Cânone.

 

Entretanto, bem longe das dicas de um supermercado, Robert McCrum completa a sua lista dos 100 melhores romances escritos em inglês.  Tenho seguido ao longo dos meses os belos textos que justificam as escolhas de cada obra. McCrum valoriza em excesso o período eduardiano (e, concordo, é puro charme) mas depois corrige o tiro. Entre os que decidi ler: Nightmare Abbey, de Thomas Love Peacock, Sybil, de Disraeli, Zuleika Dobson de Max Beerbohm, e Underworld, de Dellilo, que tenho para aqui a servir de calço a uma mesa ou assim. A obra de Philip Roth que seleccionou não faz justiça ao autor. Portnoy’s Complaint, com toda a pirotecnia, não é comparável aos grandes livros da velhice de Roth, a partir de Sabbath’s Theater.

26 pensamentos sobre “Cânone.

  1. Já tinha visto essa lista. Muitos estão já no domínio público e podem ser lidos no project guttemberg ou outros do género. Fiquei a conhecer o Sybil, do Disraeli, que está também no número 15 (quinze) na lista das cem melhores novelas de sempre, em qualquer lingua (lista logo acima). Leia, leia, Luís Jorge. Se um daqueles patuscos do Three Men in a Boat, digamos, o fox terrier, também tivesse escrito uma novela, o McCrunch seria obrigado a colocá-la no primeiro lugar do cânone.
    Eu, agora, da literatura inglesa passo por cima do século XX, acelerando no período eduardiano (Chesterton e outros igualmente aborrecidos), e vou ao gótico vitoriano e derivados e a coisas divertidas como o Tom Jones, do Fielding. No resto, vou apanhando aqui e ali uns policiais, que é outra coisa, so to say.

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    1. E o que anda você a ler de policiais, ou melhor, o que recomenda? Gosto da P.D. James, e alguma coisa da Ruth Rendel, e até me oriento com a Agatha Christie, ma faltam-me referências.

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  2. Há os policiais e depois há os de espionagem, com o Le Carré à cabeça. A maior tragédia do fim da guerra fria foi a Inglaterra ter reduzido o pessoal na embaixada de Bona, onde se passavam coisas tão interessantes. Mas de policiais, vou de um extremo ao outro. Começo na era dourada, com os locked room misteries, um excelente divertimento para cavalheiros como nós, cheios de savoir faire e coiso. Sobretudo o Dickson Carr, ou Carter Dickson, o mestre (americano, por acaso) e a Agatha Christie com o Ten Little Niggers (And Then There Were None, na versão americana politicamente correta). Os Poirot e Miss Marple, tanto me faz ler como ver as séries, que aquilo não tem densidade literária nenhuma, nem de qualquer espécie. Eu, como gosto do gajo que faz o Poirot, o David Suchet, vejo a série, que sempre tem bonecos. Também gosto muito do Edgar Wallace, que conseguia escrever para ai um livro por dia, como o Simenon, e mesmo assim conseguia ser excelente. No género, para quem gosta, pronto. É apanhar um e ler. Depois disso, no género sofisticado, a PD James, claro, e acima a Ruth Rendell, que tem um herói que não é poeta, mas safa-se também com umas angústias, mais do género dores nas costas. É excelente. A Patrícia Highsmith, também, no género paranoico/psicopata. O Mr. Ripley é ótimo, e os contos dela são de arrepiar. Andei também a ler muito a Patrícia Cornwell, género sala de autópsias. Mas o maior é mesmo é o tal Simenon. Não li ainda foi policiais portugueses, porque ainda não me habituei a policias chamados José António. Devo ter-me esquecido de qualquer coisa, mas se a gente continuar a conversa, depois lembro-me.

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    1. Simenon salvou-me tantas e tantas vezes… um Maigret no bolso de trás, e esperar nas Finanças torna-se delicioso. Acompanha-me há tantos anos, que me sinto estranho se passa muito tempo sem que leia um. Colecção Vampiro esteja connosco.

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  3. Luis Jorge, atenção que John Dickson Carr e Carter Dickson é o mesmo gajo. O primeiro é o nome verdadeiro, o outro é pseudónimo em alguns livros. A comprar apenas um, que se compre o melhor, que para muitos é “Os Três Ataúdes” (The Hollow Man – Dickson Carr). A Dorothy Sayers também, tinha-me esquecido, eles são muitos. E o engenhoso E.C. Bentley, o Último Caso de Trent, por exemplo. Para uma pequena biblioteca, anote também o Rex Stout, com o seu Nero Wolf, e o Peter Cheyney, um inglês que faz uma paródia divertida do hard-boiled, aqueles do “estava eu no meu escritório, entra-me uma louraça e eu pensei, vamos ter sarilho…”, mas em Londres. Para uma coisa completamente diferente, o Ruben Fonseca. O A Grande Arte é uma obra prima. E o Montalban e o Eduardo Mendoza. Deste último, o Mistério da Cripta Assombrada, uma novela policial no género pícaro que os espanhóis inventaram.
    Henedina, isto anda tudo ligado. Vou lançar um romance policial: o Mistério da Campanha Eleitoral. “Estava eu no meu escritório, entra-me pela porta um conhecido politico com o olhar perdido e assustado. Mau, vamos ter sarilho, pensei eu. – Ouça, tem de me ajudar, não consigo descolar nas sondagens, não consigo, e não sei porquê, não sei… – hhmmm, então é isso. Vou sacar facilmente umas massas a este totó a fingir que tenho muito trabalho a investigar a coisa; é mais burro que a loirita que me apareceu cá ontem….” Portanto, não tenho tempo de tomar conta de um blog, tenho de escrever um romance, para aí com mil páginas, para a coisa render ao detetive para ir de férias para as Bahamas.

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  4. Ao lado de Patricia Cornwell sugiro – passe a ousadia – Minette Walters.
    Dois nomes que abriram a colecção “O fio da navalha” da Presença. Há uns anos. Os primeiros livros das duas escritoras são muito bons.
    Manuel Carvalho

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    1. Andei viciado na Patricia Cornwell durante um tempo. Tenho um da Minette Walters, mas ainda não li. E depois, há os nórdicos. Adorei a Trilogia Millenium do Stieg Larsson. A maldade vem com muitas formas, podia ser uma frase do Poirot, e talvez seja, não me lembro.

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  5. “porque ainda não me habituei a policias chamados José António”

    Oh my God, dear dear …. então e a obra do extraordinário Dennis McShade, e o seu inesquecível herói Peter Maynard, o assassino profissional de Beretta na mão, ouvindo Mozart e Debussy, lendo Celine, e largando referências a Huston e Hawks. Peter Maynard, o assassinho profissional que só bebia leite? …. You must read it, man! It’s imperdoável…

    E em francês, o Jean-Pierre Manchette é um “must”, passe o contra-senso idiomático. Manchette, um tipo também escrevia crónicas sobre cinema no Charlie Hebdo, uma cena que aconteceu lá pelos anos 80. Foi recentemente adaptado à BD pelo genial Tardi (já vai em três albuns pelas minhas contas), que também já tinha adaptado as aventuras do Nestor Burma, do Léo Malet, outro mestre.

    Nas Américas, acho que vocesselências se esqueceram de “Pulp” do Bukowski, um tipo que ainda aumentou a sua popularidade fazendo já não me lembro o quê naquele programinha de televisão sobre literatura Apostrophes ou o seu sucedâneo do Pivot.

    Prontos, já deixei aqui o estendal da minha erudição, eu que não percebo nada de policiais, sejam compreensivos, vá lá, é que la culture, c’est comme la confiture, moins on en a, plus on l’étale. E, eu, não sou nem mais nem menos, sou como os outros.

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    1. Bem lembrado, o McShade. Comprei um ou dois em tempos, só porque sim, sem grande vontade de ler. Um dia, quem sabe. Do Dinis Machado, o criador, fiquei-me pelo imortal O Que Diz Molero. Curiosamente, o catalão Eduardo Mendoza, nos seus policiais, anda perto do ambiente chalado e da linguagem do Molero, mas ainda mais hilariante. Quando falei nos policiais portugueses estava mais a pensar nos do F.J. Viegas, e quanto a estes tenho um preconceito que não sai nem com aguarrás.
      Em francês, não conheço nada para além do Simenon, um belga francófono. E o Maurice Leblanc, o do Arséne Lupin, mais uma daquelas coisas que um cavalheiro deve ter para compor uma biblioteca decente.

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  6. E se o cúmulo da erudição for a referência escandinava com uma pitada moçambicana … tcham tcham tcham…. Henning Mankel. poças, esta deixou-me sem munições

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  7. o pepe carvalho do vasquez montalban é uma personagem imperdivel (então maneira como trata os livros…). não se passa na sua habitual Barcelona, mas Tango Argentino é excelente ( os últimos livros – Milénio não devem ser incluidos na obra).
    qualquer livro do James Ellroy é uma obra prima.

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  8. Para baralhar e voltar a dar, se quiserem seguir, para se ver que isto não é coisa menor que se despache. O Pepe Carvalho só pensa em comida e discute a qualidade do jamón com o pobre do merceeiro. O Nero Wolfe é um gourmet. O Maigret pela-se por vinho branco, cervejinha e Calvados (por vezes, tudo de seguida), mas compensa com guisadinhos campestres e trutas do rio. Por outro lado, o Poirot parece que não se alimenta; vive em estado permanente de fastio com a comida inglesa, e o Sherlock Holmes basta-lhe a coca.

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      1. Não tinha pensado nisso, mas é capaz, é. São ambos muito cerebrais; é muito método dedutivo. Nunca gostei do House, porque o homem é uma besta quadrada. Gosto dos meus heróis simpáticos e humanos, com alguma resmunguice q.b.
        Do Montalban/Pepe Carvalho o meu preferido é o Mares do Sul, mas é tudo bom. Nele e nos policiais do Eduardo Mendoza aprende-se muito até do ambiente de Barcelona (e de Espanha, por supuesto) no período do pós franquismo. De modos que tem muita diversão e proveito.

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  9. Mas para mim a grande revolução foi a descoberta dum escritor de policiais Islandês, o Arnaldur Indridason, do qual recomendo o Silence Of The Grave e o Voices, só como apetizer…
    Depois, passa a doença compulsiva.
    É, para mim, o autor maior da nova vaga dos policiais nórdicos.
    Outros indispensáveis são alguns dos novos autores do neo-noir rural Americano. Recomendo a leitura do Knockemstiff e o The Devil All the Time do Donald Ray Pollock
    Para terminar esta minha modesta contribuição, de compulsivo leitor de policiais, o Crimes in Southern Indiana, do Frank Bill.
    Mais antigos, o Jim Thompson, o David Goodis, o William Irish, o Deus Hammett, o Deus Chandler, enfim…
    Quanto aos primeiros aqui mencionados, “si pas satisfait, remboursé!”

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