Ao camarada Arménio Carlos.

Se os números não se alteraram, Portugal ostenta hoje a terceira menor taxa de sindicalização da Europa — cerca de 20 por cento, em comparação com 75 ou 80 por cento dos trabalhadores na Escandinávia. A CGTP entra na administração pública,  no sector empresarial do Estado e nas actividades de mão-de-obra intensiva. Ou seja, em estruturas paquidérmicas destinadas ao abate. O camarada Arménio Carlos facilmente percebe que não há futuro neste público-alvo.

Por isso chamo a sua atenção para uma janela de oportunidade que lhe dará acesso a um mercado inexplorado se o camarada desejar sair da zona de conforto em que se encontra. (Uso um linguajar neoliberal para benefício dos meus leitores da direita, queira desculpar). Refiro-me, é claro, aos 771 mil portugueses que perfazem 14 por cento da população activa actualmente no desemprego. Um recorde absoluto, cujo mérito podemos atribuir ao Governo.

Quero eu dizer que o camarada teria muitas vantagens em dirigir-se a estas pessoas. Em primeiro lugar, encontraria uma audiência motivada e fácil de satisfazer. Em segundo lugar, multiplicaria para o dobro a dimensão das suas manifestações no Terreiro do Paço. Em terceiro lugar, criaria mecanismos de fidelização que dariam fruto quando estes homens e mulheres encontrassem trabalho em actividades com elevado potencial de crescimento (as únicas, recordo-lhe, onde ainda existem empregos, e exactamente aquelas em que os seus sindicatos não penetram). Em quarto e último lugar, alcançaria um estatuto político que não seria tão desprezado pelos que hoje o consideram uma válvula de escape do regime — ou seja, uma criatura inocente e dócil, embora rezingona.

Queira o camarada reflectir neste assunto, enquanto eu me dedico à salvação do comércio.

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37 pensamentos sobre “Ao camarada Arménio Carlos.

  1. Na Alemanha nem têm necessidade de fixar na lei um valor para o salário mínimo. Os sindicatos estão em cima das empresas para isso e outras coisas.

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  2. As tais empresas com “elevado potencial de crescimento”, onde os sindicatos não entram, são aquelas que empregam malta demasiado medrosa para se sindicalizar. Nem abrem o bico diante do patrão, quanto mais mostrar-lhe um cartão do sindicato. São um pequeno exército de gente altamente qualificada, com doutoramentos no MIT e tudo, a recibos verdes ou contratos de três meses com a clásula a-gente-renova-se-não-fizeres-ondas-tás-mal-emigras. São as empresas que não têm trabalhadores, têm colaboradores. A CGTP lá vai falando na precaridade e tal, mas até ficaria mal a um desses brilhantes jovens ser visto na companhia dos barbudos dos sindicatos. Aguenta e não chora.

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    1. caramelo, não invente: os gajos com doutoramento no MIT não trabalham nesta merda de país nem mortos. Esses não precisam de estímulos para emigrarem. De resto: esperemos pela miséria no sector de serviços, quando apertar vai ver que eles até beijam os barbudos, se os dito-cujos fizerem alguma coisa para o merecerem.

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  3. Luís Jorge, não se prenda a isso, essa do MIT é um pormenor insignificante. Mas esses não precisam de estímulo para emigrarem? Não está tão fácil quanto pensa. Nos Estados Unidos, por exemplo, já estão a abarrotar de géniozinhos indianos e chineses. Na Europa, onde a investigação e o investimento científico, artístico, etc, estão muito dependentes do Estado, as coisas andam um bocado mal.
    De resto, temos gente formada cá mais qualificada do que muita gente saida do MIT. Só queria dizer uma coisa que sabemos ambos: essa gente é frequentemente explorada. Não é só o ganhar mal, é a precaridade extrema. Ninguém vive e faz planos de vida com diplomas e curricula recheados. E temos de esperar pela miséria no setor dos serviços? hehehe. Sei de gente que ganha metade do salário mínimo em empresas de sucesso no setor dos serviços.

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    1. Um gajo que aceita metade do salário mínimo não é público-alvo para ninguém que se respeite, muito menos um sindicalista. Mas agora mudando de assunto: você escreveu “setor”? Assim mesmo, segundo os ditâmes do acordozinho? Está à espera de ser ostracizado nas caixas de comentários que não sejam as do Jugular? (Não por mim, que me estou marimbando). É só uma curiosidade científica.

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      1. Escrevi setor? Olha, pois foi. A explicação científica é que escrevi primeiro a coisa num documento do word que tem uma maquineta infernal que corrige automaticamente. Whatevs. Eu não estou á espera de ser ostracizado, estou mesmo á espera de levar porrada, sangue, tiros de canhão do navio sagres, defenestração, que me batam com os ossos do camões, que me quebrem as falangetas!.etc.

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          1. Mereço. Mas fica prometido que no que escrever à mão manterei vivas e sonantes como um carrilhão as consoantes mudas, como a minha avó ainda contava em mei’reis já o euro ia a pino. Viva Nossa Senhora da Conceição, Viva o Senhor Dom Miguel, Viva Portugal.

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  4. Já tinha dito isto ao Luís: “altamente qualificados” Portugal, só cá estão por grande paixão, ou tragédia de igual monta.

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          1. Inteligente, oportuno e acutilante?
            Está bem, aguardo então.
            (quando tiver tempo vou comentar AC. Vi a entrevista que deu a Flor Pedrosa e gostaria de colocar a minha impressão aqui no seu post)

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  5. O caramelo não está a par da mudança de paradigma nos fluxos migratórios da mão-de-obra superiormente qualificada? A coisa agora é Brasil e Ásia. Estados Unidos e Europa são coisa brega, do passado, meu chapa….

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  6. Eu já pensei nisso, quando me acenaram há pouco desde Vera Cruz, ou mesmo atirar-me para as singapuras. Mas dou-me mal com a exuberância e as humidades tropicais. E a esposa cortava-me as gónadas, para depois fazer um colar com elas….

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  7. Luís, vê-se que não conhece nadinha do movimento sindical a sério. Todas as suas inteligentes palavras se referem à UGT, essa sim “válvula de escape” do regime e ainda por cima nada rezingona. Mas central sindivcal, com todos os seus defeitos e insuficiências, há só uma – a CGTP, o alvo a abater e a minar pela direita e pelo patronato em geral, enfim, do regime. e é a única que trata do problema do desemprego e tenta mobilizar os desempregados para a luta pelo emprego, sem fins de proselitismo e de angariação de sócios como os clubes de futebol. E não é por tratar o camarada Arménio por “camarada” (velha ironia com barbas da direita, assim como luta e rua – dou-lhe outras para ironizar confortavelmente) que o apequena ou achincalha, pelo contrário.

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    1. Caro gaf, que seria de mim se não o tivesse por cá a apontar-me o bom caminho? Nada percebo do movimento sindical, mas tenho quase 20 anos de experiência em comunicação de massas, portanto respondo-lhe de acordo com o que sei.

      1. A UGT não é uma válvula, é a rameira do regime. A UGT acabou, ou acabará brevemente. Por isso não perdi tempo a escrever sobre a UGT.
      2. A CGTP é uma válvula porque dá luta — mas só um bocadinho de luta, como convém a todas as válvulas. Caso contrário seria o géiser, ou o vulcão adormecido do regime, o que não deixaria tão tranquilo quem a apreciasse de perto.
      3. Dito isto, a CGTP é uma tristeza. Num dos países com menor rendimento e mais pobreza da Europa, ter vinte por cento de população sindicalizada (muito abaixo da média da união) devia envergonhar uma central sindical digna desse nome. Só uma estrutura anquilosada, com mais conversa da treta que capacidade de acção, sobrevive na autofagia em que a CGTP se encontra.
      4. Se a CGTP tenta atrair os desempregados, é capaz de estar a fazer mal alguma coisa.
      5. A do “camarada” era graçola, tem todo o direito de não gostar.

      Por vezes parece-me que a CGTP é como um daqueles empregados de escritório que mexem muitos papéis mas não realizam nada. Todas as manifestações são “históricas”, mas ninguém dá por elas. Nessas alturas, a CGTP culpa a televisão, esquecendo que nem a televisão de outros tempos, e bem mais hostis, ignorou Martin Luther King.

      A ineficácia inacreditável da CGTP vive de muitas muletas: a UGT, os “meios de comunicação”, “o medo que as pessoas têm” (como se nas origens do sindicalismo não houvesse mais medo do que hoje). Enfim, uma miséria.

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      1. Luis Jorge, há duas formas de os sindicatos se fazerem respeitar e obterem resultados:
        1 – O tradicional método alemão e escandinavo,etc: os sindicatos mandam, porque no dia em que os patrões não concordam, os delegados fecham a fábrica sem aviso prévio, sem nenhum risco para os trabalhadores,porque o estado garante o fecho. o lanche para a malta e uns trocos.
        2 – O método das origens: à bomba.

        Por razões muito difíceis de explicar, qualquer um destes métodos não funciona muito bem em Portugal e não só.

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          1. Grosso modo; não é para levar à letra. Nos países nórdicos e da Europa central, patrões e governos levam muito a sério os sindicatos, é uma questão de cultura e tradição histórica. E antigamente, os sindicatos apenas conseguam alguma coisa com porrada e boicotes, por meia dúzia de gajos curtidos pelas fornalhas. Cá, nem uma coisa se faz, nem a outra já se usa. O Luís Jorge não me levou muito a sério quando referi os precários. O facto é que quando quase toda a gente ou é profissional liberal, prestador de serviços, como agora se chama, ou então contratado a prazo curto ou em regime de trabalho temporário, os sindicatos não vingam, por mais organizados que sejam e por mais barulho que façam. Já agora, há uma coisa de que ninguém fala, um drama silencioso e ignorado, que é o desemprego de longa duração daqueles que já não são “jovens”.

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  8. AO CAMARADA ABÉCULA LUÍS
    Que absoluto disparate. Alguma vez esta gente sindical quis saber de desempregados? Pagam-lhes eles as cotas? São elas plasmáveis pela retórica fóssil do camarada que não mobiliza nem uma varina? Esse post, ao contrário do outro em que o escaravelho empurrava a bola de estrume do sitemeter, é um escarro, embora, para escarro, tenha classe só porque és tu a escrevê-lo. Mas nem só de forma vive um homem. PS.: Não nos fodas, Luís, logo tu, que és inteligente e refinado como um prato de ostras com trufas e chardonay ou lá o caralho. Obrigado!

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    1. Pedro, é evidente que não estou de acordo mas tenho de respeitar porque fui lá ao seu Palavrasaurusrex e vi que dá a cara (embora de Cristo americano) e escarrapacha honradamente o nome, coisa rara nos blogues.

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  9. Vi a entrevista do AC. Tem os tiques todos da direcção do PCP mas também tem alguma ingenuidade nas respostas e a linguagem não verbal podia ser descrita como “julga que não diz nada e diz tudo”.
    Ainda não se libertou do anterior e isso é tão notório que o enfraquece. Li não sei onde (aqui?) que a UGT é a “rameira” do regime (lamento que se tenha que insultar uma mulher para dar força a um argumento). Se a UGT é assim e se a CGTP é a válvula de escape para quando uma central sindical que seja paritaria com o poder politico, financeiro, e empresarial publico e privado?

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