O problema é o seguinte.

Podemos avaliar uma pessoa pelo seu comportamento: a Robespierre chamavam “o incorruptível”. Queremos um Robespierre? Ou preferimos o “corruptível”, e moderado, Danton?

Ou então podemos avaliar alguém pelo seu percurso político: imaginem um homem que alargou o ensino do inglês nas escolas, combateu a iliteracia tecnológica, diminuiu as desigualdades através das transferencias sociais, conseguiu reduzir a nossa dependência de combustíveis fósseis, garantiu o acesso de minorias a direitos civis. Se ele for corrupto, entregamos o poder a um Robespierre? E se Robespierre, afinal, não for “incorruptível” como parecia?

Dizemos que são os dois “iguais”, apenas porque o seu comportamento privado é indistinguivel?

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21 pensamentos sobre “O problema é o seguinte.

  1. “imaginem um homem que alargou o ensino do inglês nas escolas, combateu a iliteracia tecnológica, diminuiu as desigualdades através das transferencias sociais, conseguiu reduzir a nossa dependência de combustíveis fósseis, garantiu o acesso de minorias a direitos civis”

    O “inglês nas escolas” e o “combate à iliteracia tecnológica” foram puríssimas burlas. Nenhum puto (proveniente das escolas onde esse teatrinho foi montado – não foram todas) chegou ao 5º ano a saber sequer umas raspas de inglês e, sobre a “iliteracia tecnológica” (o “Magalhães”), é melhor nem falar… mas podia falar-se muito http://lishbuna.blogspot.pt/search/label/%22Magalh%C3%A3es%22 .

    Quanto ao “acesso de minorias a direitos civis”, de acordo, Embora tenha sido um astuto processo de esvaziamento do BE (plenamente conseguido), também não me importa que se chegue aos resultados certos pelos motivos errados. Sobre a diminuição das desigualdades precisava de dados mais concretos assim como no caso da dependência de combustíveis.

    De qualquer modo, só dois detalhes:

    – tudo isso foi realizado no admirável mundo pré-troika; nada me garante que um Sócrates-pós-2011 fosse substancialmente diferente ge PPC;

    – a questão de fundo: pensar desse modo acaba por ser uma variação sobre o modelo brasileiro “rouba mas faz”. Ou, em versão lusa, o abraço de Soares a Isaltino.

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    1. João,

      quanto ao Inglês nas escolas e à cena tecnológica não tenho dados excepto a ocasional satisfação de amigos com filhos.

      Quanto aos direitos civis concordo consigo.

      Quanto à questão energética e à diminuição das desigualdades, aí sim, vi estatísticas, e houve uma evolução real. Não me ponha à procura de links que vocÊ próprio poderá encontrar com dois minutos de boa vontade.

      De resto, vontade é mesmo o que lhe falta aqui:

      “nada me garante que um Sócrates-pós-2011 fosse substancialmente diferente ge PPC”

      Também nada lhe garante que não lhe nascessem cornos e não começasse a vomitar fogo, mas o que interessa para critério é o que ele fez, não o que vocÊ não sabe se ele teria feito.

      Quanto a isto:

      “a questão de fundo: pensar desse modo acaba por ser uma variação sobre o modelo brasileiro “rouba mas faz”.”

      Não é bem a minha linha de raciocínio. A minha linha de raciocínio é antes: os dois roubaram, e os dois fizeram, mas isso não os torna iguais. Porque as políticas foram substancialmente diferentes.

      Repare, e isto é importante, que a minha intenção não é fazer uma apologia de Sócrates (hihihihhi) mas uma invectiva a quem, partindo dos comportamentos privados, julga que é a mesma coisa ter um primeiro-ministro de centro-esquerda ou de direita liberal radical.

      Isto é: para o efeito deste post o meu problema é consigo, se me permite, não é com Pedro Passos Coelho nem com Sócrates.

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      1. “um primeiro-ministro de centro-esquerda ou de direita liberal radical”

        Convém não engolir demasiado facilmente as imagens que nos tentam vender (e sabe isso bem melhor do que eu). No centro, na esquerda, na direita ou nos liberais radicais, a distância que os separa – repito, no pós-troika, com cornos ou sem cornos – não deve ser mais do que poucos centímetros políticos. E onde é que já se viu um direitolas liberal radical a aumentar desvairadamente impostos e a engordar as despesas do Estado?

        “o meu problema é consigo”

        Não fosse eu um terreno tão estéril para complexos de culpa, esta noite já não dormia bem… 🙂

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          1. É o spleen.
            Quand le ciel bas et lourd pèse comme un couvercle
            Sur l’esprit gémissant en proie aux longs ennuis,
            Et que de l’horizon embrassant tout le cercle
            II nous verse un jour noir plus triste que les nuits;

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              1. Zut alors!… C’est en novembre, como diz o yves montand. É um bom mês para lá visitar os cemitérios e no próximo dia 6 de novembro faz lua cheia em paris. Favor colocar capa preta nessa noite, saltar o muro do cimetiére de montparnasse e deixar um lírio branco no túmulo do baudelaire.

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                  1. Sim, eu já tinha ouvido falar de pessoas que foram fumar à praça Pigalle à noitinha e que voltaram a ser não fumadoras de repente
                    e que depois entraram no cemitério sem a maçada de ter de saltar o muro. Cumprimentos ao baudelaire e essa malta toda.

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                    1. Eu deixei de fumar na praça Pigalle no dia um deste ano. É uma longa história. Prometi a mim próprio que só fumaria outro cigarro enquanto lá estivesse.

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  2. João Lisboa, se rouba, deve ser preso, naturalmente, e se o gajo vai dentro, já não posso votar nele. É o melhor sistema. Eu pensava que isto era self-explanatory, mas vamos lá: a natureza humana é permeável à aldrabice e fraquezas da carne em geral, daí que até agora apenas se tenha conseguido inventar dois sistemas politicos, muito grosso modo assim: um que nos faz mal e outro que nos faz bem. Enquanto não se conseguir isolar o virus da desonestidade, e de caminho o sintoma da suspeita, claro, não há outras opções. Se não for alguém de quem se possa suspeitar, como o Sócrates, virá um ditador, que normalmente tem uma fórmula eficaz para acabar com as suspeitas por decreto. Sendo assim, é melhor mesmo esperar que a vida melhore e se torne mais civilizada com a gente que temos. Mas o João Lisboa descobriu uma forma de acabar com estas duas opções, que já são poucas. Se me diz que ninguém nos garante que o Sócrates faria diferente, e sendo isso, obviamente, aplicável a qualquer outro, de que nos serve andar nisto? Há mesmo quem diga que, mais do que isso, o Sócrates seria obrigado a fazer exatamente o mesmo. Como nascemos todos com uma certa e determinada conjugação astral, com ascendente num animal qualquer com cornos, a coisa seria forçosamente assim como é agora. Há quem encontre um estranho consolo nisto. Eu chamo um pintor e o cabrão pinta-me a casa de cor de rosa choque. Ora, outro que eu chamasse teria feito o mesmo. Eu sei que o fado agora é património da humanidade e que há cada vez mais fadistas, mas há quem exagere na promoção da coisa.

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    1. “Mas o João Lisboa descobriu uma forma de acabar com estas duas opções, que já são poucas”

      Não descobri fórmula nenhuma. Zero. Nicles. A tragédia é, justamente, essa.

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      1. Vai alta a lua! na mansão da morte
        Já meia-noite com vagar soou;
        Que paz tranquila; dos vaivéns da sorte
        Só tem descanso quem ali baixou.
        Mermão, siguinte: tragédia é essi governo do capeta. Ó, sifoda essa merda, relaxa:

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