Plataformas, conteúdos.

Vivemos no paraíso do flâneur de ciberespaço. Hoje mesmo descobri quatro ou cinco artigos excelentes através do Feedly e do Facebook.

Este, da Mary Norris, uma revisora da New Yorker, relata como um grupo de geeks dos lápis que se reuniu num cemitério de Brooklyn para visitar o jazigo do senhor Faber.

The Paris Review permite-me conhecer Paul McDonough, fotógrafo de rua em Nova Iorque de 1968 a 1978. Ora vejam:

paulmcdonough2

Antes tinha visto no New York Times uma recriação da cozinha muito visual (e “atómica”) de Betty Crocker:

Screen Shot 2015-11-03 at 12.55.34

E na PSFK encontrei um texto engraçado sobre o modo como a tipografia interage com as nossas emoções.

Muitos dias assim vão permitindo que observe algumas tendências na distribuição de conteúdos via internet.

  1. Os nomes clássicos (NYT, The New Yorker, Financial Times, The Economist, The Paris Review) continuam a dominar a produção de conteúdos de qualidade. Também leio a Vice e raramente a cito.
  2. Nos blogues de opinião, a política domina, com muitas considerações trêmulas de natureza moralista. Salvo excepções, estão cada vez mais chatos.
  3. O blogue como veículo de expressão pessoal, espontânea ou estética, foi substituído pelo Facebook.

O Vida Breve tem passado por um bom momento no que diz respeito ao número de visitantes (até há uma semana tinha cerca de 700 diários, muitos dos quais cá chegavam por partilhas no Facebook), mas será uma tolice ignorar que se trata de um anacronismo.

 

Comecei a pesquisar alternativas que me permitam fazer textos em ritmo lento (o que exclui o twitter) mas integrem uma ecologia mais estimulante do que o aborrecido diálogo de surdos entre partidos políticos tal como neste momento observamos na bloga. Aceito sugestões.

11 pensamentos sobre “Plataformas, conteúdos.

  1. É curioso ver neste texto, simultaneamente, uma artigo sobre as emotions que provocam os tipos e dois artigos do New Yorker e Paris Review, precisamente duas revistas cujos tipos me provocam alergia. Sobretudo a New Yorker, no geral, forma e conteúdo, parece-me um cruzamento do Henry James com a Betty Crocker. Don’t ask. Apetece-me ir logo de seguida folhear a lista telefónica de Oliveira de Azeméis.

    Essas fotografias de rua parecem-me banais. Muito cool jazz, sem grande alegria. Pôe-se um gajo à esquina, por assim dizer, a fotografar os milhões numa cidade que nunca dorme, apanha fatalmente uma data de cromos e fica ainda com muitos para a troca; é inesgotável. No género, em Nova Iorque, parei no Weegee, de quem gosto muito e que fotografou a sua geração e todas as que vieram e virão até a cidade ser engolida por um tsunami, e no ranking geral, o Brassai e o Kertesz.

    Para textos em ritmo lento, ou se forma um grupo de correspondência postal, ou se usa os blogues. Comparando com uma refeição, se o Luís Jorge não quer trios de violino e comensais ao lado a chamar filho da puta ao árbitro, que é o que dá o facebook, ou os petit fours de bistrot em alta rotação do twitter, só mesmo escrevendo em blogues. That’s what I say.

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    1. Mas que quer, os cruzamentos de henry james com betty crocker atraem-me imenso, ao contrário de oliveira de azeméis.
      E as fotografias de rua não são banais, você é qe agora, por ser uma vedeta num sem-número de blogs, nada lhe serve. Já passei pelo mesmo, mas a sua humildade natural ha-de regressar. A glória é uma coisa bem vã, caramelo.

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      1. Pois eu prefiro mil vezes Oliveira de Azeméis a Manhattan. Não, a verdade é que acho aquilo tudo muito café-creme, estética e conteúdo. Então essa dos lapitos e do gajo que inventou o lapitos, e dos que prestam culto ao lapitos, é muito MEC. Eu fiz scroll rápido na esperança que um deles no fim espetasse um lapitos no olho de um outro nerd, mas não. Que escrevem muito bem, lá isso, sim senhor. Quanto às fotografias, acho-as um bocado frias.

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          1. Não acho que seja isso que mais importe, mas nunca mais daqui saiamos.
            Aquilo da lista telefónica de Oliveira de Azemeis era provocador, mas não totalmente mentira. Juro que não estou a fazer pose. Gosto de listas telefónicas antigas, velhos anuários e almanaques. Much fun, aquele já morreu, olha ali a viúva carneiro & filhos, que será feito, quem serão os netos, etc. Muito sinceramente, troco uma coleção de new yorkers por um listinha telefónica das velhinhas, até de oliveira de azeméis. Sou matéria para a New Yorker: o desconhecido que não gostava da new yorker e que morreu soterrado em listas telefónicas velhas. É a vingança. Por outro lado, compro qualquer new yorker antiga que se venda na feira da ladra.

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  2. Não vale a pena pesquisar. Não há alternativa.
    Por mim, está tudo muito bem como está. E, se necessário, estou capaz de fazer uma operação de “crowd-funding” para deixar o “Vida Breve” ficar onde ele merece.
    A menos que seja para mudar tudo para que tudo fique na mesma.

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  3. Tal como o caramelo acho as fotos sem interesse. Tenho por costume deixar o New Yorker quietinho onde está, no escaparate, tal como o NY e o London review of books, mais os cahiers du cinema, e toda a panóplia de chicletes “high brow” com assinatura na ponta. Gente jeitosa para alguma coisa existe por todo o lado, até em Oliveira de Azemeis, incluindo esses aí, que escrevem bem, que sabem fazer o ponto com a câmara e são desenrascados na pós-produção. Um passeio pelos blogues animados por amadores benévolos oferece-nos o mesmo, ou mais, sem os inconvenientes da celebridade. Keep up the good work. Como não sou uma vedeta, isto não reflecte mais do que o meu mau feitio. E agora retiro-me para ir resmungar para um canto enquanto vou folheando o livro do James Agee e do Walker Evans “Let us now praise famous men”. Mais perto, o Miguel Gomes e o Pedro Costa fazem bem melhor.

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