A pá.

Muitas coisas se alteraram em Portugal desde que compro morangos.

Há duas décadas a selecção dos exemplares estava a cargo do merceeiro, que agarrava numa pequena pá colorida e enchia a eito o saco de plástico até alcançar um peso marginalmente superior ao que eu desejava. O método beneficiava o negócio, porque como a qualidade dos lotes era muito irregular convinha ao proprietário que o seu manuseamento fosse interditado aos fregueses. A pá simbolizava uma espécie de arbitragem cósmica, muito frágil, garantindo que o risco dos produtos deteriorados era distribuido pelas partes. Pura sofística, claro.

Com o triunfo das grandes superfícies essa relação de poder modificou-se, e a sua vasta sombra no comércio tradicional permitiu que a pá fosse usada pelo cliente sob o olhar severo do proprietário. “Não é para escolher!”, ouvi há cinco ou seis anos num boteco da rua de São José a que nunca regressei.

Agora os morangos chegam às frutarias como produto premium, acondicionado em embalagens de 250 ou 500 gramas, a preço elevado. Quinze dias depois já são vendidos a granel por 2 ou 3 euros o quilo e a concorrência local, liderada por chineses, arrasa a fidelização. Pormenor interessante: não existem pás. O modelo de negócio a que pertenciam faliu.

Se fossem livreiros tínhamos a bloga em pé de guerra.

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14 pensamentos sobre “A pá.

  1. Sobretudo se fosse aquela livraria em que trabalhava uma alemã antipática e mal-educada — não a conheci, mas das descrições que vou lendo não transparece simpatia e educação esmerada — de quem toda a gente, incluindo Pacheco Pereira numa crónica que, salvo erro, referiste aqui há pouco tempo, parece ter imensas saudades. Coisas.

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  2. No que concerne aos morangos, e pelo menos na mercearia que frequento, é como o Filipe Nunes Vicente descreve.

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      1. Ligeiramente abaixo. Em Valongo ainda se devem vender com a folhagem.

        (mas é acima de Avintes, que, tal como Valongo, tem uma broa boa — ou uma vroa voa, como vocês dizem — como o caraças — algo que pouco ou nada interessa a amantes da cozinha gourmet como tu, presumo)

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