Uma conclusão.

João Miguel Tavares, espumando um pouco mais do que costuma, esposteja o acordo parlamentar e exige um Governo de gestão. Um penteadinho do Observador grita para Constança Cunha e Sá, que ali toma o lugar de socialista como um natural da Argentina poderia ser convidado para representar a França no consulado de uma ilhota do Pacífico.

A conclusão é simples: ou a esquerda arranja um grupo de comunicação social ou o Governo que agora se prepara não dura um ano.

30 pensamentos sobre “Uma conclusão.

  1. Costa pode usar a mesma táctica do PPC fechar publicidade pública a quem propaga notícias indelicadas e, ao mesmo tempo, criar um alfobre de jornalistas alimentados à base de “exclusivos”.

    É transparente, límpido e decente? Não é, mas a política é a arte do possível, não é um concurso de ética com Kant no júri…

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      1. Falta o grupo de “investidores”. Não sei se a pilha do Observador dura muito mais, agora que o Zé Manuel Barroso está fora das Presidenciais.

        Bom seria um crowdfunding para expandir com um espiríto Esquerda.net , mas com melhor grafismo e num tom mais catchy para a “malta jovem”…

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          1. Aí entrava o grafismo e a linguagem menos activista, mas não menos direccionada. Precisamos de um Guardian à portuguesa, menos meios, mas o mesmo esforço para fazer como deve ser.

            O pior para a Esquerda é ficar no circuito do pregador no deserto…

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  2. Uma conclusão: Finalmente.

    Para quem que vê de longe o que se passa em Portugal, o facto de não se publicar um só Jornal que defenda os pontos de vista de esquerda é uma estranha anomalia.
    Se nos perguntarmos se a Passos Coelho teria sido possível prosseguir as políticas dos últimos anos se houvesse no país pelo menos um diário que lhe desse combate político, denunciando corajosamente todas as mentiras do Governo, a resposta é obviamente que não. Tudo o que foi feito só foi possível com um férreo controle dos media.
    Não que Portugal seja um caso isolado: O domínio da comunicação social pela direita foi meticulosamente preparado. O que torna Portugal um caso único é não ter havido um movimento cívico que tenha garantido que pelo menos uma voz se tenha mantido livre.
    Veja-se o que se passa aqui na Grã-Bretanha :
    O Guardian, (e a sua edição dominical, o Observer), os únicos a não terem dono, (são propriedade de uma Fundação), e apesar de serem já mais caros que a concorrência vivem esmagados pelos custos e pela falta da publicidade das grandes Corporações, (que se alberga noutras moradas), o que levou que há algum tempo tivessem que apelar à boa vontade dos que sentem ser a sua sobrevivência fundamental para a Democracia. Foi assim lançado um movimento entre os seus leitores com três níveis de participação, “Friends”, “Partners”, e “Patrons”. Se o primeiro é gratuito, aos outros já é pedida uma contribuição anual que vai de umas poucas centenas de euros a cerca de mil anuais. O sucesso foi imediato, com dezenas de milhares de adesões, todos prontos a fazer o sacrifício em prol de uma tão boa causa.
    Ora estou certo que se em Portugal fosse lançada uma subscrição pública para reunir o capital necessário para fundar um Jornal livre do domínio do grande capital, não deixariam de aparecer as pessoas necessárias para levar o projecto adiante. Certamente que apesar de longe eu não deixaria de participar.

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    1. Mas é bom que não se desprezem as marcas, e há muitas, que falam para um público tradicionalmente de esquerda. Há muita preguiça comercial e mental entre a nossa gente, que considera “marketing” um insulto. É assim que se perdem as guerras.

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  3. Em França existe a Mediapart, jornal online, payant,que garante a independência financeira com as assinaturas. Não tem publicidade, nem subvenções públicas. Neste momento, tem cerca de 110,000 assinantes, atingiu o equilíbrio financeiro em 2010, ao fim de 2 anos de existência, à época com menos assinantes, o que levanta o problema de saber qual seria o número mínimo de assinantes para equilibrar as contas, e como conseguir esse número em Portugal. A assinatura é de 9 euros por mês.

    Tirado da wiki: “Mediapart défend un modèle où l’abonnement payant doit garantir l’indépendance du travail des journalistes, tout en permettant l’accès à un club participatif de qualité dont les contenus sont en accès libre.” Isto é, “ao lado do jornal”, existe um clube de “blogues” onde os assinantes podem publicar os seus artigos. Todos os dias, uma selecção desses artigos aparece em destaque na primeira página do jornal.

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    1. Lá está você com essa mania de apanhar elefantes com mosquiteiros, Miguel. Nós precisamos de um grupo de comunicação que arranque maiorias, não de uma merdosa de nicho muito chique e gira e “payant”.

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      1. Pois, eu percebo o que você quer dizer. Mas não concordo com essa estratégia. Não se deve partir do princípio que a malta é burra e deve, por isso, ser dirigida por uma “avant-garde” a partir dos comandos da central de comunicação. E logo essa!, a da “comunicação”. É preciso é estar presente nos locais onde se passam as lutas políticas e sociais que afectam a vida das gentes. E em seguida ter jornais que façam jornalismo, feito por jornalistas autónomos da pub, do poder político e do poder das económico. O Podemos tem umas cenas “chiques” no you tube, como você diz, mas não foi por isso que não ganhou espaço público. O crucial é que esteve e está presente no terreno e, com base nisso, conseguiu começar a chegar às pessoas.

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    2. Aproveitando a onda de marijuana invocada pelo caramelo acrescento o seguinte. Marketing sim, mas só e apenas na condição de ter uma meia dúzia de ideias claras. E, infelizmente, o problema actual da esquerda (actual, bom, já vai para 30 ou 40 anos) não é um software de marketing defeituoso ou inexistente. É um problema conceptual que posso resumir em poucas palavras: quem sou eu, de onde venho, para onde vou?

      Uma ilustração que achei interessante é a seguinte: No início dos anos 70, houve um debate entre John Rawls (representando a esquerda liberal) e Robert Nozick (libertário de direita). Rawls propôs um argumento simples. Se uma pessoa pudesse julgar a justiça da sociedade onde vivemos — na condição do “véu de ignorância”, i.e. sem saber em que classe social ou que papel iria ter na sociedade, branco ou preto, rico ou pobre, mulher ou homem —, que tipo de sociedade essa pessoa escolheria? Escolheria o tipo de sociedade onde vivemos com as desigualdades conhecidas (que eram, à epoca, muito menores do que hoje, note-se) ? Claro que não. No melhor dos casos — ser rico — a pessoa vai pensar, é pá, se o meu lugar vai ser escolhido aleatoriamente, a probabilidade de passar a estar numa posição desfavorecida é enorme, pois há poucos ricos, um número maior mas não muito grande na classe média, e muitos pobres e remediados. A probabilidade de eu continuar rico é muito pequena. Este foi o método proposto por Rawls para avaliar a justiça da sociedade em que vivemos. Quite straightforward, isn’t it? A implicação política (de esquerda, I’d say) é a seguinte: devemos maximizar o bem-estar dos mais pobres. Assim, ele propôs um sistema de impostos que permitisse redistribuir a riqueza até que mais redistribuição deixaria, na prática, de ser eficiente. E aqui aparece o Sr Nozick. Ele disse: ok, Mr Rawls, vamos assumir que o seu argumento é correcto, e vamos supôr que conhecemos e conseguimos atingir o estado de justiça ópitma que propõe, com a distribuição de riqueza mais justa e equitativa que, na prática, se pode atingir. Suponhamos, então, que aparece um novo jogador de futebol fantástico, uma espécie de quimera do Cristiano Ronaldo e do Messi, e toda a gente está disposta a pagar balúrdios para o ver jogar. Só restam duas hipóteses: a primeira, proibir as pessoas de pagar o futebolista, já que isso vai distorcer a distribuição de riqueza óptima que tinhamos obtido, o que vai contra a liberdade individual; a segunda, permitir o pagamento, com o custo de admitir que a distribuição não só não era óptimamente justa (ou simplesmente justa), como não o poderia ser, porque obviamente essa solução justa não existe.

      Enquanto a esquerda não for capaz de responder de forma coerente e articulada aos argumentos libertários do tipo do do Nozick não há “comunicação” que nos valha. Será apenas uma direita envergonhada ou humana, como preferimos designá-la, mas sem pretensões a nada mais do que a providenciar cuidados paliativos aos desgastes provocados pelo mercado. A seguir a “terceira via”, à la Blair. QED.

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  4. E o que faria a esquerda com um grupo de comunicação social? O problema é que ninguém perguntou ao povo se queria esta aliança negativa da esquerda. Se todos reconhecessem esta verdade tão óbvia, nem sequer o Observador e o JMT necessitariam de existir. O mal foi terem acabado com a velha tradição da democracia popular das aldeias comunitárias. Levantava-se cada um à vez e dizia o que tinha a dizer e impunha condições ao seu candidato a gerir o forno do pão. Eu ponho o meu voto no Arlindo, se ele se comprometer aqui já a não ir buscar a farinha ao moinho do António, que anda sempre com as botas cheias da merda dos porcos. Depois a juventude foi para a cidade e habitou-se ao dolce far niente dos mecanismos da democracia indireta, com o parlamento a fazer e desfazer governos, coisa que veio ao mesmo tempo que a marijuana, não por acaso. Mas, apesar disso, tudo corria mais ou menos, quando se deu agora esta novidade de o lado esquerdo do parlamento se ter unido contra o lado direito. Até agora, o mal era a constituição ser programática, o que nos coloca ali rés vés com o estalinismo. Isso do direito à saúde e educação, por exemplo, é uma forma insidiosa de provocar a morte dos velhinhos que sabem demais, quando já não têm forças para se defender. Mas descobriu-se agora que mesmo as normas de funcionamento dos órgãos de soberania, uma coisa que se julgava sonolenta, têm os seus perigos. Porquê Porque não foi prevista a circunstância de os representantes do povo falarem entre eles nos corredores depois de o povo os eleger. Se não houver meio de os separar, a solução é fazer de cada português um deputado, que não represente mais do que a si próprio e à sua família. O problema de se saber o que querem afinal os abstencionistas também se resolve, consagrando-se aquilo que já toda a gente está farta de saber: eles não votam porque não concordam com a intervenção do Estado na sua vida, logo, conta-se o seu voto na direita, mais conhecida por tradição, usos e costumes do nosso folclore.
    Isto pode parecer confuso, mas, passado a limpo e com alguns acertos, é matéria para a próxima revisão constitucional, discutida e resolvida no twitter.

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  5. Ora aqui está uma discussão catita. Passai aí o cigarrinho. Miguel, temos então um académico, de um lado, a invocar um determinado ponto de equilíbrio, e temos outro, por outro lado, a desfazê-lo, num exercício muito fácil, porque o equilíbrio dos corpos é sempre precário e pode, em certos casos ser facilmente desfeito com um leve piparote, como descobriram os palhaços croquete e batatinha depois de estudarem as leis de Newton. Mais valia o Rawls ter estado calado e nem sequer essa será uma razão para o afastamento do eleitorado.

    Que fazer, como perguntava o Vladimir Ilitch? A esquerda não tem de demonstrar nada; tem de fazer uma coisa mais simples: assumir aquilo que é o seu património, que é geneticamente de rutura, ainda que em longos ciclos, em questões que tanto são económicas, como de costumes, em oposição à direita, conservadora ou reacionária. O século XX, ainda este país vivia nas trevas, viveu uma revolução conduzido pela esquerda, desde a formação do estado social na Inglaterra (fora uns ensaios na Alemanha de Bismark) à Front Populaire, em França, que mudou definitivamente o campo e a cidade, nas relações de produção, na assistência, na educação, suportada por um pilar ideológico que vinha de trás. A promoção da mudança sempre foi assumida pela esquerda e a resistência sempre foi assumida pela direita. Foi assim, quando isto era claro, que em Inglaterra se formou o guardian (depois de uma fase cobnservadora inicial) e se mantiveram os jornais conservadores, e que por cá se formaram os velhos jornais republicanos e os ultramontanos, ambos assumindo com galhardia a sua missão no cabeçalho.
    A esquerda, não apenas cá, caiu alegremente numa armadilha montada pela direita: a de que as suas causas são urbanas, e que, sendo urbanas, são de nicho. Não é verdade, nem uma coisa, nem outra. E a direita esforça-se ainda com outra armadilha: a de que a diferença entre a esquerda e direita é caduca e que tudo seria dirigido por alguma mão invisível, aquilo que antigamente se designava como a mão de deus e que hoje se designa como os mercados. É assim que se disfarça o reacionarismo em tecnocracia.

    Então, e o Que Fazer?
    A esquerda tem uma força que é uma fraqueza: é um eterno fórum de debate, em alegre autofagia, género la grand bouffe. No Obs, compostinho, convivem a direita penteadinha, liberal q.b. e a alucinada ultramontana.
    Fazer o quê? Blogues. Uma certa velha fundação alemã já deu o que tinha a dar e nenhum banco sério dá crédito a casais que por lá aparecem a discutir entre eles ao balcão.

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    1. Com o bom humor que é indispensável para que se possa falar seriamente, o Caramelo, “nom de plume” de alguém cujos comentários dá sempre prazer ler, tece algumas considerações que merecem reflexão:
      A destruição do sistema político que vinha do pós-guerra teve como consequência o apagar da antiga divisão entre a Social-Democracia e o Conservadorismo, substituída que foi por uma nova fractura, agora entre uma elite tecnocrata que governa muitas vezes sem respeitar o processo democrático e a crescente massa popular sem voz activa e que se sente afastada desse mesmo processo.
      Na base esta situação conduz a uma hostilidade crescente à ordem estabelecida e, coisa dantes impensável, a movimentos verticais de adesão a novos radicalismos. Aqui o Ukip é a prova disso mesmo: De movimento tido como ameaça ao Partido Conservador acabou nas eleições de Maio roubando mais votos aos Trabalhistas do que a estes. Na Escócia o Snp, o Partido nacionalista, foi quem estragou a festa aos Partidos tradicionais elegendo 56 dos 59 lugares do Parlamento que competiam à Escócia. Em França o Front National é um problema que nem a direita nem a esquerda sabem como enfrentar. Dando o salto para o outro lado do Atlântico vemos Donald Trump do lado Republicano, e o Senador Bernie Sanders do lado Democrata, com níveis de popularidade que para muitos de nós são incompreensíveis.
      A desilusão com o sistema político não pode ser maior para muitos dos cidadãos europeus que sentem não ter razões para acreditar que no futuro irão viver vidas que merecem ser vividas, que o dia de amanhã será melhor que o de ontem. Muitos, demasiados, sentem-se abandonados, negligenciados e deixados para trás.
      Todos nós que participam activamente na política Britânica, (no meu caso tanto quanto a idade permite), sabemos bem o que os eleitores nos pedem : Entre outras coisas, a renacionalização dos caminhos de ferro, o aumento dos impostos dos ricos e… a redução da imigração! Como conciliar tudo isto com uma perspectiva de esquerda é que está o busílis.
      No ano passado o saldo liquido da Emigração/Imigração foi de 350.000 para o lado da ultima, valor que se tem mantido a estes níveis nos últimos anos. No decénio que terminou a população da Grã-Bretanha, (com excepção da Escócia), aumentou 7%.
      Estes números falam por si e a pressão que exercem nos serviços sociais, na saúde pública, na habitação, não pode ser maior. Não admira que em todas as sondagens seja citada a imigração como sendo o problema principal. Eu próprio, que dela venho, me espanto quando leio que entre os cidadãos Britânicos de primeira geração 82% reclamam uma redução drástica do numero de imigrantes.
      Sobre isto a esquerda falhou em encontrar respostas. Pode lembrar, e bem, os benefícios económicos, (e os culturais), que a imigração produz, sobretudo por ser constituída por jovens que além de serem economicamente activos tendem a necessitar menos de ajudas e a recorrer menos aos serviços de saúde pública. É verdade que os media, na quase totalidade da direita, envenenam todos os dias a opinião pública contra eles, mas não é menos verdade que a esquerda falhou totalmente até agora na tarefa em persuadir e em esclarecer, e quando não se é ouvido no que as pessoas consideram ser o mais importante, então em nada mais teremos a sua atenção.
      Portanto, caro Caramelo, este é o maior conundrum que se põe actualmente às gentes de esquerda. Corbynistas ou não. Se puder ajudar, please do.

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      1. Manuel, no fundo, o que as pessoas pedem não é mais do que aquilo que conquistaram com a social-democracia, que, por sua vez, muito beneficiou das lutas radicais de esquerda dos primódios. De forma explícita ou implícita, muitas das medidas do estado social, no pós- guerra, tiveram como objetivo um appeasement dos setores mais radicais e como motor o medo do comunismo. Como dizia um politico ingês da altura, “If you don’t give people reform they are going to give you revolution”. Foi assim com as medidas do relatório Beveridge, fundador do welfare state (que o próprio órgão oficial dos comunistas ingleses, o Daily Worker, teve de engolir) e um pouco por toda a Europa, onde esse risco era maior.
        Os atuais protestos contra a imigração resultam do medo de serem redistribuídos aos imigrantes os benefícios do Estado. Que sejam dadas aos emigrantes as casas camarárias, por exemplo. Temos assim o fenómeno, só aparentemente paradoxal, de termos uma sociedade estruturalmente de esquerda e ideologicamente de direita. Enquanto os operários de Clermont Ferrand e Manchester se sentiam protegidos pelo Estado, tudo corria bem, mas basta um sinal de crise, uma diminuição do estado social, uma nova redistribuição pelos estrangeiros, para a balança pender para o UKIP e o Front National, que lhes prometem, não a volta para a velha ordem económica e social da velha direita conservadora, mas sim a manutenção do que já conhecem desde há 50, 60 anos. Existe sempre o risco, que felizmente acho negligenciável, de as pessoas serem levadas àquele outro género de “estado social” que existiu na Itália até ao fim da guerra, com aquela feição paternalista de dar ao povo o que ele precisa, retirando-lhe o incómodo de pensar. Neste momento, o não pensar e o não discutir são mais, digamos, atos voluntários de privação.
        Isto resolve-se com educação ideológica, um palavrão feio que agora já não posso retirar porque já carreguei no botão, que chatice. Nisto, o Manuel pode ajudar melhor do que eu. Já fez ai, pelo menos, um excelente diagnóstico. Mas também sabemos ambos que é muito dificil lidar com o medo das pessoas. O segredo é encontrar a linguagem e o meio adequados, sobretudo este último. Razão tinha o McLuhan.

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  6. Ora viva, camarada caramelo. Temos aqui a base para um acordo estrategico. E entao se alargassemos a rodinha do charro, nao apenas ao nosso amavel anfitriao, cela va sans dire, e ao Manuel, mas tambem `as mocinhas do BE, isto ficava supinamente animado. O caixote de lixo de uns e’ o pao dos deuses de outros, e como o Luis Jorge descobriu um tesouro no caixote de um outro digno representante dos espectaculos de equilibrismo escolastico-circense, o ilustre Professor Arroja, entao eu… Havia de ser interessante de, ainda assim, meter o Professor Arroja ao barulho para saber o que e’ que o Homem Portugues Catolico poderia acrescentar ao debate do croquete com o batatinha, ali em cima. Se calhar nao acrescentava grande coisa ao que ja’ se conhece dos escritos do venerissimo Prof Dr Salazar e do Monsieur Maurras, mas nunca se sabe… o Homem Portugues Catolico e’ uma autentica caixinha de surpresas, se
    bem o entendi. So’ nao percebo a que proposito e’ que umas mocinhas tao espertas vao dar corda ao ilustre Professor…

    Enfim, passemos `a substancia do debate. Subscrevo todo o segundo
    paragrafo sem reservas, sem guardar sequer o meu direito a apresentar
    posteriormente mocao de censura. E gostava de sublinhar, se o camarada
    permitir, a nocao da ruptura como aquilo que verdadeiramente caracteriza
    a identidade da esquerda. Ruptura com muitas coisas de natureza diversa
    que enumerou, e eu concordo. A nocao de radicalismo, tambem, na acepcao etimologica de ir `a raiz das coisas. E sem fazer uma amalgama do radicalismo com o extremismo, que e’ coisa bem diferente, ou com outros ‘ismos’. E, por fim, a ideia da emancipacao dos individuos. Nao confundo rutura com ‘tabula rasa’, pois esta geralmente espera-nos ao virar na esquina como um boomerang. Mas tambem nao renego as revolucoes quando e onde elas se tornaram inevitaveis, como a Revolucao
    Francesa. Nao me deixo encantar pelos cantos de sereia dos ‘Burkes’,
    dos ‘Tocquevilles’ ou dos ‘Furets’, pois sei que foi a intransigencia,
    primeiro, da corte e das ordens superiores em 1789 que a tornaram inevitavel, segundo, que foi a incansavel luta pelos interesses de classe da burguesia (“les gens de bien”, “les honnetes gens”, como assim se designavam) em detrimento dos restantes, da “escumalha”, que tornou todo o sec XIX, e o seculo XX ate’ ao fim da II Guerra Mundial, na epoca mais tumultuosa da historia da humanidade. Em guisa de ilustracao, transcrevo das notas da minha edicao da Histoire de la Revolution Francaise, do Michelet, a seguinte citacao do Duc du Luxembourg a proposito da convocacao dos Etats generaux e da escolha dos
    seus representantes: “Si le choix des deputes ne tombe pas sur ce que nous
    appelons grands seigneurs, il est `a craindre que nous ne soyons culbutes
    par le tiers etat dont le nombre est preponderant au notre, dont l’instruction
    est connue, et la plupart de leurs demandes legitimes. Aussi faisons-nous
    agir tout ce qui approche le roi et tout ce que la reine peut sur lui, pour
    faire rompre et annuler le projet d’assembler la nation …” . Bonito!, onde eu
    ja’ vou… Fim de digressao.

    E voltando `a ruptura: hoje, queremos romper com o que? Com o
    neo-liberalismo? Com a financiarizacao da economia? Com a submissao do
    social e do societal `a economia? Com o mercado enquanto norma para tudo o resto (ver Karl Polanyi e o seu classico “The Great Transformation”)?
    Com o capitalismo, tout court, ou apenas com certas declinacoes deste? E tudo ou parte disto, em que escala de tempo? Ha’ um tempo curto e um tempo longo, na historia como na politica. E’ neste labirinto de distincoes e qualificacoes, de opcoes estrategicas e tacticas, de outras mais existenciais e ontologicas, que a porca, bastas vezes, torce o rabo.

    Eu parto do pressuposto de que a esquerda e’ contra a ficcao do
    mercado-todo-poderoso, eficiente e optimal. E e’-o, nao por o mercado na
    realidade nao ser assim tao eficiente (algo que um conservador
    poderia constatar sem estados de alma), mas porque se opoe `a ideia extremista e visceralmente anti-social de que tudo pode ser comprado, e `a ideia de que o valor das coisas pode ser deduzido de operacoes de procura e oferta no mercado. Por ultimo, e’ contra a ideia de tratar pessoas como comodidades, como resulta da logica subjacente ao mercado ‘livre’ do trabalho.

    Ha’ coisas novas no que diz respeito ao trabalho. Uma e’ a tendencia para a
    automacao, e outra a sua deslocalizacao. Da primeira resulta que uma percentagem crescente das actividades de producao dispensara’ os trabalhadores, o que cria um serio problema a longo prazo; da segunda resulta um problema a curto prazo: como impor uma restricao aos movimentos de capital de modo a diminuir o preigoso abismo entre a mobilidade do capital, que atravessa o globo com um simples clic, e uma forca de trabalho praticamente imovel. Se o segundo e’ dificil de combater, o problema mais bicudo e’ obviamente o primeiro. Mas nao e’ imaterial, nem irrelevante. A prova: o Martin Wolf no FT (sic!) publicou dois artigos sobre o tema da automacao, creio que em Fevereiro de 2014 (quem tem assinatura pode procura-los), onde chamava a atencao para a provavel necessidade a prazo de criar um ordenado para a vida, sem condicoes, para todos os cidadaos. E’ que vai deixar de haver emprego para ‘toda’ a gente, neste parafdigma o pleno emprego e’ uma coisa do passado. Se uma ideia assim ja’ chegou ao FT…

    (ja’ continuo…)

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  7. Ora bem, a automação. Segundo as leis da robótica, do Asimov, os robots são nossos amigos. Quando um nos roubar o emprego, não nos vai deixar passar fome, com certeza. Vai lutar com outro robot e roubar comida ao seu dono para nos dar. Fica arrumada a questão. Eu como sou bicho do papel tenho umas publicações antigas onde se via tudo automatizado e o povo estendido no fauteill sem fazer puto, uma espécie de era do ócio. É fascinante a futurologia otimista dos anos 60. Não se colocava na altura a singela questão de se saber o que fazia essa gente, mas, suponho que os robots, para além de encerarem o chão, lá fariam qualquer coisa para colocar comida na mesa daqueles que não eram accionistas de fábricas de robôs. O diabo é quando o Hal 2000 se apaixonava por uma bimby e ambos deixavam os donos. Helá, isto está a bater forte, que o produto é do bom, e estou a variar. A ver se acerto agora umas ideias.
    Eu tenho um bocado de dificuldade em aceitar esse problema da automação generalizada, precisamente porque isso é uma queixa antiga, que começou com as máquinas agrícolas, se bem se lembra, e os campónios lá conseguiram arranjar trabalho. Por um lado, ficam am alta as profissões de muito valor acrescentado, as tecnológicas, as grandes e as pin ups, ou startups, ou lá o que é. Porque a automação é um processo que nunca acaba e aparecem sempre muitos modelos com novas cores e botões, um bocado como os i-phones Por outro lado, e aqui sim, entra a deslocalização, haverá sempre um exército de mão de obra barata, não qualificada, a fazer objetos de plástico e cautchu. A China, e quem diz a China, diz outro, não arrisca lançar para as ruas biliões de chineses ociosos, digo eu. Aqui é que eu não sei o que fazer com os desqualificados do lado do sol poente que, ingratos, não aceitem tal coisa. Torná-los a todos artistas, enquanto os autómatos não aprenderem. Eu estou a escrever isto tudo sem ir ver o que diz o Wolf, na esperança de dizer alguma coisa de original.
    O António Saraiva, capitão de indústria, patrão de patrões, disse ontem uma coisa extraordinária: que não admitia (sim, não admitia) que retirassem às comissões de concertação social as funções de regular o, isso, o “social”, deixando para o parlamento as funções do “político”. Viu? É o reviver das velhinhas corporações e sindicatos nacionais, com a assembleia com os debates dos altos desígnios da nação. É um descaramento que passou em branco. Se já tivemos um funcionário público a ralhar a um deputado numa comissão do parlamento… e se já tivemos um empresário a dizer que não esperava mais um minuto para ser ouvido noutra comissão parlamentar, porque tinha de ir trabalhar ao contrários dos deputados…
    Mas é que nem sequer é preciso romper com o capitalismo. É preciso regular e redistribuir. É que isso favorece o capitalismo, se não se confundir o capitalismo com o escritório do Madoff. O capitalismo muito beneficiou do estado moderno. O grande crescimento económico dos anos 60 foi resultado do social. Foi precisamente a rutura com a velha ordem que permitiu um crescimento nunca visto na história da humanidade.

    A historiografia da revolução francesa começou por ser feita pela aristocracia inglesa que recolhia, muito condoída, os pobres dos seus pares franceses que levavam apenas uma trouxinha, e assim continuou, mais ou menos.

    Pronto, e assim já resolvemos ambos 80% dos problemas mundiais, ficando a faltar apenas os outros 20%, que, se entretanto não resolvermos, ficam para o Manuel e o Luís Jorge.

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    1. Eu ja’ volto, que ainda quero resolver mais 1% ou coisa assim (tenho agora um leitor de dvds aberto `a minha frente e nao posso deixa-lo a apanhar po’…); entretanto, o Asimov, sim, obviamente, mas entretanto deviamos ir desenterrando o verdadeiro inventor dos robots, Karel Capek e o seu saudoso Rossum’s Universal Robots.

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