vida breve

“Pensemos filosoficamente”.

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O repto vem no “Retrato de Ricardina”, de Camilo Castelo Branco. Os irmãos Pimentel, na ruína, são abordados por um abade que pecara na juventude e queria casar duas filhas a troco de um dote de trinta mil cruzados por cabeça. Os irmãos recebem agastados a proposta, depois acalmam-se, depois pedem tempo para reflectir.

Finalmente, escreve Camilo, “os noivos acederam, tirando a partido que a mãe das nubentes se recolheria em mosteiro, antes das núpcias das filhas”. Nada feito. “Voltaram os Pimentéis a reflectir. Acharam-se subitamente filósofos”.

Pensemos filosoficamente – dizia o irmão de Clementina. – As raparigas que venham com a condição de cá não pôr o pé a mãe.
Comunicaram ao abade a modificação.
– Não, senhor – retorquiu o padre. – Onde as filhas estiverem há-de ir a mãe.
– Pensemos filosoficamente – disseram entre si os Pimentéis. – A mãe poderá vir alguma vez; mas o abade nunca..
– Não, senhor – insistiu o abade. – Eu hei-de ir ver minhas filhas, porque lhes quero muito, e decerto não dava sessenta mil cruzados com a obrigação de as não ver mais. (…)
– Pois deixemos vir o abade. Pensemos filosoficamente. A desonra (…) é coisa em que ninguém já fala. Tudo esquece. Foi uma desgraça; todas as famílias têm destas nódoas. Já agora, sejamos filósofos como toda a gente.

Desde que eclodiu o “caso Relvas” vejo uma parte da nossa direita a meditar com angústia na imperscrutabilidade do mundo, na inacessibilidade do real, nos mistérios da “coisa em si”. É bom sinal. Tal como os irmãos Pimentel, estão a “pensar filosoficamente”.

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