Diário íntegro e sentimental (2).

Arrependo-me de ler muitas coisas, mas é raro arrepender-me de ler clássicos. Não me acontece isto por ser conservador ou por julgar que a boa literatura acabou há cem anos — só aprendo mais com obras consagradas, uma e outra vez.

Por exemplo, Victor Hugo ocupa o Primeiro Livro da Primeira Parte de Les Misérables a descrever um prelado. Nos 14 capítulos que o compõem quase não existe acção, apenas um aglomerado de episódios que definem a personagem.

Subitamente a narrativa é trespassada pelo Segundo Livro.  Passaram-se cem páginas. Nada aconteceu. Agora, já outro homem chega à cidade em busca de um albergue. O corte feito na caracterização do Bispo aguça-nos a curiosidade: o que fez ele para merecer o princípio do romance? E se fez alguma coisa, porque não se insinua nada? É a ausência da acção que causa estranheza e nos faz querer continuar.

Por outro lado só a grande qualidade do esboço, o encanto da personagem, permite a Hugo desenrolar o seu estratagema. Se fosse uma virgem azeda com pés grandes  não suportaria tanta arquitectura: e nesse caso teria de se mexer.

10 pensamentos sobre “Diário íntegro e sentimental (2).

  1. Concordo. Qdo li os maias, aos 13 anos, lia, com fastio, as partes que não eram de acção. Agora ler a não acção que me deleita. Boa noite.

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  2. Tenho conjecturas que me parecem razoáveis sobre a maior probabilidade de um clássico ser bom do que um livro actual:
    – em primeiro lugar fazer um livro era mais caro antigamente do que agora, assim o que era editado era submetido a uma selecção mais rigorosa;
    – em segundo lugar o que afinal não valia a pena ter sido editado foi-se perdendo ao longo do tempo.
    Claro que na imensidade de livros actualmente editados existirão muitos excelentes, são apenas mais difíceis de descobrir.

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    1. Amarante, como diria um pipi literário do século do Vítor Hugo, permita-me discordar de Vossa Excelência. O lixo publicado “antigamente”, era proporcionalmente maior do que o publicado agora, sem comparação. O Vitor Hugo não era, nem pouco mais ou menos, representativo da literatura francesa do século XIX. A grande maioria era uma literatura “alimentar”, o feuilleton. Quer dizer, alimentava o autor e enchia também a barriguinha aos leitores, que não eram em geral muito exigentes. “Seleção rigorosa” era proporcionar batatinhas. A mesma coisa em todo o lado. Em Portugal, o glorioso Castilho dava uma abada ao Camilo e ao Eça, o qual, aliás, retratava bem o rigor e a exigência literárias dos editores e do respeitável público.

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      1. Não sei se era maior, caramelo. Pense nas maravilhas que enchem os escaparates da Bertrand. Tendo a considerar que a proporção de merda para as coisas boas se mantém ao longo dos séculos, e que respeita a algo de profundo na natureza humana.

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        1. Luís Jorge, a mim, que não sou o professor Marcelo, não me chegava a vida inteira para ler a boa literatura que se vende numa Bertrand média, mas não sei se poderia ter dito o mesmo na época em que foi fundada a livraria. E qualquer grande biblioteca que se preze, daquelas que têm o depósito legal, também têm pazadas de lixo, mais do que alguma vez tiveram, que pode ser ignorado sem grande prejuízo. Ainda sobre a proporção de merda para as coisas boas, repare que se fosse a um restaurante de Lisboa do século XIX tinha dois pratos: iscas com batatas, ou batatas com iscas, mais grelos, menos grelos. Por cá, o zénite da coisa era o arroz de favas, dizia o Jacinto. Claro que havia outros pratos mais resplandecentes e elaborados, mas que normalmente se iam comer a três locais seleccionados em Paris.

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            1. Alto lá! Entramos num domínio delicado. No departamento do confort food, o nosso, ao menos, tem molhinho que se pode lamber; os ingleses, se querem molhinho naquelas merdas de pudins que as mães lhes fazem e que comem nas tascas, têm que morder os dedos com força e chupar.

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