O Vida Breve pelos seus leitores, e tal.

Elevo a post um comentário sobre touradas que o André colocou aqui

Não há lugar para um espectáculo como o da tourada na sociedade moderna. A sobrevivência da tauromaquia implica a aceitação natural de coisas que nos empenhamos em negar e esconder artificialmente. Mas esse estado de negação ainda não é completo, como demonstra o recurso ao cinismo tão abundante nos argumentos das associações antitaurinas — revelador de um remorso subjacente, de uma hesitação volatilizada, de uma inércia contrária às suas próprias exigências. Vejamos, por exemplo, o modo como invocam o sofrimento do animal para justificarem a abolição das corridas de touros.

Na minha opinião, é um falso problema. Esse pretenso repúdio pelo sofrimento do toiro oculta uma rebelião contemporânea contra elementos incontornáveis da existência humana: sofrimento, decadência, e, sobretudo, a morte. Os argumentos contra o sofrimento do bicho são falaciosos, porque o que condenam é, em boa verdade, o espectáculo, não o acto em si de se dar morte a um ser vivo.

Note-se que barbárie contra os animais é coisa generalizada – mesmo entre seres humanos – mas não existem movimentos com características semelhantes ao antitaurino, em violência e actuação, para outras situações gravíssimas, como a pecuária intensiva, ou o trabalho infantil.

Estas não têm o elemento chocante do espectáculo. O antitaurino chora a cada farpa espetada no touro, enquanto come mais uma garfada de um peito de galinha, perfeitamente quadrado, extraído a um animal que nunca viu a luz do dia e passou toda a sua existência atulhado na própria merda, esmagado entre milhares de semelhantes na escuridão de uma gigantesca nave industrial.

O que é inaceitável actualmente na tourada é a visibilidade do acto da extinção, o sangue, o sofrimento, elementos da vida que pretendemos esconder, juntamente com a inevitabilidade do envelhecimento e da decadência física.

Apesar da energia e ubíqua movimentação dos grupos antitaurinos, os argumentos fornecidos são de uma pobreza confrangedora, representando a ascensão triunfante de uma nova forma de ignorância, que demarca a fronteira entre o mundo de ontem e uma geração inteiramente nascida do betão suburbano.

É notável que numa batalha essencialmente conceptual, nem se dêem ao trabalho de estudar bem a cultura do inimigo. Focar as objecções à tourada exclusivamente no sofrimento do animal, na sua morte, é uma sandice e uma obliteração cultural. Um tempo assim não merece um tesouro tão rico.

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15 pensamentos sobre “O Vida Breve pelos seus leitores, e tal.

  1. André, detetei aí uma desafinação no paso doble: esses antitaurinos violentos parece-me que não comem peito de galinha e também libertam porquinhos da índia dos laboratórios e tudo. Mas, lá está, esses fanáticos continuam a não ter legitimidade para falar dos touros enquanto houver trabalho infantil, violência doméstica e a violência em geral, sangue e tripas de fora, que assola o mundo e que nos é congénita e incontornável. Eu, por exemplo, não tenho legitimidade para dizer sequer mansamente que a tourada é um espetáculo imbecil, pelo simples facto de ter em criança preparado caracóis. Pôr os bichos no farelo ou na serradura para lhes tirar a ranheta deve provocar-lhes um sofrimento atroz. Aceito isso conformado, pronto.
    Falta aí um argumento clássico, uma chicuelina (é assim?) final: os touros são criados para levar com a farpa no lombo em tardes gloriosas e se lhes tiram isso, ficam infelizes e melancólicos a pastar na leziria. Portanto, ser contra as touradas é ser contra o direito dos touros a ser felizes.

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  2. Não sei se ficam melancólicos e infelizes, mas sem tourada pode ter a certeza de que terá de estabelecer e manter umas quantas reservas, que permitam manter uns poucos exemplares de touros bravos em declínio genético galopante.

    O caramelo levanta a questão da legitimidade de opinião, mas tal não é o objectivo do post. A legitimidade para opiniar nada tem que ver com a validade dos argumentos esgrimidos. Não está em causa a ideia estética que cada um faz do espectáculo, ou se este é mais ou menos imbecil. Uma das reacções mais curiosas e ressentidas que observei em Espanha foi contra a figura de Ernest Hemingway. Em Pamplona, amigos de superior educação afinavam pelo diapasão da moda, sustentando que o Big Papa teve como única virtude atrair bifalhada para um espectáculo imbecil e selvático. É um facto que as peregrinações de eruditos turistas a Madrid para observarem Cristiano Ronaldo, ou as assistências de cátedra que enchouriçam pavilhões e aterros suburbanos, com o fito posto nas ancas de Shakira, colocam a fasquia em patamares estéticos e de fina inteligência difíceis de alcançar…. Mal posso esperar a literatura que esses certames irão decerto parir! São, ou deviam ser, as escolhas ditadas pelas variantes do gosto. Entre uns e outros, prefiro a Pamplona de Hemingway, mil vezes.

    O que me parece incontornável é o exercício abundante do cinísmo do lado pretensamente humanista. Conheço bem o movimento antitaurino, até porque privei com bastantes membros em Espanha. Pode crer que a maioria come douradinhos e delícias do mar, e não anda por aí soltando chinchilas, como o caramelo diz. Pelo contrário: a presidente do principal movimento autitaurino é (se entretanto não mudou), por exemplo, é mais tia que a Bibá Pita.

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    1. Coño, tio, e essa tia é muito violenta? Em termos de gostos, prefiro as arrancadas do Cristiano Ronaldo e as ancas da Shakira, que partilho com muitos aficionados (não as ancas, só o olhar).
      Eu, para os touros não ficarem em reservas em triste declinio, comia uns e empalhava outros.

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  3. Essa tia é violentíssima, um Mike Tyson com permanente e broche ao peito. Vi-a certa noite na TVE2, zurzindo em directo um balbuciante Savater. Infelizmente, são poucas as iguarias saborosas que se podem confecionar com a carne de touro bravo, com destaque para o famoso rabo. E acho que destinar o touro bravo à alimentação é uma despromoção para a espécie. Se não estou em erro, por baixo da arena de Sevilha havia um restaurante, em que se preparavam pratos cozinhados com a carne dos touros lidados nesse dia, mas é apenas uma curiosidade pontual.

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  4. André, espanholas de sangue na guelra é cultura e tradição e merecem um olé. Mas ainda voltando ao seu texto, parece partir do princípio de que os “antitaurinos”, como lhes chama, são suburbanos sem cultura. Não lêm o hemingway e los poetas andaluzes,não sabem quem foi o Manolete, os Domecq, o que é um touro bravo, não compreendem a emoção que a festa provoca nos aficionados, etc, essas coisas todas e, finalmente, passa-lhes ao lado a fatal violência atávica do ser humano. Eu acho que é supor demasiado e nada me diz que tal se aplica à espanhola, que… é espanhola, por supuesto. Eu, que nasci logo acima do Mondego do lado de cá da fronteira, mais terra de vacas leiteiras e bois mansos, tenho idade suficiente para saber alguma coisa sobre as touradas, quanto mais não seja porque esse era um divertimento comum na televisão na época em que cresci. Por acaso, o Mestre Batista era uma dos meus ídolos de criança e ainda me lembro da comoção lá em casa com a morte do Manuel dos Santos. Como também sou dado a procurar compreender coisas, nada disso me passa ao lado.
    Mas não é por isso que deixo de achar a tourada um espectáculo bárbaro quando mete farpas espetadas no touro e mais ainda quando mete touro de morte, como em Espanha. Para mim, espetar um touro é o mesmo que espetar um cão ou qualquer outro animal, venha o poeta que vier fazer-me rimas em contrário, e tenha isso a idade que tiver. No resto, acho piada às habilidades dos cavaleiros e às pegas de caras. Desde que não magoem o animal, tudo bem. Compreender não é necessariamente gostar, nem sequer aceitar. Há até quem, ao contrário, goste muito sem perceber nada. O Futre, se quisesse, enchia o campo pequeno e a monumental de Madrid com chineses a aplaudir freneticamente.
    Ah, e os frangos em campos de concentração? Acho mal, mas sobre isso nada posso fazer porque eu e a minha família precisamos de proteínas animais e o frango pica no chão está caro e ainda não me convenci das vantagens alimentares do vegetarianismo. E porque o frango é mais saboroso do que a soja, já agora. Mas é que se mete tudo no mesmo saco, as guerras e os touros de morte, eu nem sequer podia invocar a convenção de genebra se algum dia me fizessem prisioneiro de guerra, só porque agora trinco coxas de frango.

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  5. Caro caramelo, isto

    “Para mim, espetar um touro é o mesmo que espetar um cão ou qualquer outro animal, venha o poeta que vier fazer-me rimas em contrário, e tenha isso a idade que tiver.”

    é barbaridade.

    A sua comparação é uma torpe falácia, e encerra uma recusa obstinada em discutir o seu contrário. Tal qual uma criança fecha os olhos e, teimando em alguma tolice, se recusa a respirar. Há um erro fundamental no seu discurso, que consiste na redução da coisa ao seu aspecto mais superficial, generalizando depois para o território do disparate. Comparar a tourada com tortura gratuíta e avulsa de um ser vivo qualquer, é um acto de indigência mental, cujos contornos redutores nem vale a pena dissecar. Negar, por interposto prurido, certos elementos trágicos da existência humana, que a tourada artisticamente encarna, é nítido sinal de atrofia cultural colectiva.

    Mas já alguém respondeu a essa argumentação, tão débil quanto gasta. Foi o supracitado Ortega y Gasset, uma das mais geniais penas do século XX, um colosso analítico. Ora leia-se:

    “En hechos como el apuntado podía aprender el inglés que si él mata un toro su acción tiene un sentido nada semejante al lo que en una corrida significa matar el toro. Las cosas humanas reclaman ser miradas desde su interioridad, y si andan casi siempre tan mal es porque, siendo ellas tan precisas, nos obstinamos en verlas de manera gruesa y, cuando más, a ojo de buen cubero. Apenas procura usted apretar un poco la comprensión le dirán que son sutilezas, en vez de atender sólo a si las sutilezas son o no verídicas.”

    José de Ortega y Gasset, “Sobre la caza”

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  6. Note que da sua argumentação, caramelo, se extrai que não existe qualquer diferença entre o sádico que estripa cãezinhos na escuridão da sua húmida cave, e os toureiros, os aficionados, etc. Em suma, para o caramelo, não existe a menor diferença entre José Tomás e o monstro de Amstetten. A enormidade desta conclusão, por si só, seria suficiente para demonstrar que as premissas do seu raciocínio são falsas. Não me venha com a questão da “subtileza”, já devidamente arrumada no trecho de Ortega y Gasset….

    Também diz “parece partir do princípio de que os “antitaurinos”, como lhes chama, são suburbanos sem cultura.” Dou-lhe um desconto, porque escreve “parece”, ou seja, pode ter sido algum defeito da minha pobre escrita a induzi-lo em erro. No entanto, a verdade é que eu nunca escrevi que os autitaurinos são suburbanos sem cultura. Essa é uma dedução fabricada pelo caramelo, seguindo uma ordem de ideias obviamente enviesada. Pelo contrário: os principais dirigentes dos movimentos antitourada são gente superiormente formada, quase todas de bouas famílias. Não é uma questão de formação, mas de paradigma sociológico. Para melhor entender a incompatibilidade aniquiliante da tauromaquia com a sociedade actual, pode adentrar-se nas obras de Guy Debord “A Sociedade do Espectáculo”, ou os menos espessos “Comentários à Sociedade do Espectáculo”.

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  7. Hombre, eu quero que o colosso do Ortega y Gasset vá dar banho ao cão. André, não percebeu, mas eu não disse que a morte do touro na arena é uma tortura gratuita e avulsa. Pelo contrário. Aquilo vai fundo na alma espanhola e tal. Está bem assim? Eu não disse que compreendia? Compreendo tudo, até compreendo que os chineses comam os miolos de macacos vivos desde o fu manchu. Mas o André ficou muito entusiasmado e nem leu aquela parte em que eu disse que uma coisa é compreender, outra coisa é aceitar. E eu aceito tanto isso, quanto aceito um pontapé num canito. Para mim, é a mesma coisa. Estou-me lixando para essa tradição dos espanhóis ou dos ribatejanos. Fui suficientemente bruto? Aliás, a morte do touro na arena é pior. Pior do que matar um animal por razões artísticas ou lúdicas, é aplaudir a coisa numa arena. Não me calha, pronto. Eu sou a favor de matarem os bois de forma rápida e indolor, sem ninguém a aplaudir, para o fazer em bifes.
    E não vêm aqui as gajas boas da PETA fazer-me festas para compensar o André ter-me chamado indigente mental?

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