Entretanto, em Espanha.

A acreditar no El País, um de quatro partidos pode vencer as eleições. “Podemos” e “Ciudadanos” competem com PSOE e PP. Por muito que nos queixemos da anestesia local, por assim dizer, que conduz tantos dos nossos compatriotas às urnas para depositarem uma cruz no partido da rosa ou das setinhas, nem Portugal escapará eternamente às tendências de longo prazo observáveis na Europa. Um grande partido vai nascer do nada mais tarde ou mais cedo.

Sobra naturalmente a pergunta: porque é que ainda não existe? Tenho uma teoria muito diferente das que são avançadas pelos comentadores (conservadorismo do povo, institucionalismo do PC que seria uma válvula de escape respeitosa, dinâmica invulgar dos grandes partidos que criam as suas oposições internas, etc).

Julgo que a explicação é outra: puro tamanho.

Dos países em que houve grandes convulsões partidárias, só a Grécia — numa situação extrema  — se aproxima do nosso em número de eleitores. A França, Itália, Espanha e Grã-Bretanha são, retirando a Alemanha, as maiores nações europeias. Isto significa que uma pequena força encontrará à partida um batalhão de descontentes e uma massa crítica para ultrapassar as etapas iniciais da sua implantação.

No nosso caso estamos mais perto da aldeia que tem lugar para apenas dois cafés. Se um forasteiro chegar à terra e aí erguer o seu balcão de vitualhas talvez demore mais a implantar-se, porque terá de roubar clientela às duas casas existentes, em vez de apelar, por exemplo, a uma nova geração de consumidores.

Não quer isto dizer que a tendência não existe; apenas que demora mais a manifestar-se.

16 pensamentos sobre “Entretanto, em Espanha.

  1. Como explica então que o Ukip nas próximas eleições no RU, as primeiras em que se apresenta num numero razoavel de circunscrições eleitorais, obtenha consistentemente em todas as sondagens cerca de 16% dos votos ?

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      1. O que penso que é importante para um movimento radical vingar (radical no sentido de inovador, contra-corrente) não é tanto o tamanho da população, mas sim a existencia de um sentimento colectivo que uma ameaça deve ser enfrentada. No caso do Ukip foi a imigração,( 600.000 em 2014, com um saldo liquido superior a 300.000, valor constante nos ultimos anos), problema sentido transversalmente e que fez com que esse Partido tivesse um crescimento exponencial em pouco tempo.
        Sem sair do RU, veja-se o caso do SNP, Partido Nacionalista Escocês, que se prepara para eleger para o Parlamento Britânico 50 dos 54 deputados a que Escócia tem direito, isto num país com 5 milhões de habitants, arrasando completamente os partidos tradicionais e conseguindo uma votação que seria julgada impossivel apenas há uns meses atrás.
        A idiosincrasia do povo também não explica tudo : Não explica o aparecimento em força do Ukip e do Snp num povo tão conservador como o Britânico, como não explicará se em Portugal surgir algo do genero. As razões, essas, infelizmente são ainda um mistério e temos de continuar à procura.
        Saudações, manuel.m

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        1. No primeiro caso julgo que tem razão, quanto a esse sentimento colectivo etc.

          Quanto ao SNP parece mais um fenómeno identitário de âmbito territorial, não? Será que tem muitas consequências para aquela gente?

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        2. Talvez não haja grande mistério, Manuel. Sobre essa fórmula do “povo tão conservador como o britânico”, note que nas vésperas da guerra ainda o fascista Mosley arrastava multidões de camisas negras do povo e tinha a simpatia de muitos da alta sociedade (que se manteve, em muitos casos), guardiões dos valores conservadores. Com a onda de nacionalismo que atravessa agora a ilha, onde encontra cada vez menos quem se identifique como “britânico” e onde, pelo contrário, cada vez mais ingleses, propriamente ditos (segundo eles), preferem agitar a bandeira da cruz de São Jorge, em vez da do Reino Unido, está a formar-se um caldinho muito favorável à coisa.

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          1. A sua menção de Mosley é muito oportuna pois chama atenção para uma lacuna no meu comentário e que tem que ver com o problema das lideranças, ou se quisermos, da importancia dos chefes “providenciais.”
            Pablo Iglesias no Podemos e Alexis Tsiparas no Syriza são exemplos conhecidos e eloquentes em como a liderança é importante na genese e consolidação de movimentos populares.
            Para beneficio de quem não conhece bem a realidade do RU, o que não parece ser o seu caso, valerá a pena lembrar o caso do SNP, os Nacionalistas Escoceses, que nunca se teriam tornado no que são hoje se não fosse o seu líder Alex Salmond, talvez o mais brilhante e astuto politico da Grã-Bretanha, agora sucedido pela não menos brilhante Nicola Sturgeon, que está prestes a conseguir a façanha de ganhar nas próximas eleições 54 dos 57 lugares de Membros do Parlamento que cabem a Escócia.
            E não posso terminar sem falar em Nigel Farage, o “one man band politician” que criou sozinho o Ukip, de copo de cerveja na mão peregrinando por esses “pubs” do país.
            Estará Portugal maduro para ser salvo novamente ?

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            1. Manuel, ainda sobre a Inglaterra, RU, GB, whatever, e do Mosley, lembrei-me entretanto do Remains of The Day (que por cá passou em filme como “Os Despojos do Dia”) e do retrato que a obra faz desses tempos e da germanofilia de parte da aristocracia. O Downton Abbey aborda levemente a coisa numa versão diluida e adocicada.

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              1. E há um bom texto sobre a juventude do Hobsbawn em Berlim que aborda o tema da ligação entre os serviços secretos ingleses e as SS contra o comunismo, no período que antecede o corte de relações entre UK e Alemanha. Saiu no número mais recente da London Review of Books salvo erro.

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  2. Tradicionalmente, é o bolso e a segurança (interna e externa) que faz e desfaz partidos e governos. Foi assim que alternaram no reino unido os conservadores e trabalhistas. Se o dono do café, embora mantendo preço mais alto do que o concorrente, expulsar os rufias, a clientela vai ficando e, vice versa, pode também acontecer que, se deixar entrar os bebedos com mau vinho, mas oferecer rodadas, a clientela fique e até aumente. Outro fenómeno, talvez mais recente, é o dos nacionalismos. Se um dos tasqueiros colocar à porta a bandeira do clube da terra e se espalhar que o seu concorrente é do clube da terra ao lado, porque, afinal, até lá nasceu, pode ganhar clientela. A não ser que afinal sejam todos do benfica, como nesta terra de santa maria. Não é tanto um problema de tamanho da terra, como o de saber quem chegou primeiro. O meu exemplo tem apenas dois estabelecimentos: um que foi do anacleto, depois da viúva anacleto e agora dos herdeiros da viúva, e um outro que foi do arlindo, depois da viúva arlindo e agora dos herdeiros da viúva. Em qualquer terra, rulam as viúvas e os herdeiros e mesmo um outro filho da terra que queira abrir um estabelecimento tem que oferecer uns extras, nem que seja, se não tiver mais nada, aquele cocktail chamado carisma que embriaga e vicia. Grosso modo, é assim que eu explico o mundo e a vida ao balcão nas horas de folga do carro de praça, ao mesmo tempo que vou também aconselhando umas ladies nigth, enquanto o patrão não me chuta porta fora, por estar a maçar os clientes, sem despesa que se veja. Atenção que o Syriza, nisto, é tradicional: apelou ao bolso e não metais, plamordedeus, o syriza no mesmo saco dos rapazes do aurora dourada, outra qualidade de populismo, esse sim, perigoso, porque mistura à crisde aquele misticismo balcânico tão castiço. O Syriza ganhou aos tradicionais porque a situação lá é mais extrema, como mais extremos são os ânimos dos gregos. Contribuiu para a vitória do syriza outra coisa que por cá falta: o syriza, na verdade, é um conglomerado de grupúsculos de esquerda, como se por cá se unissem o BE, o Livre e… todos os outros de que não me lembro, a que chamaremos indignados I, indignados II, indignados III etc, todos também globalmente conhecidos por anonymous. Ora, assim seria também aqui mais fácil. Está aqui a dizer o cabrão do neto do anacleto que tanto bagaço só pode resultar mesmo num texto tão grande só com um parágrafo e para ir para casa curá-la.

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      1. Um partido, um programa, um líder sem medo que lhe chamem populista. É uma fórmula eficaz já testada. Mas não há cá material, não. Passada a fase lendária de os juntar todos, ficaria a liderá-los um rapaz com óculos a falar como quem escreve uma crónica na última página do Público. Lembro-me bem da fase punk da politica, lá pelos 70/80, dos comícios do PS aqui na minha cidade no pavilhão dos Olivais, com o Soares, e aquilo era um gigantesto alternador de corrente. Eram espectáculos para toda a família, ps e não ps, como quem não gosta de ouvir rock sinfónico, mas gosta de ver os espetáculos de som e luz e fogo de artifício. Vi no outro dia uma coisa qualquer semelhante com o Costa e militantes e aquilo parece que não anda, não anda… aquilo o homem fala só meio tom mais acima do que nas participações dele na mesa redonda com o Pacheco e o outro e eu desconfio que o público só agitava as bandeiras e cantava quando um gajo da produção dava instruções com uma tabuleta.

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        1. Havia uma retórica tradicional que se perdeu, desde que os palanques foram substituídos pela Fátima Campos Ferreira. Eles não têm culpa; repare que antigamente também se falava muito alto ao telefone.

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