Seres racionais, afinal.

Agora que a guerra civil do PS atravessa dias menos vociferantes talvez venha a propósito formular uma hipótese: a de que o comportamento dos dois protagonistas tem sido mais racional do que se diz por aí.

Tomemos António Costa, em primeiro lugar. Está a ser racional, porque se tivesse avançado mais cedo seria cedo demais e, se avançasse mais tarde, seria tarde demais. Depois, está a ser racional ao não enjeitar qualquer apoio (precisa de todos) apesar dos riscos de contaminação das socranetes. Mais do que racionalidade, tem revelado verdadeiro talento no modo como gere as intervenções públicas: ao exibir indiferença aos insultos, em registo didáctico, aparece com uma imperturbabilidade que combina  com o espectro emocional típico de uma liderança.

Mais interessante é o caso de Seguro, que reagiu bem ao repto do adversário: em primeiro lugar procurando ganhar tempo para formular uma resposta, o que conseguiu; em segundo lugar evitando epidemias a partir de rupturas como a de Jorge Lacão; em terceiro lugar através do uso de mecanismos processuais com apelo popular, como o voto dos simpatizantes, etc. Finalmente, conseguiu radicalizar o discurso e ficar zangado perto das câmaras, o que de algum modo contribui para que deixe de parecer um peixe morto e seja considerado humano pelos eleitores. Certo é que Seguro tem revelado uma criatividade surpreendente para quem vicejou três anos entre um tédio absoluto.

Quem não ganha com esta racionalidade toda é o próprio PS.

Costa e Seguro encontram-se em posições semelhantes ao do “dilema do prisioneiro”, um caso muito nomeado na literatura sobre teoria dos jogos. Dois prisioneiros em salas separadas são interrogados sobre um crime que ambos cometeram: se um deles confessar terá uma pena leve, mas o cúmplice não. Por outro lado, se nenhum confessar será impossível demonstrar a autoria do crime. O diabo é que nenhum dos dois sabe se o cúmplice, na sala ao lado, resiste à tentação de o trair. Ou seja, a hipótese mais racional (não falar) é substituída por uma segunda forma de racionalidade mais adequada à situação particular (falar primeiro).

O dilema do prisioneiro ilustra bem situações em que todos os protagonistas podem ter comportamentos adequados aos seus interesses, mas o sistema sofre com a combinação dos egoísmos. O conflito no PS poder correr bem a Costa ou a Seguro, mas não aos socialistas.

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7 pensamentos sobre “Seres racionais, afinal.

  1. O conflito não vai correr mal aos socialistas. Depois de elegerem um líder (ou candidato a PM, ou seja lá o que for) o interesse de cada um dos que agora estão atrás de uma das barricadas vai fazer com que se unam atrás desse líder. Já se passou demasiado tempo para tanta gente que depende do partido para ganhar a vida se poder dar ao luxo de fazer guerrilha interna durante no mínimo mais um ano.
    Quanto aos eleitores – e caso ele seja escolhido – vão esquecer-se que o Tó-Zé animal feroz é um fenómeno muito recente e até nisso o partido é beneficiado. Se AC ganhar mantendo a pose actual poupa meses de esforço para parecer ainda mais um potencial óptimo PM e o objectivo será a maioria absoluta. Se não ganhar, olhe, já valeu a pena ter feito com que o Luis tivesse voltado! 🙂

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  2. Enquanto prossegue a briga dos Tós, Fernando Medina responde às dúvidas http://www.ionline.pt/artigos/dinheiro/revisor-oficial-contas-lisboa-tem-duvidas-sobre-mil-milhoes-nas-contas-2013/pag/-1 .

    Aguiar Branco nomeia o colega de escritório para um grupo de trabalho http://dre.pt/pdf2sdip/2014/07/129000000/1755317553.pdf e http://pt.linkedin.com/pub/paulo-cutileiro-correia/15/5a3/270 .

    Maria Luís Albuquerque, a ortodoxa, defende rigidez que nos prejudica http://expresso.sapo.pt/portugal-contra-a-flexibilizacao-das-regras-do-euro=f879976

    A CRESAP, do excelentíssimo Prof. Doutor Bilhim, faz avaliações à medida e tem alergias à transparência http://observador.pt/reportagem/avaliacoes-escondidas-e-criterios-medida-em-concursos-publicos/ o Henrique Pereira dos Santos foi uma das “vítimas”…

    O PS vai a banhos e estes, bem como outros assuntos relevantes, ficam sem oposição de serviço…

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