Dia 31.

Há um certo tipo de lucidez que não nasce do prazer ou da dor, mas da dor em potência.  Só quando a consideramos nos é possível ultrapassar um estado de anestesia na relação com o tempo.  Essa consciência aguçada é observável por quem perde um emprego, ou faz uma análise clínica e aguarda os resultados: num certo sentido, nunca nos sentimos tão vivos como nesses períodos.

Os psicólogos simplificam o tempo (porque são simples e falam com pessoas simples), apelando ao “aqui e agora”. O passado é para eles algo que nos acontece, se compreende e se perdoa, enquanto o futuro, por fugir ao nosso controlo, é visto com relutância. Só nos teremos a nós, e só teremos o presente se o passado for, como eles dizem, “integrado”.

Mas isso é uma visão instrumental, burocrática, do tempo. Pobre é o espírito que se satisfaz integrando o passado, ou aguardando o futuro com uma mistura de energia e equanimidade.

Podemos fazer mais: podemos testemunhar e perscrutar. Duas tarefas que exigem enorme atenção.

Testemunhar e perscrutar são os meus votos para 2016, um ano em que terei menos opiniões.

 

8 pensamentos sobre “Dia 31.

  1. bem sei que não há sinónimos, mas não gosto da palavra ‘perscrutar’ (como dizia o outro, nunca a escreveria). de resto, espero que este sitio seja um bom lugar para ver 2016.

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  2. Parace ser apropriado começar 2016 com um poema:
    Porque não este ?

    Quando o espírito não teme e está erguida a cabeça,
    Quando o conhecimento é livre,
    Quando o Mundo não foi dividido
    por mesquinhas sebes provincianas.
    Quando as palavras brotam das profundezas da verdade,
    Quando a luta incansável estende os braços à perfeição,
    Quando o cristalino caudal da razão não se deu por perdido
    Nas areias do árido deserto dos velhos hábitos.
    Quando tu conduzes o espírito em frente
    E o levas a pensamentos e acções cada vez mais grandiosos;
    Que nessa aurora de Liberdade, meu Pai, faças meu País acordar.

    Rabindranath Tagore
    (tradução livre)

    Where the mind is without fear and the head is held high
    Where knowledge is free
    Where the world has not been broken up into fragments
    By narrow domestic walls
    Where words come out from the depth of truth
    Where tireless striving stretches its arms towards perfection
    Where the clear stream of reason has not lost its way
    Into the dreary desert sand of dead habit
    Where the mind is led forward by thee
    Into ever-widening thought and action
    Into that heaven of freedom, my Father, let my country awake

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