Este blog foi reanimado em Julho após uma interrupção de cinco meses, atingindo a partir de Outubro uma média de 300 leitores diários (um pouco menos no final do ano), a que acrescem, com alguma sobreposição, 170 subscritores por Google Reader e um número indeterminado de fregueses noutros leitores de RSS.

Seria interessante tentar perceber quais os limites desta evolução. Mas em Janeiro espera-me um projecto complicado, com objectivos exigentes, por isso vou ter que abrandar o ritmo das actualizações. Talvez consiga escrever um, dois textos por semana. Com alguma sorte, talvez esses textos adquiram uma qualidade meditativa que sempre faltou aos meus exercícios diários. Tudo muda. Nem sempre para pior. Feliz ano novo.

Night.

By Tony Judt

I suffer from a motor neuron disorder, in my case a variant of amyotrophic lateral sclerosis (ALS): Lou Gehrig’s disease. Motor neuron disorders are far from rare: Parkinson’s disease, multiple sclerosis, and a variety of lesser diseases all come under that heading. What is distinctive about ALS—the least common of this family of neuro-muscular illnesses—is firstly that there is no loss of sensation (a mixed blessing) and secondly that there is no pain. In contrast to almost every other serious or deadly disease, one is thus left free to contemplate at leisure and in minimal discomfort the catastrophic progress of one’s own deterioration.

(Extraído do Google Reader da Ana Margarida Craveiro.)

Dois retratos.

No Público de hoje menciona-se seriamente (como o assunto merece) a possibilidade de demolir alguns estádios do Euro 2004. Numa outra página revela-se que o Alentejo obteve em 2009 os melhores resultados turísticos de sempre.

Não é difícil compreender o que se passou para chegarmos até aqui. De um lado houve um Governo de incapazes, que alinhou com alacridade numa estratégia de grandes eventos sem a integrar em qualquer visão do país. Do outro lado tivemos o trabalho honesto de algumas câmaras que valorizaram os vinhos, a gastronomia, o ordenamento das cidades e até (como no caso de Montemor) a cultura, para criarem um produto de qualidade que agora (e agora é o momento) irão promover internacionalmente.

No Alentejo teremos uma nova Toscânia, em Portugal um atamancado Brasil. Uma coisa é certa: a implosão dos estádios será um belo símbolo do regime.

Livro de 2009.

Não gosto de escrever sobre livros, um acto que sempre associei à necrofagia. Por outro lado, gosto muito de ler quem escreve sobre livros. Há algo de irresolúvel no meu dilema. Com este livro de Coetzee aprendi duas coisas: que é sempre possível revirar um género dominado por fórmulas; e que a boa literatura nasce nos tomates.

A família que me resta — uma avó e um irmão — reuniu-se há dias num presépio das berças, frio como a noite dos tempos. Eu fiquei em Lisboa, coberto de cinzas, a tentar erguer alguma coisa que se parecesse com a família que tinha. Aqui não cheira a lenha, nem caminhamos sobre as pedras, nem precisávamos de um dia de mortos.

Causas para 2010.

Temo que a consagração do casamento entre pessoas do mesmo sexo provoque uma sensação de orfandade aos meus leitores da esquerda moderna. Agora que o Rubem e o Martim podem juntar os trapinhos, haverá nesse roupeiro cheio de Versaces, Cavallis e Gallianos alguma coisa por que ainda valha a pena lutar? Será a blogosfera de Sócrates forçada a deter-se em temas áridos, como o desemprego, a corrupção ou o défice? Numa palavra: nunca.

O mundo continua repleto de apelos galantes, que bramam pelo activismo das senhoras preparadas para cometerem o singular pecado de pensar. Inspirado pelos bons sentimentos desta quadra festiva, apresento-vos o meu conjunto de ideias para 2010.

Janeiro: legalização da eutanásia, adopção gay e casamento transgender, corte de relações diplomáticas com o Vaticano, referendo contra a Fox News, proibição dos rodeos e criação de cinco regiões administrativas. A parte das regiões é chata, mas trata-se de um dever patriótico. Em alternativa: acabar com o patriotismo.

Fevereiro: educação sexual no primeiro ciclo, com distribuição gratuita de preservativos, lubrificantes, masturbadores, coleiras, anéis vibratórios, lingerie comestível, algemas, correntes para mamilos, arneses e godemichets. As nossas crianças têm direito a uma sexualidade plena, vivida em profundo respeito pelas diferenças. Lançamento do Projecto Vasco da Gama, que levará às escolas o primeiro dildo totalmente fabricado em Portugal.

Em Fevereiro, nas mochilinhas deles.

Março: o Grande Festival da Primavera celebrará o naturismo, o vegetarianismo e o swinging num vasto conjunto de eventos que animarão a última semana do mês. Os titulares de cargos políticos, as magistraturas judiciais e os funcionários públicos serão encorajados a despir preconceitos e a estreitarem laços com colegas de ambos os sexos. Também os utentes poderão frequentar as instituições do Estado em pelota, tal como deus (um deus metafórico e tolerante) os trouxe ao mundo.

Abril:  em Abril lutaremos por uma imprensa verdadeiramente livre, capaz de romper a canga infame do neoliberalismo. Será tempo de exigirmos que se reconheçam os esforços de uma esquerda actuante, progressista, e de denunciarmos quem se serve ilegitimamente da sua liberdade para promover campanhas de ataques pessoais, calúnias torpes e insinuações vis. A Fogueira das Vaidades, que brilhará no largo do Rato durante três dias, vai ser o ponto alto de uma iniciativa patrocinada pela PT, a que se associam desde já o Diário de Notícias, a TSF, a RTP e o Pedro Marques Lopes.

Brevemente no Correio da Manhã.

Maio: em Maio há eleições antecipadas.

Flight into Egypt.

Mary prays: the fire soughs;
Joseph frowns into the blaze.
Too small to be fit to do a thing
But sleep, the infant is just sleeping.

Another day behind them now,
Its worries past. And the “ho ho ho!”
Of Herod who had sent his troops.
And the centuries a day closer too.

That night, as three, they were at peace.
Smoke like a retiring guest
Slipped out the door. There was
one far-off
Heavy sigh from the mule. Or the ox.

The star looked in across the threshold.
The only one of them who could
Know the meaning of that
Was the infant. But he did not speak.

Joseph Brodsky (trad. Seamus Heaney).

Assim mesmo.

Luis Januário:

(…) Os intelectuais aderiram. Era a sua janela de oportunidade. Como se o engenheiro do Fundão pudesse abrir janelas que não dessem para os pátios do costume: a esperteza, o negócio, a trapalhada, a conciliação sem princípios. Os gays prestaram-se à jogada do mestre beirão. Como as Isildas do costume e as sotainas de naftalina vieram a correr, houve almas distraídas que pensaram estar ali uma batalha ideológica, daquelas que une a esquerda, A Esquerda, esse guarda-chuva virtual que serve de abrigo a tanto malandro. Uma das revelações do ano foi ver a Unidade Simplex, com gente de bem a fazer a campanha do malandro e a perder a trasmontana, como sucede nas acções prosélitas. Agora está tudo claro: os gays são iguais, mas diferentes. Para menos. Podem casar mas é-lhes vedada a adopção. Vão lá fazer as porcarias para longe das crianças. (…)

O sublinhado é meu.

E em 2009 o Mealha ganhou a Lotaria da República.

Esta porcaria contratada por ajuste directo (uma expressão socialista para designar o acesso aos amigalhaços ministeriáveis) custou-nos 99.500 euros, dez vezes mais do que devia. E não, não existe por lá alta tecnologia nem há conteúdos exclusivos que nos maravilhem — qualquer tipo com umas luzes de PHP e um template faz aquilo numa semana*. No gabinete do Mealha devem ter pago 2500 euros ao freelancer do costume e enviado um relambório estratégico de 50 páginas às doutoras (as que tratam do marketing são quase sempre ineptas e quase sempre incapazes de raciocinar sobre matérias complexas, como o custo-hora). Enfim, um caso clínico de falta de vergonha.

Querem combater o défice? Comecem pelos Mealhas.

* Aliás, nem isso fizeram.

(Via Irmão Lúcia).

Casos práticos.

Francisco José Viegas: “O Sr. Juiz”

Salvo erro, ainda não vi gente em pranto, rasgando-se, aos saltos, por causa da intervenção do sr. presidente do Supremo Tribunal de Justiça, num dos ataques mais frontais à liberdade de imprensa. Que um trauliteiro o faça, munido dos instrumentos habituais, estamos habituados; que um presidente do Supremo Tribunal de Justiça peça um tribunal de excepção — digamos, um Tribunal Plenário — que integre a «estrutura política do Estado» (políticos nomeados pelo governo?, pelo Parlamento, pela vizinhança?) para julgar a imprensa e os jornalistas, é não apenas grave como estapafúrdio.

Daniel Oliveira: “Era um homem de sucesso, era um self-made-man, a voz do PS contra as corrupções”

O jornalista da SIC Estevão Gago da Câmara escreveu no “Açoriano Oriental”, quando o agora conhecido deputado integrou as listas do PS para o parlamento nacional, que este se envolvera “com um gang internacional”. A história de Ricardo Rodrigues está aqui e é bonita de acompanhar. A verdade é que o deputado a quem os socialistas deram a pasta do combate à corrupção nos debates parlamentares recorreu aos tribunais para que o jornalista desse o dito por não dito. A justiça deu duas vezes razão a Gago da Câmara. Porquê? O juiz de instrução concluiu que a acusação de que Rodrigues se envolvera “com um gang internacional” tinha sustentação: “Ao mesmo tempo que [Débora Raposo, professora do ensino básico para a qual Rodrigues trabalhava] se apresentava ao assistente na “humilde condição” de professora do Ensino Básico, e em vias de aposentação, mantinha uma suite e um escritório no hotel (…), contactos com pessoas alegadamente proeminentes na finança mundial (entre eles um tal Z, que prestava “serviços financeiros” a partir de Miami, e um Cardeal [sic] Ortodoxo, responsável de uma sociedade financeira)”. A Relação corroborou a sentença da primeira instância, notando que o artigo de opinião contribuiu para “a formação” de “juízo crítico”.

A Palmira F. Silva também está muito preocupada com estes assuntos da justiça, da ética na política e assim.

Tulipas e girassóis.

A fúria especulativa do mercado da arte contemporânea já era tema de conversa nas tascas do Rebordelo e de Condeixa-a-Nova. O assunto foi amplamente dissecado neste livro de Don Thompson e os investidores seguiram à risca o primeiro mandamento de todas as bolhas: assim que chegar à imprensa ou às editoras, fujam depressa.

Ontem ficámos a saber que a Christie’s e a Sotheby’s perderam 75% das receitas em leilões de arte contemporânea entre 2008 e 2009. Os números das transacções privadas estão, como sempre, no segredo dos deuses, mas não devem chegar para encher a piscina com Bollinger.

E para que o leitor não diga que a vasta equipa do Vida Breve só publica coisas velhas, eis uma profecia extraída há pouco da nossa bola de cristal: temos a certeza inabalável (ah, a doce irresponsabilidade da blogosfera) de que nos próximos dois ou três anos ocorrerão novas quebras importantes nas cotações em bolsa de empresas associadas a grandes marcas internacionais. Esta tempestade perfeita será causada pela acumulação das valorizações excessivas da brand equity ou, se quisermos simplificar, do valor acrescentado pelas marcas. A bolha já foi analisada em livro, no final do ano passado — por isso fujam, fujam depressa.

O fotógrafo amador contemporâneo desloca-se com um arsenal de câmaras, objectivas, sacolas e tripés, aparato que faria sorrir inúmeros profissionais de altíssimo nível: David Alan Harvey, da Magnum, usa quase sempre a mesma objectiva de 35mm; Garry Winogrand preferia 28mm; Cartier-Bresson popularizou os 50mm; Bazan e Costamanos (este também da Magnum) oscilaram entre os 28mm e os 35mm.

Um homem, uma câmara, uma lente. Chega e sobra.

Pacifismo e não-violência.

O tresloucado Vidal convida-nos a examinar em detalhe um Pollock com meia-dúzia de píxeis e analisa a definição batailleana  de informe, aproximando-se de uma circulação fluxista e energética proto-fascista para malhar no (sic) Daniéu Oliveira. O Daniéu dedica-lhe sete linhas de texto, enquanto tenta explicar aos rapazes da Costa do Castelo que a luta armada não faz pendant com a colecção de outono-inverno da sneaker’s delight. É assim a esquerda, mans: pacífica.

Os dois.

  1. Bater no Lomba suscitou essa hipotética coligação negativa e até houve quem tenha classificado de “excelente texto” um acervo de indirectas alinhavadas com a originalidade (sexo com as ovelhas e etc) de uma lista de supermercado.
  2. As senhoras vestidas com uma blusinha e um pulôver andam pela rua fora, como Beyoncés domésticas, de ombros encolhidos e deformando a marreca, queixando-se do frio e murmurando contra a pátria e as temperaturas anticonstitucionais.

“L’eau d’Auster”.

James Wood, na New Yorker, arrasa Paul Auster. Este fecha-se no quarto a ler Henry de Montherlant e abre um novo caderninho lilás:

A protagonist, nearly always male, often a writer or an intellectual, lives monkishly, coddling a loss—a deceased or divorced wife, dead children, a missing brother. Violent accidents perforate the narratives, both as a means of insisting on the contingency of existence and as a means of keeping the reader reading—a woman drawn and quartered in a German concentration camp, a man beheaded in Iraq, a woman severely beaten by a man with whom she is about to have sex, a boy kept in a darkened room for nine years and periodically beaten, a woman accidentally shot in the eye, and so on. The narratives conduct themselves like realistic stories, except for a slight lack of conviction and a general B-movie atmosphere. People say things like “You’re one tough cookie, kid,” or “My pussy’s not for sale,” or “It’s an old story, pal. You let your dick do your thinking for you, and that’s what happens.” A visiting text—Chateaubriand, Rousseau, Hawthorne, Poe, Beckett—is elegantly slid into the host book. There are doubles, alter egos, doppelgängers, and appearances by a character named Paul Auster. At the end of the story, the hints that have been scattered like mouse droppings lead us to the postmodern hole in the book where the rodent got in: the revelation that some or all of what we have been reading has probably been imagined by the protagonist. Hey, Roger Phaedo invented Charlie Dark! It was all in his head.

(Obrigado, Lourenço).

O triunfo do Tempo e do Desengano.

Il trionfo del Tempo e del Disinganno. O título deste oratório de Handel foi atraiçoado em libretto nas várias versões. Houve quem lhe chamasse O triunfo do Tempo e da Verdade. Outros, menos optimistas, traduziram-no para O triunfo do Tempo e da Desilusão.

Desengano: verdade e desilusão. Nada mau, para um compositor com vinte e dois anos.

Adenda: hélas, o Carlos Azevedo assegura-me em comentário que existem duas versões da obra com títulos diferentes. Uma desilusão (ou uma verdade) que macula este raciocínio tão bonito.