Homens, brancos, zangados.

Quem atribui as leis que segregam os refugiados na Dinamarca e noutros países europeus a uma ideologia fascista está, parece-me, a ver mal o filme. É verdade que um discurso ideológico pode formar-se a partir deste tipo de decisões, como um fungo pode brotar de um cadáver na floresta, mas não me parece que, neste caso o anteceda.

O que está em causa é a raiva e o sossego, ou a raiva a quem nos perturba o sossego. Um país em que correr as persianas a partir das seis da tarde pode dar direito a visita da polícia terá, com certeza, muita gente para quem é indiferente permitir que a ciganada morra de fome na fronteira, ou que considera esse infortúnio mil vezes preferível a recebê-la no seu bairro.

Depois existe um conflito latente de gerações. Os velhos reacionários não apreciam homens estrangeiros mais novos, e até preferiam que os jovens nacionais se escapulissem. É concorrência, em resumo: por empregos, por carreiras, por dinheiro, por desempenho sexual. Os velhos não gostam dos novos.

A seguir vêm as questões de comportamento: os sírios “põem bombas” e “violam as mulheres”. O facto de não haver memória de bombas colocadas por sírios na Europa, ou de não terem sido sírios a assediar as jovens em Colónia, é irrelevante. Vivemos num tempo em que os argumentos são tentativos, mesmo entre quem tem formação.

Não interessa descobrir a verdade mas prolongar a birra. Está neste estado a opinião pública de uma vasta parte da Europa. Os pobres idiotas não têm culpa de serem prodígios de egoísmo.

6 pensamentos sobre “Homens, brancos, zangados.

  1. É isso. Olhe para a Dinamarca. Um tradicional modelo de tolerância, estado social e de ajuda aos descamisados do mundo. Uma dinamarquesa, hoje, no Guardian, mostra-se espantada, não só com as recentes medidas do seu governo (o confisco de bens aos refugiados), como com o apoio da maioria da população. Esta boa alma, um dos anjos da guardian, não entendeu nada, nem da sua gente, nem do mundo. É assim enquanto a tolerância e a bondade não são postas à prova. E o que acontece quando, de repente, aquela pobre gente entra por ali e é tanta e tão desordenada que atrapalha os passeios de bicicleta, a caminho do parque e dos bancos onde tradicionalmente se fazem transferências para ajuda aos pobres do mundo? Vamos imaginar que todos os dias eu dava uma sopa ao meu pobrezinho, à porta de casa, e que ele um dia decidia que não queria mais viver debaixo da ponte e acampava no meu jardim, para ter um acesso mais directo aos meus restos? Como é que eu vou continuar a cultivar as minhas camélias brancas, que tão precisas são para o velório dos afogados no mediterrâneo?

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    1. Agora imagine que é mais do que isso: imagine que é uma opinião pública relativamente sofisticada que percebe que a questão dos refugiados, tal como isenções fiscais às empresas, geram uma competição (neste caso uma competição negativa) entree os países da Europa, e decidem tratar mal aquela gente para serem “mais competitivos”, if you know what I mean. Neste sentido há uma notícia de hoje interessante: a Suécia acabou de recusar dar abrigo a cerca de metade dos seus refugiados, que colocará em aviões de regresso à origem.

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      1. Caro Luís, neste caso não estamos a falar de 80 000 refugiados, mas sim de migrantes económicos: http://observador.pt/2016/01/28/suecia-prepara-expulsar-80-000-migrantes/

        Aliás, segundo um responsável Europeu, “Mais de metade, cerca de 60%”, detalhou Timmermans. São predominantemente marroquinos e tunisinos que deixaram os seus países por “razões económicas” e tentam entrar na Europa através da Turquia.” http://expresso.sapo.pt/internacional/2016-01-27-Lider-europeu-diz-que-a-maioria-dos-refugiados-nao-foge-da-guerra

        Ora, não sendo refugiados o acesso à UE tem regras diferentes. Aliás, os EUA têm os “green cards” exactamente para isso, e nem toda a gente consegue um.

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  2. Enquanto o nosso altruismo não for levado ao limite não podemos,creio, em consciencia ter a certeza de passar no teste.
    Aceitando que a Alemanha terá recebido em 2015 apenas um milhão de migrantes, e comparando o numero de habitantes desse país e de Portugal, então teriam entrado nas fronteiras Portuguesas nesse ano mais de 125.000 refugiados.
    Mas se tivermos em consideração a densidade habitacional ,com os 115/qm2 de Portugal e os mais de 400 na Alemanha, então o numero de entradas em Portugal teria sido significativamente superior.
    O impulso de ajudar o nosso semelhante é forte, como prova o milhão de retornados de 1975, 10% da população, recebidos, integrados e hoje totalmente indestintos do resto da população. Mas esses eram “nossos semelhantes” não eram ?

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