Cojones.

Um artigo sobre toureiros no blog da revista The Paris Review, para demonstrar que a coragem é um grande argumento. Há mais coisas no céu e na terra, etc.

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44 pensamentos sobre “Cojones.

    1. Belo post, jj. E, embora compreenda os seus argumentos, gostava que lesse o artigo para que aqui faço o link. Um dia talvez crie um argumentário para as touradas. Neste momento julgo que pertencem a um mundo em extinção, com valores diferentes dos nossos e uma ética fundada na coragem. Teria pena de o perder, apesar do sofrimento dos animais. Farto-me muito de analisar fenómenos contemporâneos por critérios contemporâneos. Há um didacticismo nos defensores dos bichos, pelo menos os que conheço, que se aproxima muito da infantilização. Isso aborrece-me e exaspera-me nos casos mais radicais — um pouco como me exasperam as testemunhas de Jeová.

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      1. Em termos de coragem, será o risco superior ao de muitos desportos radicais? Acho que apenas pertence a um mundo mais manual. Não sei se essa ética está fundamentalmente perdida. (Estou apenas pensar alto, não a afirmar qualquer coisa.)

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      2. Excelente observação.
        Também acho que pertence a um mundo em extinção. E não porque deixou de fazer sentido, mas por imposição dúbia de outros valores carregados de boas intenções.
        Um pouco como o horror à guerra medieval, entre homens que carregam uns contra os outros com o general à frente, horror arrumado a um canto da memória quando assistem, impávidos, à hora do jantar, à guerra cirúrgica feita por máquinas, para depois passar o filme do general em chefe visitando os locais varridos pelos mísseis. Ou o horror das filas para adquirir o novo e sofisticado telemóvel, antes que o usado esteja gasto, numa sucessão que obriga à escravidão crianças num qualquer lugar do centro de África. Desde que o sangue se não veja…

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      3. Quando referi o meu post já tinha lido o post que referiu. Consigo compreender que haja quem sinta necessidade de mostrar coragem, talvez para mostrar que se está preparado para as eventuais tragédias que fazem parte da vida, mas prefiro minimizar o sofrimento sempre que tal não colida com valores mais importantes.

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        1. Não sei se é por aí, jj: é mais a coragem no centro de um sistema de valores diferente do actual. Isto, ou tem importância cultural e nos diz alguma coisa sobre nós, ou não tem. E houve por aqui comentadores que, talvez com escusada descortesia, puseram o dedo na ferida: no seu post o jj afirma que prefere não comer partes de bichos reconhecíveis, o que nos revela muito do aspecto anestesiante com que o discurso de protecção dos animais é formulado. “Eu deixo que morram, desde que não os veja”. Algo do género se aplica às matanças do porco e aos restos de um modo de vida rural. Os nossos estilos de vida são assim tão melhores que não precisem do conhecimento e da valorização de outros? E depois há a questão da morte pública, que tanta falta nos faz para evitar a solidão dos hospitais.

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  1. Um épico sobre cozedura de lagostas suadas deve ser pouco interessante para quem não for lagosta. Já as touradas dão excelentes histórias e personagens, e não é preciso gostar de ver seres vivos a sofrer para admirar esse personagem e gostar desse texto. Não é o meu tema preferido, porque não o levo muito a sério (não consigo tirar da cabeça aquele ibero castiço do Astérix na Ibéria, paciência) e deixei de ver touradas mais ou menos na mesma altura em que deixei de saber os nomes dos jogadores do hóquei em patins. Mas este não tem que ser um guilty pleasure para ninguém, assim como não é preciso gostar de guerras para gostar de descrições, reais ou imaginadas, de guerras e coragem em combate. Longos anos depois de se acabarem as touradas, ainda se falará desse toureiro e e da fiesta e, por isso, nada se perderá. Muito menos a coragem. Para equilibrar as coisas, só conviria que aparecesse antes do fim um spartacus de uma tonelada e em pontas.

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  2. A tourada é uma das coisas que me provoca sentimentos profundamente ambivalentes. Por um lado, repugna-me o sofrimento infligido ao animal, mas, por outro, não consigo deixar de admirar a coragem do toureiro, o combate frente a frente com o animal, sabendo que pode sair da arena sem vida.

    (Para ser o mais sincero que me é possível, não consigo assistir a uma tourada; e, se me fosse dado esse poder, acabaria com elas; mas, ainda assim…)

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  3. Palencia, 2007. “El Juli” recebe , no meio da praça, um cornalon , à saída da porta dos sustos, embalado a 200km/h, en rodillas. E vieram-me as lágrimas aos olhos, a mim, um cínico.

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  4. A questão do sofrimento do animal, na minha opinião, é falsa; a máscara que esconde um prurido que nos envergonha. Na verdade, o pretenso nojo ao sofrimento do animal, na tourada, esconde o insurgimento da sociedade moderna contra certos elementos incontornáveis da existência humana: sofrimento, decadência, e, sobretudo, a morte. Os argumentos contra o sofrimento do bicho são falaciosos, porque o que condenam é, em boa verdade, o espectáculo, não o acto em si de se dar morte a um ser vivo. Note-se que barbárie contra os animais é coisa generalizada – mesmo entre seres humanos – mas não existem movimentos com características semelhantes ao antitaurino, em violência e actuação, para outras situações gravíssimas, como a pecuária intensiva, ou o trabalho infantil. Estas não têm o elemento chocante do espectáculo. O antitaurino chora a cada farpa espetada no touro, enquanto come mais uma garfada de um peito de galinha, perfeitamente quadrado, extraído a um animal que nunca viu a luz do dia e passou toda a sua existência atulhado na própria merda, esmagado entre milhares de semelhantes na escuridão de uma gigantesca nave industrial. O que é inaceitável actualmente na tourada é a visibilidade do acto da extinção, o sangue, o sofrimento, elementos da vida que se pretende esconder na existência moderna, juntamente com a inevitabilidade do envelhecimento e da decadência física. Não obstante a energia e ubíqua movimentação dos grupos antitaurinos, os argumentos fornecidos são de uma pobreza confrangedora, representando a ascensão triunfante de uma nova forma de ignorância, que demarca a fronteira entre o mundo de ontem e uma geração inteiramente nascida do betão suburbano. É notável que numa batalha essencialmente conceptual, nem se dêem ao trabalho de estudar bem a cultura do inimigo. Assim, focar a tourada exclusivamente no sofrimento do animal, na sua morte, é uma sandice inqualificável, uma obliteração cultural de um trogloditismo imperdoável. Mas a marca dos tolos é precisamente a forma encarniçada com que defendem a própria debilidade mental. Uma sociedade assim não merece um tesouro tão rico, está bem de ver. No dilema mutuamente exclusivo da permanência da tourada, ou de certa forma de conceber a vida, a sociedade moderna devia suicidar-se em massa.

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    1. Um belo texto, o do André; e, apesar de eu não deixar de ser um desses hipócritas que refere — e, eventualmente, tolo e débil mental –, concordo com quase todos os argumentos aduzidos.
      Porém, devo dizer que há gente consequente que, mesmo assim, passa por louca — pelo menos, aos meus olhos. Conheci uma finlandesa que não só não comia carne e peixe, como só comia fruta apanhada do chão — segundo ela, arrancar uma peça de fruta da árvore é de uma violência atroz.

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  5. Estava e estreei nas lides a minha filha mais nova, na altura com cinco anos. Fiquei num tendido fila 1 e lerpei logo com uma lição. Sentei-me ao lado de um gajo de chapéu e puro nos dedos. O tipo vira-se e diz-me sonoro: !Buenas tardes!

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    1. Estive quase para o elevar ao formato de post, mas depois ainda recebia imensas mensagens de apoio dos forcados amadores de Coruche, o que me faz ter uma súbita estima pelos bifes de peru.

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        1. André, você não quer fazer post sobre esse assunto para eu colocar aqui? Pode ser quase igual, mas com uma introdução ao tema um pouco mais desenvolvida para que as pessoas saibam logo do que é que está a falar. É só uma ideia, se não quiser não há problema.

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          1. Eu estava a brincar, quando disse que o Luís era tramado. E referia-me aos bifes de peru exclusivamente. Acto de contrição. Agradeço muito o convite, mas acho que não tem sentido assaltar-lhe o espaço com um post sobre um tema que vai gerar uma discussão com argumentação mais do que previsível de ambos os lados, com amplo prejuízo para a limpeza do critério editorial que o Luís vem praticando aqui no Vida Breve.

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            1. O meu convite é independente dos comentários anteriores. E se há critério editorial no blog é o de não ter critério. Pense nisso, mas como lhe disse não quero maçá-lo com insistências.

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  6. Então deixo-lhe só uma parágrafo, em jeito de introdução, como me pediu:

    Existe lugar para um espectáculo como o da tourada, com toda a sua significação e peso socioculturais, na sociedade moderna? A minha opinião é de que não, porque a sobrevivência da tauromaquia implica a aceitação natural de coisas que a modernidade tanto se empenha em artificialmente negar e esconder. Esse estado artificial de negação ainda não é completo na sociedade urbana, ou de perfil urbanizado. Como prova disso mesmo podemos atentar no abundante recurso ao cinismo, habitualíssimo na panóplia argumentativa dos movimentos antitaurinos, denotando um remorso subjacente, uma hesitação volatilizada; sem dúvida uma ligeira inércia em sentido contrário às exigências tão violentamente propaladas. Veja-se, a título de exemplo, os modos com que invocam o sofrimento animal na justificação da abolição das corridas de touros.

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    1. Que acha disto? Pus-lhe parágrafos, tirei aliterações, palavras repetidas como “sociedade moderna”, encurtei o princípio e o fim, etc etc. Mas o corpo do texto está quase intacto.

      “Não há lugar para um espectáculo como o da tourada na sociedade moderna. A sobrevivência da tauromaquia implica a aceitação natural de coisas que nos empenhamos em negar e esconder artificialmente. Mas esse estado de negação ainda não é completo, como demonstra o recurso ao cinismo tão abundante nos argumentos das associações antitaurinas — revelador de um remorso subjacente, de uma hesitação volatilizada, de uma inércia contrária às suas próprias exigências. Vejamos, por exemplo, o modo como invocam o sofrimento do animal para justificarem a abolição das corridas de touros.

      Na minha opinião, é um falso problema. Esse pretenso repúdio pelo sofrimento do toiro oculta uma rebelião contemporânea contra elementos incontornáveis da existência humana: sofrimento, decadência, e, sobretudo, a morte. Os argumentos contra o sofrimento do bicho são falaciosos, porque o que condenam é, em boa verdade, o espectáculo, não o acto em si de se dar morte a um ser vivo.
      Note-se que barbárie contra os animais é coisa generalizada – mesmo entre seres humanos – mas não existem movimentos com características semelhantes ao antitaurino, em violência e actuação, para outras situações gravíssimas, como a pecuária intensiva, ou o trabalho infantil.

      Estas não têm o elemento chocante do espectáculo. O antitaurino chora a cada farpa espetada no touro, enquanto come mais uma garfada de um peito de galinha, perfeitamente quadrado, extraído a um animal que nunca viu a luz do dia e passou toda a sua existência atulhado na própria merda, esmagado entre milhares de semelhantes na escuridão de uma gigantesca nave industrial.
      O que é inaceitável actualmente na tourada é a visibilidade do acto da extinção, o sangue, o sofrimento, elementos da vida que pretendemos esconder, juntamente com a inevitabilidade do envelhecimento e da decadência física.
      Apesar da energia e ubíqua movimentação dos grupos antitaurinos, os argumentos fornecidos são de uma pobreza confrangedora, representando a ascensão triunfante de uma nova forma de ignorância, que demarca a fronteira entre o mundo de ontem e uma geração inteiramente nascida do betão suburbano.

      É notável que numa batalha essencialmente conceptual, nem se dêem ao trabalho de estudar bem a cultura do inimigo. Focar as objecções à tourada exclusivamente no sofrimento do animal, na sua morte, é uma sandice e uma obliteração cultural. Um tempo assim não merece um tesouro tão rico.”

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  7. Este é um daqueles temas sobre os quais não consigo perder muito tempo a filosofar. É uma javardice selvagem e ponto.

    E isto “não existem movimentos com características semelhantes ao antitaurino, em violência e actuação, para outras situações gravíssimas, como a pecuária intensiva, ou o trabalho infantil” é tudo menos verdade.

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