Notas de campanha (1).

No programa eleitoral da direita as novidades acotovelam-se com a precisão e a urgência dos espíritos superiores.

Graças ao PSD/CDS a pátria ditosa devolverá os médicos de família às crianças e as pensões aos velhinhos que não tiverem morrido de inanição.

A economia, que agora está salva, apesar do desemprego camuflado, do défice comercial em crescimento, do PIB dos anos 90 e da dívida por reestruturar, será uma das dez mais competitivas do mundo em dois mil e não sei quê.

A desigualdade social será combatida com o mesmo entusiasmo com que tem sido acarinhada, e as políticas de natalidade encherão de meninos as creches que ainda falta privatizar.

Entre as piscadelas de olho ao indolente eleitorado socialista destaca-se a proposta meritória de rever com a Santa Sé uma concordata para restituir os feriados que entretanto foram extintos, sem que se saiba exactamente por quem.

Nas províncias do interior polularão centros de pesquisa repletos de cientistas e investigadores que iremos buscar aos locais para onde entretanto emigraram.

E cito apenas a versão pública do documento.

A parte secreta, que o Governo não divulga para evitar ceder ao eleitoralismo imoderado, diz-nos muito mais: que a Herdade da Comporta verá nascer um amplo bairro social para famílias numerosas; que o incentivo ao gozo de dias de férias vai incluir sorteios de viagens na nova TAP da Barraqueiro; que a nascente do Alviela fará jorrar branco e tinto nas torneiras jubilosas de Lisboa; que nas planícies do Alentejo vai surgir uma luz muito forte e uma voz tonitruante anunciará séculos de leite e de mel e abundância se todos votarmos no senhor Jeová.

Em breve o nosso Governo prometerá reforçar o rendimento social de inserção e o complemento solidário para idosos, de tão boa memória, e o insuspeito Marques Mendes dispensará com um gesto a mania mesquinha de fazer cálculos, contas, a exigência ridícula de dizer quanto custa, como se fosse possível dar um valor à felicidade.

10 pensamentos sobre “Notas de campanha (1).

  1. Bravo Luís, eu nunca o diria/escreveria tão bem.

    Uma pequena nota, se o PPC, esse estadista de nervos de aço que resistiu ao irrevogável, ganhar, Deus nos livre dessa desgraça, a CGD vai para o privée http://www.jornaldenegocios.pt/negocios_iniciativas/redaccao_aberta/detalhe/passos_coelho_preocupado_por_a_caixa_ainda_nao_ter_feito_reembolsos_da_ajuda_publica.html depois de magnificamente gerida pelos amigos do Gaspar http://economico.sapo.pt/noticias/directora-do-banco-de-portugal-passa-para-a-gestao-da-cgd_170310.html .

    Gostar

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