A questão das circunstâncias.

A curto prazo, ainda não sei se o PS ganha alguma coisa em formar Governo com o PC e o Bloco. Talvez sim, talvez não. Mas a função principal destas conversas foi a de criarem um milestone na vida política portuguesa. Pela primeira vez, em 40 anos de democracia, ninguém mais terá dúvidas de que a esquerda se pode entender para formar Governos de coligação.  E isso é muito mais importante do que avaliar se o acordo específico que António Costa prepara faz sentido neste momento.

Do ponto de vista prático, talvez Francisco Assis tenha razão: seria mais confortável para o PS sentar-se no parlamento com uma voz mais activa na oposição, formando consensos pontuais, derrubando medidas iníquas, etc. Mas se virmos a questão numa perspectiva histórica, o que Costa está a fazer com o PC e o Bloco é incomparável: ele prepara-se para escancarar uma porta que ainda nem sequer tinha sido entreaberta, dando ao país uma oportunidade preciosa de fazer corresponder a tendência de voto da maioria dos eleitores (que são de esquerda) às soluções de governo que a partir de agora se esboçarem em Portugal.

Felizmente a tradição já não é  que era.

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11 pensamentos sobre “A questão das circunstâncias.

  1. Ou a Direita é um “tigre de papel”, e as “Instituições Europeias” outro, ou precisamente pelas razões que aponta não será permitido que Costa venha a formar Governo. Se juntarmos a isto as eleições de Dezembro em Espanha, a desesperada luta de Jeremy Corbyn contra a Direita do seu Partido, apostada como está na sua destruíção, a continuação das submissas politicas do novo governo de Vichy em França, para não falar da Grécia, então parece claro que o “pequeno” Portugal tem por estes dias uma importancia como não tinha desde o 25/4.
    Ora não seria muito mais “prático” e barato comprar uma mão-cheia de Deputados do PS, (que aliás clamam todos os dias por serem comprados), garantindo dessa maneira a sobrevivencia de Passos e pondo fim a esta brincadeira?

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  2. Eu não sei. A direita e a boa esquerda, o Pai Tomás da direita, já andam a prever o desaparecimento do PS e do PCP, como castigo pela violação da tradição. É como se o rancho folclórico de Arcozelo de repente começasse a rodar em sentido contrário. Ficam tontos e caem que nem tordos, felizmente antes de provocarem a uma alteração da rotação do planeta. Parece que da esquerda ficaria o BE, porque é chefiado por uma “miúdas espertíssimas”, como diz a CFA, uma eterna miúda da esquerda Deluxe. O resto, vai tudo num vórtice para o centro do centro, incluindo o que restar do PS.
    Comecei a reler o Babbit do Sinclar Lewis. Vantagens de uma memória fraquinha. Quando chegar aos 90, só vou precisar de dois livros e ainda sobra um. O escritor não tem ponta de modernismo na sua escrita, distinguindo-se de outros na época, mas, por isso mesmo, criou figuras eternas, ao contrário do próprio, que se eclipsou. Era um personagem curioso, simultaneamente clássico e avesso militante da celebração do american excepcionalism. O tal Babbit é o representante de uma comunidade onde tudo gira à volta da eficiência, adequação e respeitabilidade e vive permanentemente de boca aberta perante o esplendor da eletricidade e da padronização, as suas únicas ideologias. Se bem me recordo, o pobre Babbit vai descarrilando ao longo da novela. Coisa que não acontecerá ao sólido Espada, que hoje, depois de um relambório que não ficaria nada mal num discurso numa convenção de agentes imobiliários, a seguir ao do próprio Bobbit, termina com um parágrafo onde informa que um hotel qualquer obteve um prémio qualquer, dizendo que “é uma distinção merecida para um hotel que persiste em preservar uma atmosférica única de clássica compostura”. É disto que se faz a grande comédia.

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      1. Olha o engraçadinho ;)… Eles não lêm Sinclair Lewis; mais depressa celebram a escrita tensa e vigorosa do Hemingway, onde poupando na chicha se diz o que se tem a dizer. Sò com um tirrinho, matava logo três elefantes, como senhor dom Carlos. Esse aí, o Sinclair, era uma espécie de Alves Redol mais sofisticado e palavroso, tovarich. Pronto, eu disse que gostava do tipo, não disse que era por não ser modernista. Sou até leitor de listas telefónicas, que é um tipo de escrita muito para lá de James Joice.

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          1. Então o Hemingway não escreveu belos textos sobre a Páscoa em Felgueiras? Escreveu um sim senhor, a meias com o Camilo. É “O Velho e a Páscoa em Felgueiras”, que começa assim “Era um velho que andava à pesca num barco e perdeu-se e foi ter a Felgueiras no dia de Páscoa. Lá chegado, meteu-se com a amante do regedor e quando este lhe ia enfiar a faca, o velho disse, não me mates que sou teu pai! Deixemos ambos a cachopa e anda daí beber um mojito com brandy macieira, rapaz.”
            Pronto, isto já são sinais da confusão espiritual e mental que avassalará o povo nos próximos tempos com um governo de esquerda.

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              1. É certo. Mas ainda e sempre com o Senhor em seu coração e, por isso, a salvo dos perigos de suas fantasias insidiosas, Luís Jorge.

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