Pornex 1984/2014.

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João Morgado Fernandes:

uma das reuniões mais importantes foi aquela em que convencemos adriano (duarte rodrigues), então director da faculdade, que a projecção do ‘garganta funda’, a meio da tarde, seria feita apenas para estudantes da fcsh. um inteligente jogo do gato e do rato: naquela altura, já se falava da pornex por todo o lado e o salão haveria de ficar a abarrotar de gente, com muitos estudantes de outras faculdades. mas adriano, especialista em media, fingiu que nós íamos vedar a entrada a estranhos e nós fingimos que íamos vedar. aprendia-se muito na faculdade, naqueles tempos.

(…) quanto ao que se passou recentemente com o ics e a fac dir coimbra, não deixa de ser uma surpresa, especialmente tendo em conta o tipo de instituições que praticaram o acto de censura (não tem outro nome).durante muito tempo, admiti que salazar deixou marcas muito profundas, especialmente na cabeça das pessoas. mas tendo a rectificar e a ver salazar como mero epifenómeno de algo mais fundo. basta olhar para a nossa história, a mais longínqua e a mais próxima, e ficamos espantados com os raríssimos momentos de luz.

Rui Zink

A Pornex era um teste à liberdade, à capacidade de encaixe, ao sentido de humor, à alegria, à democracia e, enfim, também à universidade. Pode-se ou não discutir tudo? Podemos ou não, sobretudo na universidade, discutir a coisa humana? Ou só são tolerados os “temas decentes”, que não “ofendam a gente de bem”? E a FCSH, graças a Deus e às pessoas, passou o teste. De raspão, titubeante, com umas hesitações aqui ou ali (à portuguesa), mas passou. No mesmo ano, recorde-se, a direcção da RTP tinha caído por causa de, valha-nos Santa Ingrácia, um filme brejeiro com Ugo Tognazzi e Monica Vitti, Pato com Laranja. Onze telefonemas indignados, onze, menos do que os que o Ronaldo dá seguidos, bastaram para a Santa Indignação abalar o país. Em 1978,  o parlamento tinha debatido um sketch de Alberto Pimenta na RTP (“A Arte de Ser Português, realizada por Jorge Listopad). Em 1987 Herman viria a ser alvo de censura também na RTP. E ainda faltavam uns anitos para Saramago ser sonegado por um governo com horror às demasiadas vírgulas.

(…) Agora vêm de rajada duas notícias e meia assustadoras, porque de duas universidades: a revista do Instituto de Ciências Sociais adstrito ao ISCTE e a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. A revista: por conter graffiti que punham “em causa o bom nome da revista e da instituição”. Coimbra: “por um debate marcado pela Associação de Estudantes entre figuras conhecidas ser invejável.

Inventário da exposição aqui, via João Lisboa.

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