Notas de campanha (4).

Trabalho em comunicação há vinte anos. Isso basta-me para considerar a minha opinião qualificada. Mas também me diz que, provavelmente, falharei mais nas previsões dos resultados eleitorais do que um observador singelo com a mesma informação. Ou seja, os especialistas exageram. O fenómeno está explicado num livro de Nate Silver chamado “The Signal and the Noise”, e não vale a pena perder muito tempo com o assunto.

Com esta ressalva, cá vai:

1. Não julgo que os desaires dos cartazes e das ruminações excessivas prejudiquem necessariamente o PS. Essa guerra está limitada aos convertidos.
2. Costa não está a agradar ao eleitorado fiel dos socialistas, mas pode amolecer os indecisos. Quando se afirma “moderado” é isso que ele quer. Não sabemos se consegue.
3. A grande batalha ocorre entre duas memórias que funcionam, de uma maneira bem interessante, como princípios de legitimação — mas legitimação do adversário. De um lado, a memória de Sócrates. Do outro, a memória da austeridade. A memória mais poderosa perde as eleições.

O que está a falhar, na oposição? É que ainda não demonstrou o fracasso da austeridade. O PS não demonstrou porque não pode — depois da vitória vai amochar. A esquerda do PS não o demonstrou porque hesita entre um discurso racional e incendiário. Esse é o erro de Pacheco Pereira, como António Costa sabe.

No entanto, qualquer vitória da esquerda tem de partir daqui: de provar que o país está pior do que estava antes da intervenção da troika. De provar que havia políticas alternativas (como as que foram praticadas na América) com resultados infinitamente melhores.

A única pessoa que está a aplicar este didactismo é Mariana Mortágua, tratando os espectadores como pessoas inteligentes.

Sobre os pequenos partidos, duas notas que me interessam:

O Livre, partido em que votarei, está entalado. Como o PS não descola, é difícil que venha a servir para viabilizar um Governo. Como o Bloco ressuscitou (é o efeito Mortágua), também não pode ocupar o espaço da orfandade da esquerda que previa. Mas o Livre só tem sentido como projecto de longo prazo: para a sua sobrevivência é fundamental que cresça, mas não interessa por enquanto a que ritmo.

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