Israel, por Francisco Seixas da Costa.

Reproduzido na íntegra:

Na vida diplomática dei-me conta que criticar a acção internacional de Israel obrigava sempre a um ‘disclaimer’, implícito ou explícito, sem o que se erguia o risco de cair, de imediato, na jurisdição dos atentos polícias do espírito: cuidar em não poder ser acusado de anti-semitismo e nunca deixar de referir que o povo judeu foi vítima da violência nazi.

A ajudar a este temor reverencial soma-se, desde o primeiro momento, um racismo anti-árabe, que condicionou o discurso popular. Tutelados por regimes retrógrados, embrulhados em panejamentos que os indiciavam noutro patamar da civilização, os árabes são-nos mostrados como uma espécie de bárbaros, apenas desejosos de “deitar os judeus ao mar”. Por isso, e porque não eram aceitáveis os métodos extremistas da Fatah ou o não são os das várias seitas em que a revolta palestiniana se balcaniza, aos olhos de muito mundo passou a “valer tudo” da parte de Israel, desde os assassinatos da Mossad ( ‘extra-judicial killings’, na linguagem eufemista das Nações Unidas) às incursões sem limite pelas terras vizinhas. Ninguém ousa lembrar que Israel se recusa a cumprir as resoluções que a ONU (sem oposição dos EUA) aprovou, muito embora se levante um escarcéu se outros países procederem de forma similar (desde logo, o Iraque).

Durante a “guerra fria”, Israel estava do lado “de cá” e os árabes do “outro lado”, embora se soubesse que as coisas não eram bem assim. Os judeus eram o povo perseguido, rodeado de “facínoras” que aproveitariam o seu menor descuido para o esmagar. Por isso, para o Ocidente, era de regra apoiar, sem limites, tudo o que pudesse ser apresentado em favor desse “enclave” não árabe, que “dava jeito” quando era necessário (sem que ninguém tivesse de “sujar as mãos”), por exemplo, para dar uma lição às ambições nucleares iranianas ou ver-se livre de alguns terroristas, esquecendo as leis. É que, neste “racismo nuclear” que por aí anda, o Irão não pode ter a arma atómica, mas Israel está aparentemente “isento” da observância do Tratado de não-proliferação.

Os EUA, mobilizados pelo lóbi judaico, neutralizam toda a atitude que possa limitar a liberdade do Estado israelita. A Europa, com o ferrete da guerra a marcar-lhe a memória, vive entre piedosos protestos perante os “exageros” de Telavive e os negócios com a constelação dos governos árabes. Estes, com os conflitos entre si a prevalecerem hoje sobre a sua acrimónia face a Israel, vivem mais preocupados em fazer sobreviver os seus heteróclitos regimes do que mobilizados para a causa palestiniana.

O absurdo de tudo isto é que, se alguém se atrever a afirmar que Israel tem o indeclinável direito de ver respeitadas as fronteiras que lhe foram consagradas pelas resoluções da ONU, é imediatamente acusado de ser inimigo jurado do Estado judaico. E se ousar dizer que, em troca da segurança desse território, garantida, por exemplo, pela colocação de forças internacionais de paz, protetoras dessas mesmas fronteiras, Israel deve prescindir de quaisquer ambições territoriais e recuar na construção de colonatos em territórios que ninguém reconhece como seus, de imediato fica crismado de anti-israelita, provavelmente de anti-semita e, com ainda com alguma probabilidade, sei lá!, de simpatizante nazi. Dei-me conta que não falei de Gaza. Para quê?

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4 pensamentos sobre “Israel, por Francisco Seixas da Costa.

  1. Alguma direita usa nos blogues e jornais o método israelita de bombardeamento em massa sobre Gaza, como forma eficaz de acabar com o anti-semitismo. Como? Muita gente condena a acção e obviamente existem anti-semitas pelo meio. Pelo sim, pelo não, acusa-se de anti-semitismo todos os que condenam a acção do governo israelita. Se não és anti-semita, devias ter ouvido o aviso prévio para te calares. Com um pouco de sorte, alguns acabam somente atingidos por estilhaços, que são as acusações de idiota útil; aqui talvez os próprios israelitas e judeus pelo mundo que condenam a acção e, já com alguma reserva, freiras, padres e a Amnistia Internacional, aqueles que estarão, se não física, pelo menos mentalmente sequestrados pelo Hamas. Mas nem sequer esta destrinça faz grande sentido. A dificuldade em distinguir uns e outros é que não há listas com nomes. Atira-se simplesmente a bomba para o território dos que condenam. A prazo, este ataque em massa acaba com qualquer tipo de protesto contra qualquer coisa feita pelo governo israelita. É para evitar isto que se aconselha o abrigo do prévio disclaimer, um atestado. Mas seguro mesmo é ficar calado e comentar antes as contratações para a nova época da liga sagres.

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