À patrão.

Durante muitos anos, quando alguém na publicidade tinha uma ideia esdrúxula ou incompreensível (acontece muito), aparecia sempre um engraçadinho a repetir: “Já sei. Fazemos a campanha e depois pomos um mupi na rua a explicá-la às pessoas que não a compreenderem”. A sugestão provocava um sorriso enfastiado e o brainstorm lá continuava.

Até há pouco. A “Mosca Publicidade”, uma agência “pós-digital” (não queiram saber) que eu desconhecia ainda esta manhã, não só conquistou um cliente importante como colocou no ar uma campanha com um plano de meios invejável. Ora, isso seria excelente, num mercado que precisa de renovação. Seria, mas não é. Porque os anúncios são larachas de cão lazarento a suplicar por misericórdia.

O spot de TV exibe uns jotinhas a cantarem o “Estou na Lua” com rima adulterada: começam com “Licor Beirããão”, e logo passam para a “rodela de limãããão” — um momento alto na história das marcas que influenciam o comportamento dos consumidores. Mas, como a publicidade tem imensas emoções e doses abundantes de storytelling, eis que é preciso concluir com brilho o apontamento musical. Chega então a assinatura da campanha: “Licor Beirão. É mesmo à patrão.”

Não sei se me faço entender.

Vamos dar de barato dois ou três pormenores. Por exemplo, não esquadrinhemos os motivos que persuadiram uma “agência pós-digital” — supéfixe, cool, gira, trendsetter — a fazer campanhas de jingles, o recurso criativo dos anos trinta do século passado por excelência. Se calhar é uma cena vintage e “hipster”, ok?

Nem queiramos saber por que diabo escolheram o mais enjoativo hit de 1995 para veicular a mensagem. Porque a boa comunicação é sempre “intuitiva”, “irónica” e “inspiracional” ou “aspiracional” — whatever.

O osso não é esse. O problema é que “à patrão” não significa nada — excepto o desespero de quem gosta de rimar. E isso, com o tempo, aborrece as pessoas.

A mãe do criativo, quando ele chega a casa diz: “Já vi o teu anúncio, filho. És tão inteligente! Mas porque é que todos aqueles rapazes falam no patrão?”

A directora de marketing, que tem vinte e três anos e está a completar um estágio profissional, recebe whatsups das amigas: “Rita então!!!!!! Já pedistes 1 aumento ào patrão???!!”

O gerente da empresa familiar que esforçadamente tenta adaptar um velho império de bebidas espirituosas aos novos tempos do “pós-digital”, também ouve o que não gosta: “Olha o engenheiro a sair à quatro… É mesmo à patrão!”

A campanha regressa portanto à Mosca Publicidade, para ser esquartejada no departamento criativo que nunca dorme. E várias horas depois, erguendo a voz bem acima do desânimo, do botabaixismo e da depressão, um jovem hipster borbulhento exclama: “Já sei. Vamos por um mupi na rua a explicar a campanha às pessoas!” E assim se fez, para alegria de todos os stakeholders:

patrao

Porque a derrota do pensamento crítico não aparece só nos jornais.

9 pensamentos sobre “À patrão.

  1. Estava mesmo à espera que vocelência se pronunciasse sobre a coisa. Então, agora andam a espalhar um tratado de exegese? É original. Assim, para além dos chungas de cabelo azeitado com andar gingão, captam também os nerds. O que dá uma grande salada conceptual. O “à patrão” é vagamente uma expressão idiomática do bas fond espiritual, que quer vagamente dizer “com autoridade”, do género “cheguei, garinas, isto é tudo meu!”. Não é novo. Nisto, as campanhas do Licor Beirão são consistentes. Não há nada mais “À Patrão” do que o Futre engravatado a dizer, «Sócio, queres ganhar um Porsche igual ao meu?» (http://sexonomarketing.com/qual-o-marketing-da-marca-futre/). Premiado e tudo.
    E quem é que teve já a mesma ideia na pub? Estes:
    https://www.okmuv.pt/

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      1. Isso, não sei. Os publicitários são pequenos deuses que escrevem direito por linhas tortas. Disparate ou não, esta campanha tem todas as condições para se tornar viral. Daí a pedir-se um licor beirão, a ver se sabe a patrão, é um pequeno passo.

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          1. É capaz de ter razão. Há algum mecanismo que meça o impacto destas coisas nos media, redes sociais, etc? (para além do óbvio impacto mensurável na caixa registadora do patrão, claro)

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  2. Esse anúncio tem um lado positivo: recuperou uma palavra que tinha entrado em desuso desde que no imaginário popular os patrões foram substituídos pelos directores de recursos humanos. O que tem graça é que “à patrão” era uma expressão a dar para o machismo de camisa aberta e pêlos no peito, a roçar o boçal, portanto, que agora aparece com uma conotação fresca e leve. Eu, pessoalmente, confesso que cada vez que ouço esse jingle continuo a lembrar-me do Duarte Marques🙂

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