No fundo é isto.

O endividamento das famílias, das empresas e dos Estados tem servido para discursos simplistas (…). Hoje, toda a economia e toda a sociedade vive para financiar a banca e os mercados financeiros em vez de acontecer o oposto. O que tem de acontecer para voltar a pôr as instituições financeiras no lugar que lhes tem de caber é global e exige uma extraordinária coragem política – aquela que nem aos islandeses está a chegar.

A dividocracia (…) é, depois das ideologias totalitárias dos anos 30, o mais poderoso instrumento de subjugação dos cidadãos e dos Estados a poderes não eleitos. Vencer a chantagem do poder financeiro – que alimenta a dívida e se alimenta da dívida – é, neste momento, a primeira de todas as batalhas de quem se considere democrata. É aqui que se fará a trincheira de todos os combates políticos deste início de século.

Dois comentários: 1) isto não se resolve com o mesmo vocabulário altermundialista do costume. Nunca se muda o mundo sem mudar primeiro a retórica. 2) Isto também não se faz sem valores de direita: autonomia, patriotismo, respeito pelo dinheiro.

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9 pensamentos sobre “No fundo é isto.

  1. O Daniel insiste em citar Islândia como exemplo, mas não podia escoler um caso mais excepcional. Bastaria considerar as suas peculiaridades demográficas para refrear rapidamente qualquer impulso comparativo. São 300.000 habitantes, um terço dos quais concentrados na capital. O resto são vulcões e ovelhas felpudas. Falamos de um “país” que logrou a sua actual independência por telegrama (fora de gozos). Toda e qualquer medida tomada na Islândia tem em conta tremendos factores de escala, acrescidos das condicionantes insulares, que tornam absurda a sua exportação para países com população superior à do concelho de Setúbal.

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    1. André, não concordo. O principal: a capacidade de um pais funcionar sem entrar em histeria por causa das dívidas ( e as irlandesas eram bem maiores que as nossas) pode ser adaptado. Alias por esse argumento também não podemos usar como exemplo os EUA- diga isso aos nossos liberais.

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  2. Essa capacidade da Islândia não entrar em histeria por causa da dívida não é exportável, porque a sociedade islandesa e o seu tecido produtivo são infinitamente mais simples. Dessa homogeneidade não resulta apenas a igualdade social nas consequências do colapso económico, mas também a vantagem de poder-se incluir toda a população em medidas concretas, simplificadas de reorientação de política económica. Toda a gente estava envolvida – ainda que indirectamente – na especulação financeira. Agora apostam TODOS noutra área. Quando estive lá em trabalho, a aposta era a exportação de tecnologia de aproveitamento geotérmico. Até o Al Gore cirandava por lá, à conta de um projecto maluco de fixação de CO2 em furos geotérmicos. Não sei como vai a coisa, mas aquilo é uma aldeia com moeda própria. Quando fomos beber um copo com o presidente, na respectiva residência oficial, ficámos com todos com a sensação de junta de freguesia com visibilidade internacional. É mesmo muito especial. E digo aos liberais constantemente que não podemos usar os EUA como exemplo, com certeza. Mas é ainda mais absurdo querer exportar as práticas islandesas, que é um país único até na sua natureza (o único ponto aflorante das cristais oceânicas). É ainda mais absurdo que a paixão finlandesa de José Sócrates. Infelizmente, it’s not that simple.

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    1. André o centro do post não é a comparação com a Islândia mas a noção de que é preciso uma inversão de papeis: são os Estados que devem decidir como pagar as suas dividas aos bancos e não o contrario.

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  3. O patriotismo (amor pelo próprio país) é um valor da Esquerda;
    o nacionalismo (ódio pelos outros países) é um valor da Direita.

    O melhor exemplo é o jugoslavo: os patriotas partizans contra os nacionalistas tchetniks e ustashas.

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  4. André tem razão : Is not that simple . Oxalá fosse ,mas não é .
    E é por isso que a Espanha é a nova Grécia e a França vai ser a nova Espanha .
    Everybody owes everybody ,and no one can pay . Kicking the can down the road ,ou mais portuguesmente ,empurrar com a barriga é o que os Governos têm feito ,seja à Americana ,aumentando sucessivamente o teto da divida e fazendo timidos cortes orçamentais,seja à lá Cameron com o BofE injectando constantemente biliões de libras no sistema finançeiro sem que o “doentinho” apresente melhoras .(pelo contrário ,os resultados do 1º trimestre mostram que o RU voltou a entrar em recessão) .
    “For every complex problem there is an answer that is simple , clear , and wrong ” , escreveu H L Mencken , muitos , muitos anos antes de F. Hollande ser o putativo futuro Presidente da França , mas a frase assenta-lhe na perfeição , a ele e à sua receita para “relançar a Economia” que é aumentar drásticamente a despesa publica , sem achar necessário explicar como vai pagar a Divida .
    É que a parte chata de equação do “não pagamos” é não demonstrar como se iria encontrar depois quem continuasse disposto a comprar a divida pública de forma a financiar um deficit cada vez mais estratosférico .
    Para esta situação ,uma verdadeira “pescadinha de rabo na boca ” ,não se vislumbra solução ,e por isso e infelizmente começarem os doutos Economistas a pensar que “talvez” não fosse má ideia permitir um “pouco” de inflação que coma a divida . Ora a História mostra que tal coisa ,”um pouco de inflação ” não existe ,e uma vez the cat out of the bag , ninguem a agarra.
    Quem viver verá.
    Manuel.m

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