Deve ser isto a “pressão mediática da esquerda” (2).

Daniel Oliveira, no Expresso Diário:

“(…) ao contrário do passado, em que havia jornais sem alinhamento político, outros alinhados à esquerda e outros alinhados à direita, hoje temos apenas jornais mais ou menos desalinhados e jornais claramente posicionados à direita. Apesar de considerar que se trata de um problema democrático, conseguiria viver com isto se os jornalistas mantivessem intacto o rigor informativo e não cedessem a agendas estranhas ao seu próprio ofício. Acontece que não é isso que se está a passar (…).

A total ausência de equilíbrio no comentário político – já assisti a vários debates televisivos onde todos os participantes se opõem aos entendimentos à esquerda – é apimentada por manchetes sensacionalistas que lançam o pânico, simulando um ambiente pré-PREC.

Com uma queda de 2% no PSI-20 (no início de setembro caiu 2,5% por causa da incerteza na economia chinesa, sem que isso merecesse grande atenção) o “Correio da Manhã” permitiu-se este título: “Medo de Catarina assusta a bolsa”. Mas não seria honesto fazer uma análise do comportamento da comunicação com base num pasquim. Sou exigente e por isso tenho de referir um dos melhores jornais portugueses: aquele onde escrevo. No site, um título anuncia: “Ações descem e juros sobem com medo de um governo de esquerda”. Uma frase arriscada, já que não é fácil estabelecer relações causais evidentes, de uma forma que um jornalista possa afirmar ser objetiva. Ainda mais porque o próprio texto modera essa certeza, explicando que a bolsa nacional “também é afetada pela descida das pares europeias, que seguem a tendência já registada na Ásia” e referindo que “novos dados negativos na China reforçam receios sobre o crescimento da economia a nível mundial”. Na realidade, sem que nada de especial tivesse acontecido, os juros da dívida portuguesa estavam ontem de manhã a subir a dois anos e a cair a cinco e a dez anos. O que terá acontecido ao governo de esquerda que explique isto?

(…) O alinhamento editorial contra a possibilidade de um entendimento à esquerda (totalmente natural na generalidade das democracias europeias) atravessa a generalidade da comunicação social. Do “Público” ao “Correio da Manhã”, da TVI à SIC, passando pelo “Expresso” e pela TSF. Não me espanta. Estamos a falar numa alternativa real. Agora é a doer. António Costa, se insistir neste caminho, vai ficar a perceber quem manda e como manda. E como a maioria dos supostos “livres pensadores” não se atrevem a desalinhar com a posição de quem manda.

Acompanhar a campanha eleitoral e acompanhar estes momentos tem sido muito instrutivo sobre o estado em que se encontra a comunicação social portuguesa. (…) A comunicação social não é, nunca foi, um contrapoder. É um palco onde os poderes se digladiam e onde domina o mais forte. Mas não tenho memória de, em democracia, ter visto uma comunicação social tão alinhada com o poder.

Os jornalistas parecem acreditar que a partir de uma determinada fronteira estão dispensados de qualquer isenção política. Catarina Martins, extraordinária quando roubava votos ao PS e podia assim permitir a vitória da coligação, passou a ser uma perigosa radical quando começou a garantir uma maioria de governo. Catarina, a revelação, passou a ser Catarina, a destruidora da bolsa nacional. Nada disse de novo. Pelo contrário, até moderou o discurso.

Recordo-me de Paulo Rangel ter falado da “asfixia democrática”. Entrei para um jornal em 1989. Não me recordo, nestes 26 anos, de ter alguma vez sentido um ar tão difícil de respirar no pluralismo informativo. Sentiu-se na campanha eleitoral, com uma vergonhosa parcialidade em quase todos os órgãos de comunicação social, e continua a sentir-se agora, com um cerco a um processo negocial legítimo, onde é quase impossível ouvir na televisão alguém a defender esta solução. Carlos Silva e Sérgio Sousa Pinto foram transformados nas mais relevantes figuras do Partido Socialista, deixando para segundo plano figuras secundárias como Carlos César, Ferro Rodrigues, João Soares ou António Arnaut.

A questão a que os jornalistas têm de responder é se querem ser o mensageiro ou uma parte na contenda. Depende da escolha que fizerem a sustentabilidade dos órgãos de comunicação social onde trabalham.”

 

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5 pensamentos sobre “Deve ser isto a “pressão mediática da esquerda” (2).

    1. Há que educar esses jornais e investidores estrangeiros. O VPV dá-lhes uma lição sobre o Fontes Pereira de Melo, que ele até andam de roda.

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