A minha energia.

Um anúncio repetido “ad nauseam” propõe que sem mim o mundo não era igual. Que sem a minha “energia” ou o meu “amor” as coisas se desvaneceriam num ápice, e que “juntos” (mas a quem darei as mãos?) todos “chegaremos mais longe”.

Aprenda com os profissionais, leitor. Quando a publicidade lhe disser uma coisa, acredite exactamente no contrário. É a disciplina que pratico há anos sem me arrepender.

De resto, eis um bom pretexto para que o blogue regresse ao tom intimista de quem não pretende mudar coisa alguma, principalmente o mundo, nos próximos tempos.

Os posts deixarão de ser partilhados no Facebook, e farei o mesmo no Twitter se souber como se desfaz o comando que usei para estabelecer o envio automático.

Vou tentar não ler jornais e ignorar as notícias sobre Portugal. Veremos se o mundo fica diferente.

15 pensamentos sobre “A minha energia.

  1. Vai então entrar em exilio interno ?
    Inevitavelmente lembrei-me da Caverna de Platão: O Luis conseguiu escapar para o exterior e conhecendo a verdadeira realidade voltou ao fundo caverna para avisar os companheiros de infortunio do engano em que viviam, mas estes não quizeram nem saber pois chega-lhes as sombras projectadas na parede.
    Triste sina !
    Olhe tem um colega neste Britânico-Algarvio que ainda pensa conseguir despertar consciencias e levar a Carta a Garcia.:
    http://www.algarvedailynews.com/

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    1. Refiro isto é claro, e refiro ali um texto célebre da ciência política porque, às tantas, há a impressão difundida na sociedade que o papel determinante do artista de Boliqueime no recrutamento de um prodigioso conjunto de criminosos para os cargos mais elevados do Estado não passa de conversa de taxista. Não, esse papel está registado nos trabalhos académicos mais importantes da nossa disciplina de Ciência Política.

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      1. Não duvido, soliplass. Aliás, quando o Oliveira e Costa ainda era um tipo espectacular, há muitos anos portanto, um amigo que hoje é CEO numa empresa financeira dizia-me a mesma coisa, dando como exemplo o tal figurão. Se a banca não tivesse a omertá que infelizmente a caracteriza tínhamos poupado muito tempo e dinheiro, porque o que sabemos hoje sabíamos há 15 anos.

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        1. Tem razão nessa omertà e no dinheiro que se tinha poupado. Poupado, é uma maneira de dizer; não teria sido extraído, da forma que foi, de uma parte substancial da sociedade. Se bem que me parece que a omertà, se estendeu a bem mais sectores que a banca. Quando reparamos na lista dos cinquenta maiores devedores do BES, percebemos inteiramente o alcance da doutrina do “portugal de sucesso” que não podia ser discutida: «são as empresas que geram riqueza». Agora é olhar para a lista…

          Mas quando se fizer a história destas décadas recentes, talvez se perceba também melhor o efeito do que eu chamaria “uma omertà inversa”: o efeito do barulho e doutrina com que diariamente fomos bombardeados pela comunicação social e tantas vezes na academia, onde figura o chavão «são as empresas que geram riqueza». Algumas geram, mas aquelas maiores que o chavão procura legitimar têm sido um sugadouro enorme de riqueza e agentes principais na perversão das instituições. O espectáculo e ruído que afasta as atenções da politeia da agenda que mais seria do seu interesse que cuidasse.

          Bom, mas claro, nem tudo se perde. Vendo a coisa pelo lado positivo, a empresa Universidade Moderna (que chegou a ter 10 mil alunos) alguma riqueza gerou. Grande parte daqueles órfãos de “alma mater”, por procurar uma outra de substituição, deram uma grande riqueza de comentadores no Insurgente, no Blasfémias, no Corta-Fitas, etc…. Aquilo é um filão riquíssimo, um património cultural que ainda não está devidamente avaliado, matéria de onde talvez ainda se possa aparelhar o desenvolvimento da pátria.

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          1. Dá vontade de aprofundarmos a história das nossas elites, não? Ou, em alternativa, a história de países que tiveram o mesmo tipo de problemas e os resolveram. Li não sei onde que no Séc. XVIII a Suécia era considerada um dos países mais corruptos da Europa. O que terá acontecido (supondo que é verdade)?

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            1. Ou aprofundar a história das nossas elites ou ler o conde d’Abranhos do Eça. Mais ou menos a coisa mantêm-se actual. Aliás, há muito que defendo uma estátua do Conde d’Abranhos nas praças principais das nossas cidades…

              Quanto à Suécia creio que se refere ao período conhecido por «época da liberdade», o período da década de vinte à de setenta do séc. XVIII. Em que a corruupção foi de facto um problema grave, e onde o poder do monarca esteve enfraquecido. Também, o sentido de interesse nacional. Havia uma série de factores que para isso contribuíam mas duas coisas essenciais: o secretismo das decisões parlamentares (com um comité chamado «o comité secreto» que decidia sobre temas importantes de política nacional e cujas decisões eram escondidas até do resto do parlamento – por isso o chamaram de parlamento dentro do parlamento – uma espécie de conselho das nossas maiores sociedades de advogados); e a prática comum na época de os funcionários ou representantes serem subornados por potências estrangeira vizinhas. Assim uma espécie do que foca no seu post anterior sobre Rafael Marques e a amizade luso-angolana…

              Todo esse problema da corrupção foi muito atenuado depois a partir da década de setenta no período denominado de «era gustaviana», um regresso a uma forma de governo em que o monarca voltou a ter mais poderes.

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  2. Lendo pouco os jornais o seu mundo ficará provavelmente melhor porque existem muitas alternativas melhores do que os jornais. Até mesmo La Palissadas como esta, que é muito mais breve do que um artigo de jornal.

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      1. Não vale a pena perder muito tempo com a imprensa nacional, todavia mantenha a sua analise crítica, que este espaço é para mim paragem obrigatória.

        Consultando a comunicação social portuguesa, escapa-nos que, neste momento, os juros da dívida, a 10 anos, já estão abaixo de 3% http://www.bloomberg.com/quote/GSPT10YR:IND deve ser do domínio de esquerda na comunicação social…

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    1. Que engraçado, ainda ontem estive a folhear o Blood Meridian à procura de um trecho. Tudo isto porque um amiga anda a ler a tradução e me lembrava daquilo que me parecia absolutamente intraduzível. Não encontrei o trecho.

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