Dos costumes.

Os problemas de costumes nunca me interessaram particularmente, excepto quando punham em risco os valores da liberdade e da igualdade, como se verificou na campanha sobre a despenalização do aborto. Mas hoje considero que devia ter revelado mais clareza nestes temas, porque os confrontos sobre costumes funcionam como uma sinalização. Dando um exemplo remoto, é fácil começar por defender a modéstia, depois o véu, a seguir a burqa e desembocar na renúncia da democracia ou de direitos humanos primordiais.

Em Portugal, quem não for um cepo tem obrigação de contribuir para duas coisas:

1. A recuperação do combate ideológico, que se transformou numa longa anestesia e arrastou a indiferença da opinião pública. A crença de que as ideologias são “más” deve ser combatida, ridicularizando quem a partilha. Falo de gente estúpida como Cavaco Silva, ou dos defensores de “compromissos estratégicos” interpartidários. Que se fodam os compromissos: dava-nos mais jeito uma guilhotina.

2. Uma derrota duradoura da direita. É urgente que o país recupere os ideais da social-democracia que nos trouxeram o sistema nacional de saúde, a educação pública, a segurança social para todos, etc. E já compreendemos que isto não se mantém com o PSD ou o CDS. Portanto, ala. As tentativas de entendimento e harmonia democrática devem dar lugar a confrontos mais radicalizados, que não alienem o povo.

Como se faz isso? Para começar, regressando aos costumes mas numa perspectiva não geográfica nem geracional. Ou seja, há que evitar os erros do Bloco, que se especializou nos jovens da classe média urbana com formação superior. Temos de ir para além disso. Recuperar temas como a eutanásia, as touradas (aqui accionando um combate sem tréguas ao marialvismo), os cuidados paliativos (roubar espaço à direita que se mexe bem nestas águas), o papel da religião e das instituições de solidariedade “alternativas” (como as misericórdias, uma das grandes ferramentas da influência dos reaccionários), o aprofundamento dos direitos e vantagens das uniões de facto, o aumento dos impostos sucessórios (um aumento “ideológico”, se me permitem), etc. Nestas e em muitas outras causas devemos cavar fossos onde antigamente existiam pontes.

A partir daqui podemos partir para coisas mais importantes: a economia pública, a igualdade, mas já com rituais de conflito e assertividade, de que a esquerda precisa como de pão para a boca.

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10 pensamentos sobre “Dos costumes.

  1. Outro exemplo remoto: começamos com IRS, depois vem a progressividade nas taxas, os tectos salariais, o planeamento centralizado, a detenção estatal dos meios de produção e acabamos a perseguir inimigos do povo.

    Agora quanto ‘a questão tatica propriamente dita, faz sentido o que escreve.
    Porém, quanto ‘a estratégia, o centro esquerda vai descobrir nos próximos anos que “social-democracia” como a conhecemos foi produto de dois fenómenos: medo da URSS e o maior crescimento economico no ocidente em 5 séculos.
    A URSS acabou e quanto a crescimento economico, a demografia e a China explicam o resto. O Hollande nao ‘e atrasado, entregou-se ao Valls por estrita sobrevivência e talvez nem assim escape politicamente.

    Ultimo ponto: as touradas e a eutanasia são menos geográfica e geracionalmente localizadas do que o aborto e o casamento homosexual?

    Desculpas pelo corrector ortográfico,

    Miguel ND

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    1. Outro exemplo remoto: começamos com a troika, seguem cortes institucionais de salários e subsídios, ataca-se o tribunal constitucional e fica-se numa democracia musculada.

      ” as touradas e a eutanasia são menos geográfica e geracionalmente localizadas do que o aborto e o casamento homosexual?”

      Não: mas é a esquerda que se deve preocupar com o enfoque, o que fazem os outros é lá com eles.

      De resto, meu caro, talvez lhe agrade saber que a social-democracia nasceu no século XIX.

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    2. Sim, Miguel, começamos com taxas progressivos e acabamos a abrir campos de concentração. A conhecida teoria do road to serfdom, prima das teorias endocrinológicas que garantem que se dermos um chocolate a uma criança, esta torna-se um adulto obeso e psicopata. Mas não percebi se a sua tese é política, se é orçamentária. Isto é, não percebi se acha que tem estado em risco de ser preso e agora talvez um pouquinho mais aliviado, se acha que foi bom enquanto durou, mas já não há mais dinheiro para palhaços. Tem de resolver esta contradição, antes que os chineses resolvam subsidiar aqui a social-democracia, para nos transformar numa nova Albânia, agora em modo parque de diversões nostálgico. Acho que já começou.
      Sobre os custos, se os bons burgueses acham que a social-democracia é cara, aconselhava-os a colocar já os seus filhos a aprender o preço de não a ter, e isso não se aprende nem com o melhor MBA do mundo. A alternativa, mais preguiçosa, é esperar. Diz o Miguel que o “centro-esquerda vai descobrir…” Ficaria o Miguel sentado de perna traçada no camarote? Poste-se então na varanda de um hotel em Melilla e vai ver os que saltam agora todos os dias o muro para cá, começarem a saltar outra vez o muro, agora para o lado de lá. Eu acreditaria nisto, se já não acreditasse na existência de alternativas. Mas não tenho queda para o apocalipse.
      Sobre a origem da social democracia, tem origem no séc. XIX, como disse o Luís Jorge, com a doutrina social da Igreja e otras cositas avulsas, e não foi exatamente o medo que a motivou, mas outra coisa mais nobre, que nem toda a gente se move simplesmente pelo medo. Mas também é verdade que o receio de a malta se passar para os bolcheviques teve alguma coisa a ver com o seu desenvolvimento no século XX. Que esse medo aparentemente esteja a passar, e as consequências talvez agora fossem diferentes, não menos violentas, é… de ter medo de gente tão desmiolada. É que repare mais uma coisa: o tal maior crescimento económico em cinco séculos também teve algo a ver com a própria social-democracia ou com algo aparentado: a garantia de que se continua a produzir riqueza, mas que é bem distribuída, o que gera riqueza. A possibilidade de o filho de um pobre ter saúde e estudos tem sido importante nesta dinâmica. Portanto, precisamos de mais esquerda, não menos.

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