Ainda o Charlie Hebdo.

Um comentador pergunta-me se considero o cartoon da criança morta ofensivo, ou uma crítica à sociedade ocidental, ou as duas coisas. Bem… não.

A este respeito posso invocar uma experiência profissional privilegiada, por ter vivido alguns anos de liberdade criativa como nunca houve nem haverá em Portugal. O que escrevo a seguir pode ser estranho para muita gente.

Axiomas:

O humor é pura provocação infantil. Isso inclui o humor “inteligente”.

O objectivo do humor é chocar. A reacção nervosa ao choque é o riso. Ou o horror.

O que distingue o humor do horror é o contexto. Tentem imaginar uma anedota contada por Stephen King, verão que é fácil.

A verdade é instrumental no humor. É útil quando está recalcada. O humor não procura a verdade, apenas vê a mentira como um irresistível balão cheio de hélio.

Não existe humor de bom gosto, existem estratégias de carreira limpas. Seinfeld nunca disse um palavrão. A isso chama-se marketing, não humor. É preciso ser muito frio para se ser limpo.

O humor não tem moral. Swift, um dos grandes humoristas de sempre, queixava-se de tentar envergonhar os homens e apenas conseguir fazer com que se rissem.

Ao triunfo do humor chama-se impunidade. A impunidade é rara.

A impunidade é efémera, mas intoxicante. Os humoristas não lhe resistem.

O Charlie Hebdo só brinca com cadáveres de crianças porque conquistou a impunidade, através dos seus mortos.

Em breve a vai perder.

 

13 pensamentos sobre “Ainda o Charlie Hebdo.

  1. Huum…”O objectivo do humor é chocar”.
    Se calhar sou conservador (ou ignorante) mas o que me choca já não considero humor, está para lá da sátira – para alguns até será arte -, é mais uma maneira de chamar a atenção para um qualquer assunto. Percebe-se que a criança morta no Charlie Hebdo é uma crítica à sociedade ocidental, consumismo, valores, etc. Como já tinha dito, é um tipo de humor que não aprecio, prefiro mil vezes o “tipo” Seinfeld ou Monty Python – que, diga-se, à sua maneira, na sua época, também chocaram apesar de parecerem mais “clean”. Quem nunca viu a Vida de Brian que atire a primeira pedra……

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  2. O humor não é universal, é uma construção cultural, uma coisa de circunstância. Se eu, pobre diabo, disser a um milionário que como todos os dias ao pequeno-almoço uma lata de caviar, ele, imperturbável, vai-me perguntar se prefiro o russo ou o iraniano. Aconteceu-me já uma coisa parecida e foi solitariamente hilariante. Triste, portanto. Se uma determinada tribo andar de forma esquisita, vai achar estranho que outra tribo se ria ao ver o sketch do ministry of silly walks. O drama, sim; a morte de uma criança sente-se de forma igual em toda a parte, assim como ver um vagabundo a comer atacadores de sapatos como se fosse espaguete. Por isso, humor com drama é êxito seguro, de uma forma ou de outra. Qualquer humorista sabe que não existe impunidade para isto. Esse não é o desenho que provoca atentados à bomba, porque a revolta não é tão incendiária, mas provoca a ignomínia. Quem fez este desenho é um daqueles seres estranhos que esperam pelo menos esta forma de punição e muitos humoristas são de facto seres diferentes. Muitos grandes do stand up comedy acabaram gloriosamente vaiados ou coisa pior.
    Também não acho que seja crítica social. A Mafalda é crítica social e politica. Isso aí é humor em estado puro, tipo absinto a 90%.
    Nunca achei piada ao Seinfeld. Tudo aquilo me irrita, desde os diálogos aos penteados. Vou, mais uma vez, ler meia dúzia de teses que explicam que o Seinfeld foi um revolucionário do humor. Mas seria mais fácil para os idiotas se algum laboratório lançasse um comprimido com a tese sintetizada e concentrada. Adoro o Dave Chapelle e o Eddie Murphy.

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    1. Onde discordamos é aqui:

      “Qualquer humorista sabe que não existe impunidade para isto. Esse não é o desenho que provoca atentados à bomba, porque a revolta não é tão incendiária, mas provoca a ignomínia. Quem fez este desenho é um daqueles seres estranhos que esperam pelo menos esta forma de punição”

      Julgo que o processo psicológico é o oposto: quem fez este desenho espera safar-se. Safar-se apesar de saber, e provavelmente concordar, que é uma coisa criminosa. A finalidade deste tipo de humor é pode dizer: “Viram? Viram o que eu fiz?!”

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      1. Pois, também me parece assim, e no entanto …. acredito que o palhaço do Jerry Lewis é diferente (e nunca pude ver o filme). O grande humor é aquele que pega em qualquer coisa, intui a sua essência e leva-a ao limite. Resulta uma caricatura, uma coisa a traço grosso, aaquilo que nos devia envergonhar (muito certeiro o Swift), ajudar-nos a pensar, mas que pode frequentemente deixar as pessoas a rir apenas, ou a espumar de indignação (geralmente) hipócrita. É que qualquer que seja a obra, o humor não é aqui excepção, é sempre incompleta, e “metade” do trabalho tem de ser feito pelo espectador. Mas também acho que o “humor” é hoje essencialmente uma etiqueta comercial, uma classificação da indústria do entretenimento. Nao tem interesse nenhum. Embora os Monthy Python me divirtam, aquilo é pobre (por que não os avalio à parte, comparo com o Chaplin, o Swift, …) . O que é grande não é apenas “humor”, é sátira, é poesia, é movimento, … como é o caso do Chaplin. Hoje não há nada assim. (Quer dizer, deve haver, algures, longe do espaço público que está saturado com o matraquear das fábricas de produção televisiva,

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      1. Esse Costanza é um dos patetas. Há uma grande linhagem desses patetas nas sitcoms americanas, adultos infantilizados e histéricos a quem dá vontade de dar carolos. Já gosto daquela variante dos patetas totais e absurdos, os do dumb and dumber dos irmãos Farrely, ou aqueles surrealistas do Airplane. O Eddie Murphy é um furacão com queda para a comédia, o maior palhaço que conheço, não há igual. Gosta do Bruno Aleixo?

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        1. Discordo por completo. O interesse de George Costanza é precisamente não ser um adulto infantilizado, nem histérico, mas que acaba sempre empurrado para a histeria e infantilidade pelas circunstâncias, pela família (aqueles pais são de antologia) e pelo desajuste entre as suas expectativas e a realidade. É um pateta que tem um lado trágico, ao contrário do tradicional e ubíquo tolinho suburbano das sitcoms americanas. Qualquer paralelo entre Costanza e a tal linhagem de patetas labregoides, como Ray Romano, ou o execrável Tony Danza, parece-me absolutamente aparente. Mas há gostos para tudo. Pessoalmente, não aprecio nada o material de Jerry Seinfeld, e acabo sempre por descobrir que os melhores achados na série foram escritos por Larry David (o próprio George é a encarnação ficcionada do argumentista).

          Os fulanos do Bruno Aleixo são conhecidos de amigos meus. Gosto daquilo por uma razão: – lembra-me uma data de fulanos de conheci pela zona de Coimbra; as idiossincrasias, a forma de falar, etc. Mas acho que muitas vezes abusam na infantilidade e nas referências ao microcosmos dos autores. Os gajos em pessoa são exactamente aquilo, um bocado irritantes, dizem-me😀

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          1. Eu cá, se me permitem, gosto muito do Seinfeld. É muito cerebral, claro, mas tem um talento inultrapassável para as variações. Consegue tirar coisas extraordinárias de nada, ou quase nada: de um gesto sem significado, de uma pequena mania em que mais ninguém repara. Às vezes parece o Shakespeare do Love’s Labour’s Lost: não acaba.

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            1. Na série, tem os seus momentos, mas a stand up de Seinfeld deixa-me uma bocado frio. Acho o Louie CK mais completo: escreve maravilhosamente (aquele episódio dos patinhos no Afeganistão), tem o público na mão desde o primeiro momento quando faz stand up e é um actor de mão cheia. Escatologia à parte.

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          2. Há os patetas labregos e há os patetas cosmopolitas neuróticos nova iorquinos, que eu imagino sempre deitados num divã de um psi metade do dia, como o pobre do Costanza. Tecnicamente pode até ser inovador (não acho), mas não consigo ultrapassar a minha aversão pela espécie. Nem consigo deixar de imaginar, em direto, o trabalho de uma equipa de wise guys a escrever o script, com aqueles diálogos rápidos muito clever tipo tiki taka, e para mim isso é mortal.
            Muito do melhor humor que agora se faz, pelo menos aquele que eu gosto, está na animação hmm infantil, sobretudo no Cartoon Network. Gosto muito do Regular Show e do Gumball, que vejo com o meu filho. As crianças andam a ficar expostas a um nível perigoso de silliness.
            O Bruno Aleixo é um bocado underdog (um dog qualquer mal identificado, pelo menos), com umas idiossincrasias coimbrinhas, mas, por isso mesmo e muito mais, é diferente de tudo o que já se fez e eu acho hilariante. Por exemplo, tem uns silêncios fabulosos que contrastam com o matraquear do seinfeld e amigos.

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