O pretinho salazarista.

É uma personagem clássica do romance em tempos coloniais: o indígena que nasce no esgoto de qualquer província ultramarina e observa a fome, o racismo e o enxovalho que subjugam quem com ele cresceu. Mas esse sofrimento — e aqui reside o interesse literário — em vez de desembocar na solidariedade com as vítimas, é sublimado em reverência pelos algozes. A criatura, quando conheceu a fome, invectiva a mandriice dos esfomeados. Quando padeceu o escárnio do homem branco passa a vestir-se como ele, imitando os modos e os valores do colonizador. As esmolas que recebe em troca são consideradas provas de grande mérito com apelo universal: se trabalhassem como ele, pensa, todos os vagabundos que remexem nas palhotas poderiam ser também feitores e capatazes. A metrópole precisa de quadros médios, de burocratas, de pregos e rebites para erguer o império. De pretinhos espertos que desprezem a política, apertem o nó da gravata e respeitem Salazar. Com muita humildade e gratidão, há um ou dois que até escrevem nos jornais.

 

Adenda: leia, que é importante.

20 pensamentos sobre “O pretinho salazarista.

  1. O colonialismo utilizava muitos ardis,para disfarcar as sua prepotencias,lembro-me do famoso selo de povoamento.o homem e o mamifero com maio capacidade de adaptacao ao ambiente,morfologico e social,por isso e um ser inteligente,o mais avancado que existe a superficie da terra,so e perigoso,quando utiliza essa faculdade para praticar o mal,infelismente,utiliza essa enorme vantagem sobre os outros seres vivos,para praticar o mal contra a sua propria especie

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          1. Mas, pode ser ingenuidade minha, a maioria dos portugueses não são assim, pelo que a última coisa que devemos fazer é deixar estes profetas do Apocalipse do Estado Social, será que ele existiu na sua plena acepção cá no burgo?, pregar sozinhos sem contraditório.

            Tem se dar troco, sob pena de gerar discursos únicos perigosos, de cujo o resultado final muitos desses pregadores fugiriam a sete pés…

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  2. Também é um clássico do romance vitoriano. Isto é aquela história do Dickens que ele nunca escreveu em que o menino pobre se torna pregador furioso, tipo martelo de deus. Mas estou preocupado. Eu nasci um maisómenos, um medio burguês, nem rico nem pobre, já com brinquedos a pilhas mas que não chegavam a levantar voo, e a minha freguesia, sabendo isto, não me passa atestado nem para falar de pobres, nem de ricos, nem de coisa quase nenhuma, para ser sincero. Eu de arábia só sei até mértola, não me meto a falar do iraque, por exemplo. Os pobres, os verdadeiros, também não falam, que isso seria pecado de soberba. Têm o Mithá para falar sobre eles. Eu acho que os pobres, os verdadeiros, devem ter medo do Mithá, o super-pobre.

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  3. E eu, durante o texto todo, a pensar metaforicamente no Cavaco, no Passos, e na Maria Luís a admirarem o Schauble e a Merkel …

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  4. Dá-me um certo gozo ver a raiva que vos dá alguém que saiu da pobreza e não diz amén à nossa esquerda que através das suas políticas tirou milhões da pobreza (ou não).

    Mas olhe, vou-lhe contar uma história. O meu pai nasceu no início dos anos 50 e viria a ser o mais velho de 9 filhos. No final dos anos 60 acaba a escola industrial e começa a trabalhar. nos primeiros anos de trabalho o ordenado dele seria para sustentar os pais e os irmãos, já que o meu avô era pescador da ria e tudo o que ganhava gastava em vinho. A única coisa que recebeu do sacrossanto estado social pós 25/IV foi a reforma que agora usufrui, porque teve um AVC e ficou paralisado de um dos lados do corpo.

    Já os irmãos mais novos dele, quando os meus avós morreram nos anos 80, ainda eram menores e receberam pensões de orfandade para acabar os estudos. Deixaram de se relacionar com a família. Um deles sei que por causa da bebida acabou na miséria e quase a viver na rua. Isto do estado social é muito bonito mas se formos a olhar à estatística, foi antes de 74 que a maior parte das pessoas saiu da pobreza. e não foi por subsídios, mas sim pelo trabalho. Era-lhes permitido trabalhar a partir dos 12 anos e quando chegavam aos 18 anos já dominavam um ofício. Hoje me dia um jovem com 18 anos sai da escola e não sabe fazer nada. Como será capaz de ingressar no mundo de trabalho e abandonar a pobreza? acaba por fazer filhos porque é a maneira mais fácil de ter subsídios.

    Não falem da pobreza sem saberem do que falam.

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    1. Já agora e para completar o seu raciocínio (cof .. cof) acrescento que em Inglaterra no sec XIX a malta podia e era obrigada a trabalhar antes dos 12 anos (e não eram apenas as 40 horas semanais destes mandriões). Não era a bandalheira que é agora com o Estado Social e isso. Aqui fica o registo.

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