Grau zero (2).

O Morgado Fernandes sabe da poda e diz o que é preciso:

Media portugueses [modo de usar]

1. O Prof. Marcelo lê uma carta idiota e demagógica de uma alegada criança de VF Xira que terá ido ao Parlamento e viu os deputados fixados em “mulheres avantajadas”.

2. A coisa é notícia porque foi o Prof. Marcelo a ler a carta – todos os dias há palermices destas nas redes sociais e, obviamente, não são notícia – e porque em Portugal se criou a ideia espantosa e perversa de que os comentadores são (e dão) notícia.
Nota 1: qualquer jornalista que tenha trabalhado no Parlamento sabe que a situação descrita na carta não é verosímil;
Nota 2: a primeira notícia (DN) utiliza como muleta uma reacção de um deputado (José Magalhães), que tem exposto nas redes sociais a sua actividade parlamentar, de uma forma, no mínimo, discutível;
Nota 3: utilizar afirmações de uma criança como fonte (como fez Marcelo e depois os media) é deontologicamente muitíssimo discutível (as crianças são fonte de notícia, e mesmo assim com mil cuidados, apenas para temas do seu interesse directo).
3. Entretanto, um estudante de economia publica nas redes sociais uma espécie de desmentido – naquele dia e àquela hora, não houve qualquer visita de uma escola de VF Xira à AR, ao contrário do que dizia a carta lida por Marcelo. A informação baseava-se na agenda do Parlamento, que, aliás, está disponível no respectivo site.

4. A generalidade dos media reproduz a informação do estudante de economia. Nenhum dos media cumpre os serviços mínimos do jornalismo: confirmar a informação (ligar para a escola, tentar falar com profs., alunos, etc). Alguns dos media, mais espantosamente, incorporam toda a informação do estudante (que, não sendo jornalista, não tem deveres de confirmação), sem sequer citar a fonte.

5. Entretanto, alguns jornalistas ligam para a escola de VF Xira e recebem a informação do Conselho Executivo de que houve, de facto, uma visita ao Parlamento naquele dia e àquela hora. Não estava era agendada.

6. A esta hora [quinta-feira de manhã], esta informação apenas circula ainda nas redes sociais, mas é expectável que, nas próximas horas, salte para os media tradicionais.
Conclusão: há aqui muita matéria de reflexão sobre o relacionamento dos media com as redes sociais, mas esse não é o ponto fundamental. O ponto fundamental é que, em todos os momentos deste caso, foram os media, sempre os media e apenas os media, que falharam na sua missão. Isto, sim, é espantoso, significativo e muito preocupante.

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