O doutor e as sopeiras.

Observando (ainda que de ouvido) as telenovelas portuguesas, um marciano poderia concluir que para cada dez portugueses temos:

– Um doutor de barba de três dias, residente na Linha, dono (ou qualquer coisa) de uma empresa.

– Dois telemóveis de última geração que o doutor pousa na mesinha de entrada junto com as chaves ao chegar a casa esfarrapado de tanta labuta.

– Três criadas de uniforme preto, touca e avental brancos, uma delas intriguista e a outra um anjo, com uma velha cordata no papel de Conselho de Segurança da ONU, pra que não se esfolem vivas. Mas devotadíssimas todas três ao doutor e família.

– Quatro meninos, entremeados de género, louros, sempre em uniforme do colégio.

– O espectro da falecida esposa do doutor (que este não consegue esquecer) mãe das crianças e, enquanto na flor da vida que lhe foi ceifada por tragédia que traz o doutror amargurado há trinta e dois anos, arquitecta genial.

– Uma jornalista, cirurgiã, ou designer (à escolha) apaixonadíssima pelo doutor e que promete reanimá-lo para as alegrias da vida, fazendo-o rescuscitar e ascender ao paraíso da vida caseira e social. Veste (quando não de serviço) casual, mas a gente logo ao primeiro episódio adivinha que despida não haveria de ser naco que se atirasse aos rothwaillers que guardam o quintal.

– Uma megera escalavrada (intriguista e de maus fígados) que só para estragar a vida ao doutor, às crianças e ainda mais às criadas, compete com a supracitada pelo matrimónio com o doutor adónis e pelo arrebanhamento das crianças que a odeiam.

– Um sujeito careca e mal apessoado, também executivo, que, lá na empresa, cozinha em fogo lento os perigos e armadilhas  em que o doutor incorre (leia-se, cair na pobreza) se não o desmascarar a breve trecho.

– Um velho casal de caseiros que na herdade ou quinta de família do doutor, o recebem, e às meninas e à pretendente boa, com desvelos e tirar de boné. E por todos eles, que lhes chegam vindos da Linha em SUV topo de gama ao final da semana, morrem de ralações.

Ninguém caga, ninguém deixa apodrecer os dentes, ninguém tem dívidas (a não ser astronómicas e essas são pergaminhos), ninguém é bate-chapas, revisor da CP, velha de bigode e a cheirar a urina com xaile preto p’la cabeça. Nenhum carro precisa de mudar amortecedores ou anda sem seguro, ninguém fica na maca no corredor das urgências toda a noite sem que ninguém lhe pergunte água-vai ou água-vem.

Não é de estranhar que um marciano que visse as telenovelas, ao chegar a portugal votasse em Cavaco, ou, se no círculo de Braga, em João de Deus Pinheiro.

E há mais.

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13 pensamentos sobre “O doutor e as sopeiras.

  1. LOL. Você ainda me faz famoso (um novo Moita Flores, e aí provávelmente arrenego quanto botei por escrito) com links e citações.

    Grato pela citação, de qualquer forma. Aquilo afinal não é mais que um plágio dos versos de Pessoa quando se queixava andar farto de semi-deuses e de nunca ter conhecido senão príncipes na vida.

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  2. As telenovelas: os seus autores, as televisões que as encomendam, o público que as vê – uma certa mentalidade portuguesa nostálgica da imagem de outrora, a de Portugal dos pequeninos? Uma telenovela com gente aflita para pagar a prestação da casa, o crédito pessoal, a última viagem ao Brasil, com filhos em escolas reais, em turmas boas e más, sempre com burburinho, consumindo bebidas alcoólicas em todos os lugares de convívio, não apenas em Lloret del Mar? Homens e mulheres inteligentes e trabalhadores esforçados, mas sem glamour, exercendo profissões dignas e necessárias, mas sem “prestígio”? Alguém veria tal coisa?

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  3. Eu acho que o Greene não era tão, ou tão pouco, exigente, que incluisse os guiões de telenovela na categoria das “novels” a que se refere. Não o estou a ver a preocupar-se com a representatividade dos povos indígenas nas telenovelas mexicanas que a sua criada via na televisão. Os marcianos que não sejam burros e pesquisem antes de chegarem cá. Esses tais, se se pusessem à frente de um aquário em cá chegando, votariam num cherne qualquer

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  4. Acho que não, Luis Jorge. As telenovelas são consumidas, por quem as vê, como mero entretenimento, nada mais. O país não se vê assim. Gostaria que fosse assim, isso sim, mas isso é outra história. De qualquer maneira, eu referia-me ao objecto daquele texto do Greene. Ele não consideraria com certeza os escrevinhadores de guiões para teatro popular dignos daquela sua análise.
    Já agora, o Greene, se escrevesse um texto semelhante hoje, incluiria um quarto de muçulmanos, um terço de hindus e um quinto de rastafaris. Não sei se já não o deveria ter feito então. As proporções que apresenta, nem no tempo da rainha Vitória.
    Voltando a Portugal e ao nosso género literário favorito, o morangos com açuçar está sub-representado na classe dos adolescentes gordos e, no entanto, aquela maltosa já come hambúrgueres e batatas fritas há mais de vinte anos, ininterruptamente. Isto para dizer que os tais marcianos, a levarem este exemplo à letra, apanhariam um enfarte num mês. Os machos, que as marcianas aprenderiam a só consumir saladas de beterraba e raspas de cenoura a todas as refeições, com o que ficariam umas bimbas louras e elegantes.

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