O traste (2).

Lê-se vezes demais, entre os sábios do regime e do PSD, que Cavaco Silva é muito “institucionalista”, tomando “à letra a Constituição”. Como se pode verificar pela imagem, trata-se de uma pura mentira:

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Cavaco Silva não presta. Tudo o resto que se diga do homem é inútil.

 

2 pensamentos sobre “O traste (2).

  1. Caríssimo Luís, interessante seria isto:
    «O Empate Técnico – Acto III, Cenas 5 e seguintes:
    (Intróito)
    Pedro Passos Coelho e António Costa apresentam-se no Palácio de Belém, pelas 10 horas e 15 minutos da manhã de quinta-feira, dia 22 de Outubro de 2015, sendo recebidos pelo Dr. Nunes Liberato, chefe da Casa Civil da Presidência.
    (No salão de visitas do Palácio)
    Nunes Liberato, com ar composto mas com um colossal par de olheiras, depois de uma noitada bem comida, melhor regada e excelentemente acompanhada, recebe-os com o desdém próprio das ocasiões solenes, enquanto a Dra. Maria Cavaco Silva, mal escondida atrás de um reposteiro, espreita ávida à escuta.
    Dizem “ambos-os-dois” em uníssono, Pedro e António para o sonolento vigário presidencial:
    – Viemos comunicar a Sua Excelência o Senhor Presidente da República que estamos dispostos a formar o próximo Governo de Portugal, a bem da Nação, do País, do Povo, das portuguesas e dos portugueses, dos que estão e dos que hão-de vir!!
    Nunes Liberato mal pode crer no que acaba de ouvir e, mal conseguindo articular as palavras devido ao espanto pela realização do sonho molhado acalentado desde há muito nas tertúlias da Rua do Possolo e da Aldeia da Coelha, replica com alegre dificuldade:
    – Irei de imediato dizer a Sua Excelência. Preferem aguardar na antesala. Desejam tomar algo? Um café? Um chá? Água? Bolachas?
    Pedro – Não, nada. A Laura já me espremeu um suminho de laranja fresca do Algarve antes de eu p’ráqui vir.
    António – Também não quero nada, estou muito bem. A Teresa fez-me umas torradinhas barradas com Tulicreme de avelã que já não comia desde que fui aluno no Liceu Passos Manuel.
    A Dra. Maria suspira de alívio atrás do reposteiro, pensando, para memória futura, que terá de repreender outra vez Nunes Liberato pelo pendor despesista. Sem saírem do salão de visitas, António fixa longamente o reposteiro enquanto Pedro, fazendo-se de idiota sonso, desvia o olhar para as pernas daquela assessora de comunicação em trânsito pelo corredor que ajeitara, em tempos, o laço de Cristiano Ronaldo para a fotografia oficial.
    Esperam todos.
    Nunes Liberato volta passados poucos minutos, acena-lhes brevemente, indicando-lhes que o sigam.
    Após curtos instantes, a Dra. Maria sai detrás do reposteiro e toma o caminho do corredor.
    (Gabinete do despacho do Presidente)
    Aníbal Cavaco Silva está de pé, à frente da sua secretária belenense, antegozando o momento; depois de avisado pelo seu factótum Nunes Liberato, está a poucos instantes de saber se todas as suas recentes diligências em prol da constituição do Centrão vão finalmente resultar, o que o deixa num tal estado de euforia que o faz esquecer a toma matinal dos medicamentos preparados por sua filha Patrícia com dedicação e esmero na oficina da sua farmácia de Carnaxide.
    Alguém (Nunes Liberato) bate à porta do gabinete.
    Aníbal pigarreia num sussurro e depois lança – Entre!!
    Entra Nunes Liberato, acompanhado por Pedro e António.
    Nunes Liberato – Senhor Presidente, os Doutores Pedro Passos Coelho e António Costa para falar com Vossa Excelência.
    António e Pedro – Muito bom dia, Senhor Presidente da República!
    Aníbal, apontado para as duas cadeiras em frente à sua secretária, fazendo menção de se sentar também enquanto despede Nunes Liberato com um leve aceno de cabeça:
    – Muito bom dia a ambos! Façam o favor de se sentarem.
    Pedro e António entreolham-se à vez; este último diz para o primeiro, com um ligeiro tom jocoso:
    – Começa tu, pá.
    Pedro (algo embaraçado) – Senhor Presidente, sabe Vossa Excelência que nunca deixei de atender aos seus apelos para o estabelecimento de consensos alargados entre os partidos do Arco da Governação…
    Aníbal interrompe-o bruscamente:
    – … Do Arco da Governabilidade…
    Pedro (muito nervoso) – Pois sim, Senhor Presidente, é como Vossa Excelência muito bem diz, da Governação para a Governabilidade que é o que todos aqui queremos. É precisamente por esse motivo que lhe comunico que o Paulo e eu mantemos o mesmo Governo de Coligação PPD-PSD/CDS-PP para continuar a obra iniciada em Junho de 2011 e conservar Portugal, a nossa pátria, no caminho da Europa e na senda do progresso prudente e realista que nos há-de levar a uma vida melhor.
    Aníbal (genuinamente surpreendido) – Julguei que vinham informar-me da vossa comum intenção de constituir um Governo de Coligação PSD/PS, eventualmente alargado ao CDS, para manter o rumo europeu e atlântico do nosso país.
    António (irónico) – Ao contrário, Senhor Presidente. Eu venho aqui anunciar-lhe que, seguindo o seu sábio conselho sobre a necessidade de consensos alargados e depois de sucessivas rondas negociais no Largo do Rato com o PCP e o Bloco, o PS está pronto a governar Portugal com o apoio maioritário dos deputados eleitos no passado dia 4 de Outubro.
    Aníbal (ligeiramente irritado) – Não percebo nada. Estão ambos a comunicar-me que cada um de vós tem um Governo pronto para conduzir os destinos de Portugal!? Pensei que tinham, por uma vez, escutado os meus instantes apelos ao consenso alargado…
    António (sorrindo com à-vontade) – E, pelos vistos, ambos, o Pedro e eu, escutámos os seus apelos reiterados para encontrar consensos alargados…
    Pedro (quase a desculpar-se) – E cada um de nós foi à procura dos seus consensos alargados…
    António (mais assertivo) – Perdoe-me a expressão, Senhor Presidente, seguimos os seus apelos e conselhos, mas “sem dar cavaco” um ao outro…
    Aníbal (já crispado) – Como está bem à vista. E quais são as vossas “muletas” para sustentar esses belos planos de governabilidade? Pode saber-se? É que a União Europeia e o Eurogrupo não podem esperar!
    Pedro (muito atrapalhado) – O Paulo e eu não temos quaisquer “muletas”, Senhor Presidente. É que contamos consigo para ser o nosso “andarilho” até ao final do seu mandato…
    António (quase rude) – Senhor Presidente, o PS não tem “muletas” porque as muletas são para usar uma de cada lado; diz-se que o PS está coxo, mas o PS não é partido para usar muletas só do lado esquerdo. Lá na nossa sede, os meus camaradas e eu decidimos que começamos o consenso alargado com a Heloísa Apolónia, a Rita Rato, a Catarina Martins e as “manas” Mortágua e só depois nos fazemos pela direita à Assunção Cristas, à Cecília Meireles e à Teresa Caeiro. Vamos pedir licença ao Jerónimo, ao Louçã e ao Miguel Sousa Tavares… É assim que se constroem maiorias estáveis assentes na confiança!
    Pedro (subitamente impante) – Queira Vossa Excelência escolher a qual Governo irá dar posse! O meu ou o do Costa!
    Cavaco Silva abre a boca transido de espanto, levanta-se da cadeira sem conseguir falar e cai redondo no chão fulminado pela surpresa absoluta.
    A Dra. Maria que tornara a esconder-se para a ocasião atrás doutro reposteiro, lança-se à cabeça do seu esposo prostrado convulsivamente no tapete de Arraiolos do gabinete e desfalece com um sonoro gemido de “Ai, minha Nossa Senhora”.
    Pedro e António entreolham-se à vez, sorrindo ambos de maneira nada circunspecta. António levanta o auscultador da secretária presidencial e chama Nunes Liberato.
    Pedro diz-lhe:
    – Afinal a tua frieza ainda é maior que a minha. Belo golpe demos no Estado!
    António (sempre de sorriso aberto) – Foi o Soares que me ensinou o truque para pôr este (aponta para o chão) a “bater mal”…
    Saem os dois do gabinete quando Nunes Liberato, ao entrar, vê o casal presidencial desmaiado.
    Cai o pano.»

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