Saudades.

por Luis M. Jorge

Saudades da carqueja prussiana que pontificava na Buchholz. Saudades dos livros de cartão da Minerva e das ilustrações do Augustinho para a Europa-América. Saudades das matronas ramelosas da Livraria Portugal, que preenchiam o Totobola enquanto não vinha a hora do cozido e desconheciam merdas como O Retrato de Dorian Gray. Isso é que eram tempos, ó Pacheco.

Eram livrarias de pessoas, feitas de pessoas e para as pessoas, em que os livros não eram instrumentais, mas eram um “mundo” em que todos participavam. Esse mundo está a desaparecer para o comum dos portugueses e a deslocar-se para os consumidores “de culto” ou para os consumidores de “papel pintado” e capas todas iguais, ou para aqueles que dizem que lêem no iPad e não lêem coisa nenhuma.

Ora, pois claro. Li mais em quinze dias de iPad do que num mês de paperbacks. Despachei um Dickens, um Henry James e um Conrad — mas não vale a pena contrariá-lo: antigamente havia homens e agora há ratos. É a pobreza, o deserto afectivo, o saque de Constantinopla. Venham o papiro e o pergaminho; a banheira e a navalha.