Rentrée.

(1) Tempos da economia e da política. 

Seria de esperar que algumas coisas mudassem nos comportamentos políticos após a crise iniciada em 2008. E é verdade que mudarão, ainda não sabemos em que sentido. Para já observamos que a retórica liberal, dominante desde os anos oitenta, apresenta as primeiras infiltrações digna de nota. À observação de outro desastre (não foi a primeira crise financeira, mas foi a mais grave da nossa idade adulta) seguiu-se: 1. a eleição de Obama. 2. o movimento dos 99%. 3. um distanciamento geracional de que falaremos em seguida. 4. a desmontagem crítica do sistema, efectuada por Piketty (com a ambição e o alcance polémico de uma grande homenagem a Marx) 5. O regresso do populismo à Europa. 6. Apelos cautelosos à reforma por alguns actores e observadores atentos da História, no Financial Times, no The Economist, nas Conferências de Davos e nos estados-maiores de algumas fortunas com escala mundial. Enfim, a procissão vai no adro. 

(2) A resistência aos factos.

Em Portugal estes fenómenos farão o seu percurso com o atraso que imaginam. Por enquanto há dois ou três nichos de esquerda a criar novos partidos (formados, como sempre, por estrangeirados) enquanto a direita alarve arreganha a taxa e se agarra às boçalidades do costume como um verme sacudido pelo vento. Ainda por aí vagueiam neorepublicanos a defender a posteriori a invasão do Iraque ou gente que se imagina saída do “Reform Club” (extensão Amadora)  a escrever caricaturas involuntárias no Expresso, lamentando a má educação da criadagem ou o abandono comovedor de Ricardo Salgado. Precisávamos de um Campo Pequeno para esta cáfila. 

(3) A esperança, e os limites vocabulares, das gerações. 

A esperança que nos resta passará sempre, mais tarde ou mais cedo, para as novas gerações. Esta, que agora está nos vintes, é magnífica: vota com os pés, faz amigos lá fora, e é capaz de apreciar perfeitamente as amenidades do país enquanto despreza as inexistências que o dirigem. Gostaria muito que regressassem ricos, com uma autoridade natural, dos locais em que serão obrigados a trabalhar. Só que todas as gerações precisam de um vocabulário, e o desta ainda não está formado. Os apelos enjorcados à “revolução” representam os limites da linguagem e do pensamento crítico que terá de ultrapassar. Vai ultrapassá-los, para raiva e desconsolo dos nossos bonzos. 

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4 pensamentos sobre “Rentrée.

  1. A falta de estratégia da oposição, da direita à esquerda sem excepção, de ideias válidas que nos façam dizer inequivocamente que sim, que é esse o caminho, é uma das nossas maiores fraquezas. O atraso com que em Portugal se avança para as mudanças que a realidade nos impõe, temo que esse seja um problema congénito ligado ao excesso de sol que nos banha a nação e nos estimula a preguiça…

    Abraço,
    António

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