O “Costta”.

O Eduardo Pitta resume bem as subtilezas do Caso CTT:

(…) os edifícios em pauta foram vendidos sem concurso público, por decisão de Manuela Ferreira Leite, então ministra das Finanças. O de Lisboa estava avaliado em 20 milhões de euros, mas foi vendido por 12,5 milhões (o governo de Barroso queria receitas extraordinárias); o de Coimbra, que se vê na imagem, estava avaliado em 28,4 milhões de euros quando foi vendido duas vezes no mesmo dia: de manhã por 14,8 milhões, à tarde por 20 milhões. (…)

Sim, os bloggers da direita talvez emudeçam — mas deixe lá, Eduardo, que no Câmara Corporativa não deve tardar o foguetório.

O fim do regime, as trevas, etc.

O Francisco José Viegas amplia as nossas reflexões (não, não é um plural majestático, estou a incluir o Tomás Vasques) com uma citação de Richelieu:

É por vezes prudente enfraquecer os remédios, para que eles façam mais efeito; e as ordens mais conformes à razão nem sempre são as melhores, porque por vezes não são proporcionadas à capacidade daqueles que as devem pôr em prática.

Não vou ampliar as reflexões de Richelieu, porque seria concorrência desleal. Mas também suspeito que há uma pulsão cesarista nos discursos agónicos a respeito do regime.

O bom povo e as suas elites encontram-se aqui: quando há batatada suspiram por um líder forte, providencial (suponho que concordamos). Só que a repetição desse modelo fracassou: Salazar ocupou o poder durante quatro décadas, Cavaco conquistou duas maiorias absolutas, Sócrates perdeu a que tinha, no mandato actual.

Uma tragédia? O fim da História? Não: para desconsolo dos tremendistas, os partidos políticos já estão a negociar. Entenderam-se no orçamento, na comissão de acompanhamento da corrupção — e nada nos diz que não se entendam para combater o défice.

Como se aprende a negociar? Aos gritos, primeiro; depois com circunspecção e malícia. Estamos na primeira fase, só isso — mas isso é muito bom.

Muita gente confunde a crise dos partidos do centro com uma crise de regime. Mas a esquerda e a direita funcionam melhor que nunca. Os tribunais incomodam os poderosos. A imprensa é dissecada pela blogosfera. O parlamento vigia os negócios do Governo e legisla sobre a corrupção.

O regime está mais forte. O que enfraquece os regimes são maiorias absolutas e paninhos quentes.

Paz, amor e estado de direito.

No blogue das mulheres que cometem o singular pecado de pensar (um pecado, é certo, que ninguém com bom senso imputaria ao espesso varão Rogério da Costa Pereira), a jurista Isabel Moreira, recomposta das apoplexias no Prós e Contras, assina este texto meigo, vaporoso e maternal em que explica ao Pedro (é o Pedro Lomba) porque é que  já criticou uma vez, há muitos, muitos anos, o nosso primeiro-ministro mas entretanto viu a luz e pensou melhor (nunca esqueçamos que ela pensa) e, como é natural, beijou os seus sapatinhos Prada na mini-maratona de Lisboa.

O Pedro, gentil depositário daquela prosa suspirante, já lhe retorquiu aqui. O assunto merece, apesar dos piropos encaracolados, alguma paciência do leitor.

Como combater a exclusão.

José António Saraiva, ainda jovem e garboso, quando comandava os destinos do semanário Expresso.


Aqui, o pobre homem aguarda que o recebam no Centro de Reinserção Social da sua área de residência.

José Antonio Saraiva foi convocado para um tête-à-tête na cave do Centro de Reinserção Social da Cartuxa em companhia de uma pessoa idónea, de preferência adulta. A coordenadora da equipa queria saber o que pensava ele do segredo de justiça, da violação desse segredo, da relação entre os jornalistas e as suas fontes e dos limites da liberdade de imprensa, entre outros assuntos cabeludos.

Em causa está o julgamento  de vinte jornalistas por violação do segredo de justiça no processo Casa Pia. As aventuras do director do Sol são relatadas aqui, na página 78. Alberto Martins mantém por enquanto o silêncio fecundo e a pose de estadista.

A credibilidade.

Na sexta-feira vivi um dilema ético interessante. Publicitei uma noticia assinada por Felícia Cabrita que acusava o primeiro-ministro de trocar de telemóvel no mesmo dia em que alguns arguidos do processo Face Oculta o fizeram e, algumas horas depois, dei igual destaque ao desmentido que o João Galamba formulou numa caixa de comentários do Delito de Opinião.

O Lutz interpretou este acto como a demonstração de uma preferência minha pelo João Galamba, o que é incorrecto. Atribuo tanto valor aos comentários do João como às notícias publicadas pelo semanário Sol. Perante afirmações contraditórias revelei ambas ao leitor, para que este formasse a sua opinião.

O que torna as pessoas credíveis? Em primeiro lugar o que exigimos delas, em segundo o que elas têm a perder. As responsabilidades que atribuímos a um político implicam um acto de fé na sua honradez, tal como a leitura de um semanário implica a crença na probidade daqueles que o compõem.

O João Galamba é um interlocutor credível, não por ser o Galamba mas porque é um deputado da nação. E a Felícia Cabrita é credível, apenas porque os seus artigos dimanam dos valores da imprensa livre corporizados pelo jornal que a emprega. São juízos apriorísticos, não uma consequência do bom carácter ou de um comportamento exemplar.

Quanto aos factos:

Embora acredite, tal como o Lutz, que o João é uma pessoa de bem, nada me sugere que Felícia Cabrita não o seja. E se me incomodam as omissões que o Lutz detecta nas notícias do Sol, também me perturbam os inúmeros silêncios, compensados por uma agressividade deslocada, que encontro no Jugular.

Quando a Felícia Cabrita sustentar melhor as suas notícias ou o João tiver um discurso com pés e cabeça sobre o abuso de poder e a corrupção em Portugal, eu resolvo o dilema. Mas este em nada altera a minha avaliação do primeiro-ministro, que esgotou há muito a credibilidade do seu cargo.

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Comentário em destaque: Carlos Azevedo.

«O que torna as pessoas credíveis? Em primeiro lugar o que exigimos delas, em segundo o que elas têm a perder.»

Estou completamente de acordo, se o Luís estiver a falar de forma genérica. Contudo, essa formulação não resiste à aplicação aos casos concretos – não às pessoas em si mesmas, mas as áreas que representam: política e jornalismo. Porquê? Porque, por um lado, na sociedade portuguesa actual exigimos muito pouco dos políticos e dos jornalistas (vigora o ‘come e cala’, se quiser), e, por outro, em parte como consequência disso, ambos sentem que não têm nada, ou muito pouco, a perder. Em suma: a sensação de impunidade mina qualquer esforço de credibilidade, conclusão a que o Luís, intencionalmente ou não, acaba por chegar com o que refere na última frase do seu texto. (Credível ou não, ele ainda está lá, não é verdade?)

Foi uma promoção da TMN. (Atenção: adenda importante).

José Sócrates também trocou de telemóvel no mesmo dia em que Armando Vara e outros arguidos do processo ‘Face Oculta’ mudaram de aparelho. Entretanto, confirmando a notícia da última edição do SOL, o DIAP de Coimbra abriu inquérito a esta estranha coincidência de trocas de telemóvel.

Adenda: O João Galamba fez-me chegar um comentário afirmando que a notícia é falsa: Sócrates não mudou de telemóvel. Naturalmente, dou crédito às suas palavras.

É o espírito de Natal.

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  1. Não há data para estas coisas: gostava de agradecer aos comentadores deste blog por tornarem os meus dias tão agradáveis. Em particular aos mais participativos: o André Pinto, o Carlos Azevedo, a Ana e o qwerty.
  2. A partir de hoje, quando se justificar, colocarei em destaque no fim de cada post os comentários que julgar mais estimulantes. Fiquem atentos.
  3. Agradeço também o elogio hiperbólico do Lourenço. Ele não anda bem.

Pelo contrário, sou muito ecuménico.

O João Magalhães dedica-me uma amável referência no blog preferido do dr. Pacheco Pereira. Ele sugere que em vez da comissão parlamentar de inquérito proposta pelo Pedro Lomba, adoptemos a comissão parlamentar de inquérito acalentada pela pena vendida e socrática (deve ser ironia) de João Marcelino.

Com grande dano para a minha imagem junto do estimado público, a consciência impõe-me que aceite a sugestão. Sim, meu caro: faça-se essa comissão. Façam-na depressa. Façam-na já.

Mais um Natal, mais um apelo lancinante para “salvarmos a Buchholz”.

As velhas carquejas da intratável livraria Buchholz planearam há anos a estratégia de marketing perfeita. Sempre que se aproxima um solstício, abrem as goelas e ameaçam desaparecer.  Agora recebi um press release em que me confiam a próxima Liquidação Total:

(…) uma oportunidade única para encontrar livros que são verdadeiras raridades, a preços imbatíveis. (…)

Sem dúvida. E uma oportunidade única para o leitor afastar teias de aranha enquanto é enxovalhado  por Helgas de napa preta e godemichet. O documento assegura-nos que os livros estarão à venda a partir de 1 €. Quanto à masmorra, é gratuita.