Au revoir.
02-03-08
Nestes anos em que escrevi blogs acompanhei uma sucessão improvável de doenças e de mortes. A indiferença, a variedade do mundo, podem revelar-se uma espécie de terapia — mas até as terapias chegam ao fim.
Ainda imaginei transformar este Vida Breve numa plataforma de intervenção política, mas faltam-me a paciência e as convicções. Os portugueses não merecem ser salvos, nem eu mereço perder mais tempo com pechisbeque.
Também desisti de adoptar um tom confessional. Quando duas ou três referências biográficas geraram pequenas tempestades entre o meu grupo de amigos, foi fácil perceber que este blog tinha chegado ao fim. Aquilo que os divertia, aplicado aos outros, magoava-os se fossem incluidos no retábulo que desenhava para mim.
A história da literatura, desde as confissões de Rousseau às inconfidências de Warhol, está repleta destes equívocos — mas a infinita candura dos autores, o seu espírito de jogo, são eternamente tomados de surpresa por um mundo que nos olha de soslaio sem o sabermos.
E eu detesto que me olhem de soslaio. Principalmente sem saber.
Talvez reanime este blog quando viajar outra vez. Ainda não decidi. Há uma tonelada de burocracias para pôr na ordem, coisas para vender, gente demasiado frágil que precisa de mim. Vão passar alguns meses antes que me sinta livre de amarras e regresse ao Oriente.
Até lá, desejo o melhor dos mundos a quem me dedicou uma atenção constante, nem sempre merecida.