“Pensemos filosoficamente”.

O repto vem no “Retrato de Ricardina”, de Camilo Castelo Branco. Os irmãos Pimentel, na ruína, são abordados por um abade que pecara na juventude e queria casar duas filhas a troco de um dote de trinta mil cruzados por cabeça. Os irmãos recebem agastados a proposta, depois acalmam-se, depois pedem tempo para reflectir.

Finalmente, escreve Camilo, “os noivos acederam, tirando a partido que a mãe das nubentes se recolheria em mosteiro, antes das núpcias das filhas”. Nada feito. “Voltaram os Pimentéis a reflectir. Acharam-se subitamente filósofos”.

Pensemos filosoficamente – dizia o irmão de Clementina. – As raparigas que venham com a condição de cá não pôr o pé a mãe.
Comunicaram ao abade a modificação.
– Não, senhor – retorquiu o padre. – Onde as filhas estiverem há-de ir a mãe.
– Pensemos filosoficamente – disseram entre si os Pimentéis. – A mãe poderá vir alguma vez; mas o abade nunca..
– Não, senhor – insistiu o abade. – Eu hei-de ir ver minhas filhas, porque lhes quero muito, e decerto não dava sessenta mil cruzados com a obrigação de as não ver mais. (…)
– Pois deixemos vir o abade. Pensemos filosoficamente. A desonra (…) é coisa em que ninguém já fala. Tudo esquece. Foi uma desgraça; todas as famílias têm destas nódoas. Já agora, sejamos filósofos como toda a gente.

Desde que eclodiu o “caso Relvas” vejo uma parte da nossa direita a meditar com angústia na imperscrutabilidade do mundo, na inacessibilidade do real, nos mistérios da “coisa em si”. É bom sinal. Tal como os irmãos Pimentel, estão a “pensar filosoficamente”.

25 pensamentos sobre ““Pensemos filosoficamente”.

  1. O primeiro livro «a sério» que li, com 8 anos. Bons tempos.

    Na minha opinião, este ‘post’ é uma das melhores coisas que já li escritas por ti.

    (e poupa-me à treta da lisonja)

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      1. O Camilo ajudou, é verdade, mas, bem vistas as coisas, neste mundo haverá muito pouco que ainda não tenha sido dito. É uma arte saber escolher, na altura certa, o que já foi dito e adaptá-lo às circunstâncias concretas .

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    1. Papou o Retrato de Ricardina aos oito anos, Carlos? Fónix!… Em circunstâncias normais, isso é tão duro que devia ser considerado trabalho infantil e proibido 😉

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      1. É verdade, Caramelo. O livro fazia parte de uma colecção de clássicos portugueses do século XIX que estava (e ainda está) na estante lá de casa, colecção essa constituída por livros com capas lindíssimas e um desenho numa das primeiras páginas. Peguei no «Retrato de Ricardina» por curiosidade, comecei a lê-lo e não consegui parar. Claro que muita da «filosofia» me passou completamente ao lado! 😉

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        1. Notável, Carlos. Eu passei a minha infância a dar voltas ao mundo com o Júlio Verne e as edições Romano Torres de capa e espada (O Feval, o Dumas, etc), e só quando a adolescência já ia alta poisei aqui na provincia e comecei a ler o Camilo e, mais dificil, o Aquilino, cujas obras estão em lingua morta. O Eça sempre foi mais prazeiroso, de uma forma mais imediata.

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          1. Nada de notável, Caramelo. O «Retrato de Ricardina» e alguns outros do Camilo foram uma antecipação, pois só na adolescência regressei à literatura «a sério». O grosso da minha infância foi passado com muitos livros do Astérix, do Lucky Lucke (mais rápido do que a própria sombra) e do Tintin, bem como com quase tudo da Disney (Mickey, Pateta, Tio Patinhas, etc.).
            Gosto muito do Eça, mas o Camilo tem, para mim, algo de especial — talvez pela ‘antecipação’ que referi. Quanto ao Aquilino Ribeiro, li muito pouco, algo que, bem sei, tenho de remediar.

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            1. Carlos, A Casa Grande de Romarigães e o Zé Carioca (quando ainda não tratava por tu o Nestor), são as duas grandes obras de referência da minha adolescência.

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              1. Ah, sim, claro, o Zé Carioca! Deixei de fora logo um dos meus preferidos. Adorava um livro em que ele aparecia a tomar um duche no barraco no morro: o chuveiro era um regador puxado por um fio, e eu queria ter um assim — coisas de puto. 🙂

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                1. Esse é um monumento. Mas gostei também muito do Terras do Demo, Andam Faunos Pelos Bosques e Quando os Loibos Uivam. Ah, aproveito a deixa e recomendo muito o Carlos de Oliveira, outro (muito mais) esquecido. Sou suspeito, porque conheço bem aquelas gentes e aquela paisagem.

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                  1. Caramelo, obrigado. Do Carlos de Oliveira li uns quantos: uma maravilha. Gostei particularmente de «Uma abelha na chuva» — e também gostei muito da adaptação cinematográfica de Fernando Lopes.

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  2. Faço minhas todas as palavras do Carlos Azevedo (se não for abuso), excepto a primeira frase [não me lembro com que idade li o livro : )))].

    : )))

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  3. Li muito Camilo (um dos meus preferidos), mas nunca li o retrato de Ricardina. Falha grave. Estou a ver que tenho de ser mais filósofo, como toda a gente.

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