Resposta aos comentadores impertinentes.

Este blog é lido por pessoas que discordam das minhas opiniões, o que considero uma sorte, mas nem sempre me interpretam com o elevado critério que evidentemente mereço. Assim sendo, aqui deixo alguns esclarecimentos.

  1. Quando defendo que a esquerda necessita de um meio, ou de um grupo de comunicação social, não proponho mais um jornal de parede partidário como o Acção Socialista. Aliás, se for partidário não funciona. Três partidos reuniram forças para viabilizar um Governo que representa 60% dos portugueses. Não haverá alguém que faça o mesmo num jornal que seja vasto mas independente dos lóbis? Muito me contam.
  2. Também não se trata apenas de discutir quem será o patrão, embora a estrutura accionista, evidentemente, importe. O Vicente Jorge Silva fez do Público um excelente jornal até o eng. Belmiro se fartar. Ora, de certeza que não se fartou apenas dos prejuízos. A nomeação posterior do neorepublicano José Manuel Fernandes e respectiva coterie é um sinal daquilo que nos espera quando depositamos imensa esperança no patronato português.
  3. A promoção de uns peões para calar a malta (como ocorrerá em breve na RTP3) não resolve o problema. É uma coisa cíclica, enquanto o domínio da direita é estrutural.

Porque, o importante é isto: não interessa tanto o que se faz mas de onde se parte. Dou um exemplo. Todos sabemos que The Economist é um periódico liberal. Mas também sabemos que Le Monde ou El País não o são. No entanto, em Portugal consideramos que se um projecto imitar The Economist será imprensa séria, mas se tentar emular  o El País não passará de miserável propaganda de esquerda.

É a TINA, por outras palavras. Para nosso bem, este estado de coisas terá de acabar muito depressa.

21 pensamentos sobre “Resposta aos comentadores impertinentes.

  1. Caríssimo Luís, compreendo a sua quotidiana desesperança quanto à presente inexistência «de um meio, ou de um grupo de comunicação social» de Esquerda e compreendo também que não deposite a menor «esperança no patronato português» (ao contrário da Alexandra Lucas Coelho), mas compreenderá que me custa a crer que o PS, o PCP, o PEV e o BE consigam reunir forças para viabilizar «um jornal que seja vasto mas independente dos lóbis», isto é, «que melhor ou pior os representa» (os partidos da dita “Geringonça”, claro está) hoje, aqui e agora, neste ensolarado começo de Março de 2016.
    Dou de barato, por hipótese meramente académica, que o Professor Augusto Santos Silva (antigo director do «Acção Socialista» e ex-governante com a tutela da Comunicação Social nos idos de Sócras, o Grande), depois de ganhar o jackpot do “Euromilhões”, resolve co-financiar um empreendimento jornalístico como o que assiduamente propõe: quem quereria ser sócio da empresa proprietária do título? E quem nele trabalharia? E com que regime laboral? E quem lhe compraria espaço publicitário? E quem lhe providenciaria instalações? E computadores? E tipografia? E distribuição nacional? E quem lhe concederia crédito de tesouraria? E quanto custaria em banca, por assinatura ou por permuta comercial?
    A estas perguntas impertinentes, bem como a todas as outras que em seu torno gravitam obrigatoriamente (em particular quanto às matérias, tão rasteiras e áridas como necessárias, do Aprovisionamento, da Logística, do Economato, do Património, da Contabilidade e da Tesouraria), as quais se resumem num só: «quem assume o risco económico-financeiro?», já responderam em tempo, nos idos dos anos ’90, Pinto Balsemão e Juan Luís Cebrián, quando se sentaram a desenhar os planos para um jornal diário decente, de expansão nacional e com vocação de líder de circulação e de opinião; a resposta dada por ambos à época foi “no mínimo, um milhão de euros”…
    Desta estória todos sabemos a continuação: o Eng.º Belmiro foi-se à redacção do “Espesso”, juntou menos de metade da quantia calculada pelo par atrás identificado e mandou fazer o “Público” que já vai na enésima reestruturação…
    Dou também de barato, igualmente por hipótese meramente académica, que o PS, o PCP, o PEV e o BE estejam e se mantenham em plena sintonia sobre o que é e o que representa a Esquerda em Portugal, e que este diversificado conglomerado de ódios e ressentimentos consegue superar as respectivas fracturas enquanto a Cristas e o Passos Kandimba se mantenham à tona das correspondentes agremiações partidárias, conseguindo mais ainda fazer o tal jornal ou meio de comunicação social a que V. aspira.
    Quem o leria? Quem nele opinaria? Quem o guardaria para memória futura? (Para além da Hemeroteca de Lisboa e do Pacheco Pereira…)
    Por fim e em resumo, permita-me terminar este postal em tom amigavelmente impertinente (à la Donald Trump): «Show me the money!!!»

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    1. “compreenderá que me custa a crer que o PS, o PCP, o PEV e o BE consigam reunir forças para viabilizar «um jornal que seja vasto mas independente dos lóbis», isto é, «que melhor ou pior os representa» (os partidos da dita “Geringonça”, claro está) hoje, aqui e agora, neste ensolarado começo de Março de 2016.”

      Fernando, mas não era isto que se dizia há 4 ou 5 meses sobre a possibilidade de formar um Governo com apoio de todos?

      E repare: não acredito num jornal do Augusto Santos Silva. Acredito numa coisa que há-de andar entre um jornal e uma plataforma online, capaz de lançar grandes temas que não sejam apenas sobre costumes, ou a eutanásia, ou merdas assim, mas sobre coisas como o abandono do Euro (se é para falar que se fale a sério), a melhor maneira de combater as desigualdades etc, em pano de fundo noticioso, claro. Mas eu não sou jornalista, não sei fazer projectos destes.

      O fundamental para mim é não ter uma paisagem em que à segunda fala o Camilo Lourenço, à Terça o José Gomes Ferreira, ao Domingo o Marques Mendes e no entretanto sete pigmeus e onze anõezinhos vão martelando que tudo o que não seja austeridade é irrealista — como se não tivéssemos oito anos de Obama para demonstrar que não há só um caminho para coisa alguma, compreende?

      Ora isto não se faz com os do costume. E como tal é preciso arranjar outros. E como anda tudo á míngua de algo que se pareça com informação, em vez de dogmas cristão-liberais, julgo que até podia resultar.

      Não há dinheiro? Pois, não há dinheiro para nada. Mas veja lá se o Observador não se fez e não ganhou fregueses.

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  2. Olá a todos, camaradas,
    Primeiro ponto, Luís Jorge, esses 60% de eleitores que viabilizaram este governo não são necessariamente de esquerda. Muitos não votaram PSD simplesmente porque lhes foram ao bolso e esperam que um novo governo lhes reponha velhas comodidades básicas. Para se ser social democrata não é necessário ser-se de esquerda; basta estar-se vivo e nem sequer demasiado vivo.
    Um jornal de esquerda teria de ser um jornal de combate cultural, como era o Já (ou o Contraste), ou até O Jornal, ou mesmo, desculpem lá, o Publico do VJS, mas falar de combate cultural é agora um anátema. As velhas beatas tomaram revigorante no chá e temos um medo ancestral das pragas das velhas. O velho “Combate” do PSR já não se chamaria assim, mas qualquer coisa como “Uma Bulha de Almofadas”. E assim como um jornal como o Expresso adota com tanta desconcentração o “a gerinçonça”, também fala de qualquer causa social como “fraturante”, não vão as velhas chatear-se. Quando uma coisa tão anódina e fofinha como aquele cartaz do BE desenterra acusações de basfémia e provoca atos de contrição, que faria um cartoonista num jornal de esquerda? Eu desconfio até que parte do eleitorado do BE se sentiu magoado por o partido se ter dirigido de forma menos reverente a duas pessoas da santíssima trindade.

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    1. Caro comentador impertinente, julgo que temos de começar a simplificar:
      1. por exemplo, supondo que determinar o que é “esquerda” não significa, como de costume, o que os brasileiros designam por encontrar pelo em ovo. Assumamos que esquerda é quem votou num dos três partidos que dizem que são de esquerda, mesmo que entre eles compitam para saber qual é o da bayer.
      2. “Um jornal de esquerda teria de ser um jornal de combate cultural”. Ok, mas esse combate tinha de ser um panfleto? Não tinha. Dava para ser mainstream ou não? É o que importa. porque se a ideia fosse fazer uma merda para um nicho dentro do pequeno comité refundado lá perdíamos outra vez os 60%.
      Como diz a Clinton (é de esquerda, a Clinton? Compare com o Trump): estamos cá para unir, e tal.

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      1. O Luís Jorge é que falou num jornal de esquerda. Ora, se é assim, e acho muito bem, tem de se saber qual é o público álvaro. Não é o público de esquerda? Já não sabemos o que é a esquerda? De qualquer forma, acho que é um bocado temerário tomar como referência os tais que votaram nesses três partidos. A muitos dos que votaram nesses três partidos basta-lhes aquele bocadinho q.b. de esquerda que aproveitam das crónicas do Nicolau Santos, na parte em que desanca nos banqueiros e defende mais retribuição para os pobrezinhos e classe média. Com um jornal verdadeiramente de esquerda, apanhariam uma overdose.
        Eu desconfio que um jornal de esquerda seria agora mais ou menos um fanzine, sim senhor. Não sei se há condições para fazermos um grande jornal de esquerda como é ainda o Liberation, apesar de tudo.
        Uma santa trindade é precisa: um publico, alguém que nele escreva e o dirija e um capitalista com fé no lucro da coisa e sem medo que as velhas lhe encomendem a alma ao diabo.

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        1. “A muitos dos que votaram nesses três partidos basta-lhes aquele bocadinho q.b. de esquerda que aproveitam das crónicas do Nicolau Santos, na parte em que desanca nos banqueiros e defende mais retribuição para os pobrezinhos e classe média.”

          Pois então, são esses mesmo que eu quero. Os outros não chegam para encher o coliseu, e mesmo que cheguem acabam todos à batatada.

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  3. Caríssimo Luís, há 6 ou 7 meses parecia-me evidente que se a díade Passos/Portas não conseguisse a maioria absoluta nas eleições outonais para prover a nossa AR com 230 gafanhotos, então não conseguiria aguentar-se no Governo, mesmo com o aconselhamento pericial brasileiro e o silêncio de cimento do Kandimba (pois que roedor não fala…).
    Os meus amigos mais próximos, quase absolutos descrentes de mudanças, riram-se muito da minha “profecia”. Bem foram avisados, ao jeito do Eng.º Guterres, que era só fazer as contas…
    A mesma regra aplica-se aos media: é só ver a lista nominal dos nativos endinheirados financiadores dos dissidentes do «Sol» que aterraram no «Observador», com destaque para Filipe de Botton e Alexandre Relvas, cujo dinheiro não aflorou o saudoso BES/GES porque sempre esteve, está e estará sobretudo investido no estrangeiro.
    Ninguém que se intitule empresário (ou sequer “industrial”, como ocorria no Velho Estado Novo) aposta dinheiro seu em imprensa/media, seja qual for o formato (papel, digital, ambos ou outros suportes), para fazer “contra-vapor” ao sistema corrente de preconceitos e superstições em matéria de ciência económica e de prática gestionária que constitui a vulgata em voga, sempre alimentada por ex-serralheiros grevistas da antiga Lisnave tornados capitães de confederações empresariais e estrelas do comentariado televisivo.
    Empresário lusito que se preze não perde tempo com “intelectualices” (citação directa de um deles na minha ínfima presença há alguns valentes anitos), justamente porque nunca teve curiosidade em ler Lenine, Gramsci ou Sorel.
    Quanto à questão “eurística” (que também é heurística e eucarística) que suscitou de passagem, creio bem que a falência iminente do Deutsche Bank (o maior banco comercial deste Continente, cujo buracão é equivalente a 17 Alemanhas) resolverá tudo o que esteja pendente na UE, para o melhor ou para o pior, independentemente do que a Sra. Merkel e o Sr. Schäuble pensem ou queiram.
    Como tal (como a dita “Direita” aborígene), ainda que muito o queira, a nossa Esquerda não “risca” nada.

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    1. Caro Fernando, numa perspectiva cósmica nada importa. Que são os males da esquerda portuguesa perante a explosão de uma anâ-vermelha, ou lá como se chama, e o noivado de dois buracos negros? Só que enquanto andamos cá em baixo, como vermes imprestáveis, temos que fazer o que fazem as baratas, que é sobreviver ao inverno nuclear. Isto para dizer que embora possa ser inútil me mexo e protesto, porque pôrra, até uma barata tem direito à sua auto-realização expressiva.

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      1. Ora nem mais, comer e calar é que não. Caramba, pedir jornalismo de jeito, cá no nosso burgo, não me parece algo tão remoto, quanto por exemplo o Milagre de Ourique…

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  4. Caríssimo Luís, quando afirma «porque pôrra, até uma barata tem direito à sua auto-realização expressiva», não está V., porventura, a apelar à compra do novo livrinho do Camarada Henrique Raposo editado pela Fundação Pingo Doce?

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  5. Amigos, companheiros, camaradas …

    com pouco tempo … aquilo que faz mais falta para um projecto desses são os jornalistas a sério, com convicção, capazes de “dar a vida pela causa” (qual soliplass resgatando o poeta da asa delta a motor), condiçãp mínima indispensável para qualquer insurreição de esquerda, mesmo que modesta, mesmo que moderada, mesmo que simplesmente social-democrata; o dinheiro arranjar-se-á no dia em que se encontrar a convicção firme, …

    “Um jornal de esquerda teria de ser um jornal de combate cultural”.

    Olhe, começando por explicar às pessoas como é que o Google e o Silicon Valley resultaram de décadas de R&D financiado a fundo perdido pelo Estado (microelectrónica, web,…), e uma estratégia industrial/comercial estatal à la Gore para a construção, design e controlo da rede.

    camarada caramelo, não obstantte, não menosprezemos as “bulhas de almofadas”, pois estas têm uma antiga tradição subversiva (ver em baixo a partir dos 33:00)

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    1. Isso é a prova, camarada Miguel, de que um trotskista se faz de pequenino. Hoje a almofada, amanhã um paralelepipedo à cabeça dos opressores. Eu tenho estado é a reparar que o nosso Luís Jorge afinal é um reles reformista. Quando fizermos um jornal de esquerda, vamos relega-lo para a critica gastronómica e encarregamo-lo de nos arranjar uns jantares à pala depois do fecho da redação. Enfim, sempre fica com alguma serventia.

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