorrências, que não nos orgulham, fazem parte da vida democrática.
Não cabe ao Presidente comentar comentadores ou responder a notícias de jornais.
Recentemente, no entanto, a Presidência da República foi associada a um facto de especial gravidade que, se não fosse por mim desmentido, poderia pôr em risco o regular funcionamento das instituições democráticas. Esse facto, esse rumor propalado por notícias falsas, pretende sugerir que o Presidente receia ou receou ser alvo de escutas comandadas por um outro órgão de soberania.
Quero desmentir veementemente esse rumor e essas notícias.
Durante a campanha eleitoral considerei que o assunto, por ser delicado, merecia uma intervenção discreta — e nesse sentido procedi a uma reorganização da minha Casa Civil. O efeito desejado, infelizmente, não ocorreu: as notícias falsas não acabaram, e o nome do Presidente continuou a ser associado, de forma injusta, a uma pretensa intervenção na disputa partidária que então decorria.
Quero por isso deixar bem claro o seguinte:
O Presidente nunca afirmou que era alvo de escutas, nem alguma vez manifestou preocupação semelhante.
Quem quer que tenha dado essa notícia aos meios de comunicação social, se é que a notícia foi dada, não falava em nome do Presidente.
Só o Presidente, ou os chefes da Casa Civil e da Casa Militar do Presidente, falam em nome da Presidência da República. Mais ninguém está autorizado a fazê-lo. Repito: ninguém.
Rejeito por isso qualquer insinuação de que a Presidência tenha inspirado, patrocinado ou tolerado as notícias e os rumores que referi.
O país atravessa tempos difíceis. São pesadas e inúmeras as responsabilidades que recaem sobre o Presidente da República. Não fugirei delas.
Cabe-me assegurar que existe, entre os órgãos de soberania, uma relação de respeito, lealdade institucional e dedicação à causa pública. E pretendo ser o primeiro a dar o exemplo nesse sentido.
Os Portugueses sabem que podem contar comigo: não para insuflar crises artificiais, mas para ajudar a resolver os graves problemas que enfrentam todos os dias.
Não para alimentar guerrilhas institucionais, mas para valorizar e engrandecer as nossas instituições.
Essa é a missão do Presidente. E esse é o meu desejo profundo, que achei necessário sublinhar perante todos.
Boa noite.
(Publicado também aqui)





