Contrastes.

O contraste entre as análises críticas do jornalismo europeu e o naperonismo das comentadeiras locais (com excepções honrosas, é certo) impressiona: há dois dias José Manuel Fernandes comparava Tsipras a Álvaro Cunhal. Não passa uma semana sem que Miguel Sousa Tavares nos bombardeie com uma asneira. A ala direita dos articulistas do Expresso é simplesmente inacreditável. Tenho hoje em dias poucas dúvidas ao afirmar que o problema português é o problema da sua opinião pública.

25 pensamentos sobre “Contrastes.

  1. Há muito tempo que não via uma manifestação de apoio a um governo em funções, como vi os gregos fazerem ao seu governo, com as sondagens também a disparar. É um hábito estranho, para quem se habitou à noção de que os governos servem para distribuir carolos aos governados, para crescerem com a moleirinha mais dura, ou para cortar os ramos mais secos e frágeis da sociedade, para o restante crescer mais forte, não para concursos espúrios de popularidade. Um partido que promete o alívio é como um pai que promete a um filho doces para o almoço. Até o Costa já aprendeu.

    Mas quem assimilou esta filosofia de vida, como quem manda diretamente para a veia, e por isso tem vindo a desejar o fracasso dos gregos, abertamente ou filosofando, coloca-se agora numa situação difícil perante um provável êxito do governo grego com as negociações para alivio da austeridade. É mais fácil para qualquer um, em circunstâncias normais, ficar satisfeito com a felicidade dos outros. Tivemos todos uma formação um pouco facilitista nos anos do PREC, que foram todos os últimos 40, descontando estes quatro da era do clister, e convenceram-nos que não é socialmente aceitável que alguém, perante outro em dificuldades, diga: tens o que mereces. Ser gentil, ainda que não sirva para mais nada, tem pelo menos a vantagem de facilitar a vida. É aqui neste particular que a direita foi pouco previdente, ainda que se louve a sua rijeza de espírito. Vai que o moribundo, contra todas as expectativas e não o merecendo, esperneia e ressuscita mesmo? É um mau exemplo. Se já lhe tinham despachado a alma para o inferno, perdem a face. É de provocar suores frios ao mais sereno e equilibrado Aron da Pampilhosa. Os tempos mais próximos vão ser interessantes. Resta sempre a estas almas pias acusar os credores de terem cedido às chantagens do moribundo e lhe terem ministrado um remédio não aprovado por regulamento comunitário.

    Gostar

    1. Não sou tão optimista como você, infelizmente, sobre a ressureição grega. Mesmo que haja acordo parece-me uma daquelas merdas que vem uns segundos à tona para meter ar e depois se afunda outra vez nos socalcos abissais.

      Gostar

      1. Pois claro que também há o risco do otimismo; pode-se passar por ingénuo. Mas esse é um risco que vale a pena correr, porque nos mantém de boa saúde física e mental, de acordo com os médicos. Evita-se aquela pele cor de limão, com que parecem andar sempre as nossas comentadeiras. Eu já parti de um plataforma muito baixa, sem grandes aventureirismos. Neste momento, qualquer desfecho que não seja a falência é já uma vitória contra aqueles que acham os gregos estruturalmente incapazes de se governarem. Passando ao piso seguinte, acredito ainda, mais do que isso, que os gregos vão obter mais do que aquilo que lhes propuseram inicialmente, embora menos do que aquilo que propuseram eles próprios. É isto a própria essência de uma boa negociação. Um bom exemplo é o rendimento disponível dos mais pobres (incluindo pensões, salários e o IVA na energia). Depois, qualquer reforma que façam, e é indispensável, pode levar mesmo a algum alívio na própria dívida. Se os economistas ainda não o entenderam, pelo menos os políticos já começam a achar conveniente tal coisa, por causa dessas coisas da coesão europeia, valores europeus, etc (leia-se: o medo dos russos e dos imigrantes que entram pelos balcãs), dai que os gregos tenham insistido que os politicos europeus entrassem no palco para participar ativamente no drama, não se limitando a receber de forma melancólica os técnicos da troika para lhes verem os livros de contabilidade e para conversas reservadas. Um passo de cada vez, vamos lá a ver.

        Gostar

          1. Pois, é capaz disso, e parece que o governo grego vai ter agora de engolir algumas red lines, o que me deixa triste. Mas a tristeza por alguém não ter conseguido uma coisa boa, pela qual lutou, é uma força motriz mais civilizada e que dá mais resultados do que a satisfação e o gozo com isso. A propósito, o humor com a desgraça dos outros é uma forma primitiva de divertimento, mas ainda muito utilizada aqui nesta finisterra pelos cultores do nosso folclore tradicional, o jcd e outros genios que, todos juntos, parecem as bruxas do Goya. Como as crianças que antigamente nas nossas aldeias riam ao ver um gato aos pulos com o rabo em fogo.

            Gostar

      2. Temo que o Luis tenha razão. Sim, há negociação e, por isso, há necessariamente o balanço do mais e do menos. Simplesmente, a população não participa na reunião, a não ser com as cruzinhas rituais nos boletins de voto, tendo-nos todos esquecido já que essas cruzinhas são condição necessária, mas não suficiente, para o bom funcionamento de uma sociedade democrática.

        E pergunto-me também quais serão, a médio prazo, as consequências desta política europeia nos espíritos. O empobrecimento progressivo e a sensação de impotência política debilitam a dignidade das pessoas. A dependência de poderes distantes, e cada vez mais incompreensíveis e incomensuráveis com a existência comum, esta desemancipação progressiva, vão levar as pessoas a deixar de tomar as atitudes da sua consciência, para passarem a ter apenas as atitudes do seu interesse, no sentido mais estrito e individualista do termo, como dizia o outro. É o culminar do processo de atomização e desegregação social, é uma espécie de blow-up em que uma curva vai para infinito em tempo finito segundo uma assíntota vertical, e do outro lado da assíntota está o abismo. BUM!

        Gostar

          1. Estou a treinar para profeta, que vai ser um negócio com muita saída. Mas olhe que você com aquela dos “socalcos abissais” também não está nada mal.

            Gostar

  2. O seu problema, caro Luis, (permita que o trate assim), é ler em Inglês o que decididamente lhe altera a tranquilidade de espirito. Hoje, por exemplo, no Expresso Diário um tal Martim, certamente um portento do jornalismo pátrio, escreve que a Grécia, humilde e cabisbaixa, aceitou fazer cortes no Orçamento da Defesa. Ora há já um bom par de dias que foi noticiado na imprensa internacional ter sido a própria Grécia a propor esses cortes, tendo a medida porém sido liminarmente recusada pelo FMI, defensor da alternativa mais profilática de matar à fome os reformados Gregos.
    Os Portugueses vivem muito mais felizes sem saberem o que lhes é servido diáriamente, já lhes basta ter de lidar o problema do Jorge Jesus. E, como vem nas Escrituras: Abençoados sejam os pobres de espirito porque deles será o Reino dos Céus. Amen.

    http://www.huffingtonpost.com/2015/06/16/greek-austerity-military-spending_n_7597896.html

    Gostar

  3. Esses articulistas/comentadores escrevem como um bando de malucos irresponsáveis. Para eles tudo é simples e não dedicam um átomo à consideração de consequências: ‘Grécia, a porta de saída é por ali’, ‘estou farto do choradinho grego’, ‘quem não tem dinheiro não tem vícios’, ‘não pode haver excepções’, ‘a paciência da Europa tem limites’, etc, etc. Até César das Neves, ontem na TSF, foi mais sensatamente cauteloso…

    Gostar

  4. E quando escrevi aquilo em cima do gato em chamas, estava muito longe de imaginar que pudesse ainda hoje haver noticias sobre tradições de “queima do gato”, lá para terras transmontanas. É ir ver. Fiquei completamente banzado.

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s