O Acordo.

Não tenho grande amor à velha ortografia, nem percebo que tantas almas se perturbem por escreverem fato em vez de facto, como se nas décadas em que escreveram de cor indefinida e saber de cor tivessem confundido o cinzento com a tabuada.

As intervenções públicas sobre o Acordo não me estimularam.  Tudo me parecia um Prós e Contras entre conservadores ultramontanos, mulheres de xaile e bigodaça de crucifixo à ilharga, por um lado, e uns vanguardistas muito neófitos que desprezavam os efeitos perversos das alterações que estas merdas sempre provocam.  No fundo a coisa resumiu-se a ser contra ou a favor do 25 de Abril, ou seja, ao grau zero da competência retórica.

Entretanto, os atrasadinhos das caixas de comentários fizeram deste tema uma cruzada pessoal. Não se pode escrever uma rima sobre a Primavera sem que salte logo um palerma a invectivar a primavera. O Acordo Ortográfico é agora designado por Aborto Ortográfico. E isto angustia-me, por temer que os mesmos que desejam o incumprimento do Acordo procurem também repor a penalização da IVG. Num país varrido pela demagogia mais trambiqueira podemos esperar tudo e o seu contrário.

Sobram, finalmente, os argumentos em economês dos que imaginam ser possível confundir os naturais de Portugal e do Brasil em frases tão torneadas como a meleca da bebeca era superlegal. Um minuto disto e arrumam-se os defensores do comércio externo.

Haverá pessoas razoáveis assomando entre a balbúrdia? Haverá sim, galera. Ide ler a Ana Cristina Leonardo, que ontem descobriu uma delas.

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31 pensamentos sobre “O Acordo.

  1. Não sei. Alguns dos escritores de maior recorte linguístico foram Brasileiros. Por exemplo, o Graciliano Ramos. A pretensão de alguns lusos em afirmarem a existência de um direito de propriedade nacional sobre a língua Portuguesa é um eco nauseabundo de uma merdaleja, outrora transvestida em império. E também não dou para o peditório do “no Brasil escreve-se com os pés”, como se por cá se tratasse a língua com carinhos de mãe-galinha. É abrir os jornais e deixar que o estupro escribóide nos soque a retina. Tentar reter o almoço no estômago, enquanto constatamos o insondável da abjecção literária nas linhas de um Peixoto.É atentar nos telejornais e divisar a aplicação com que Crespos, Fatinhas, Rodriguinhos e quejandos sodomizam a língua do zarolho versejador. E ai de quem disser alguma coisa – fascista! – que isso é pior do que vilipendiar de rameira a mãe do biltroso. Nem falo de certos blogueiros, que são profissionais da poda….

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          1. Eu, pasquim, só me lembro de ler aquele onde Saramago fazia saneamentos em nome dos amanhãs que cantariam.
            Agora, todas as semanas encontro vários pasquins nos escaparates, mas não leio nenhum deles.
            Do Jornal de Angola é a primeira vez que leio um artigo. O artigo tem argumentos próprios que me parecem sólidos, independentemente de constarem de um jornal oficioso (como o são tantos em Portugal ou no Brasil). Não li, até agora, nada que refute os argumentos de sensatez aí expressos e que têm, desde já, a vantagem de destruir pela base todo o argumentário fabricado pelo nacionalismo brasileiro, e que ia até ao insulto soez da cultura portuguesa, segundo as melhores regras da propaganda totalitária.

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    1. Passo muito tempo a fazer amor com o Brasil – minha mulher é brasileira – e não se trata disso: o óptimo literário e de estilo está lá e cá e o que há lá de óptimo faz com que me lambuze [Toda a Tese Casa-Grande e Senzala, por exemplo, de momento no meu colo quotidiano, em edição anotada]. Mas por que motivo abdicar de qualquer coisa que nos é medular, como os étimos latinos que fomos conservando? Porquê e com que propósito?

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      1. O problema está na noção de que se tem de abdicar de qualquer coisa. Isso não está em questão. Em primeiro lugar, nem estou convencido da necessidade de reformar a língua. Em segundo, e a fazer-se uma uniformização da regra, considerando as diferentes evoluções que o Português teve por esse mundo fora, não creio que este Acordo esteja altura da tarefa. Com isto não estou a querer dizer que todo o acordo é de se recusar à partida. Nada disso. Só acho que este é tosco e demasiado arbirtário.

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  2. “E isto angustia-me, por temer que os mesmos que desejam o incumprimento do Acordo procurem também repor a penalização da IVG”

    Só há pouco tempo me apercebi que, de facto, parece haver uma associação entre pró-acordo=esquerda e anti-acordo=direita. Estava genuinamente convencido que era apenas uma questão entre gente pouco alfabetizada (de direita e de esquerda) e outra (de esquerda e de direita) que até é capaz do esforço intelectual de ler legendas de filmes.

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    1. Também concordo, as posições anti e pró acordo nada têm a ver com as posições políticas.
      Terá, quanto muito a ver a pertença ou não à maçonaria, que terá aceitado as incumbências da congénere brasileira.

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  3. Já fui à Pastelaria Meditativa e gostei da citação e do citado. Devo dizer que todo o teu argumentário, Luís, só reforça a minha paixão pelo bom senso ortográfico, quanto a mim residente na Velh’Ortografia, sob pena de merdortografarmos e dupligrafarmos ou multigrafarmos esta herança remodelada do Latim Popular chamada Português: há de facto étimos que se se esbaterem me colocam problemas à Poética, a toda uma Poética.

    Tu deverias compreender isto.

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  4. Tenho pena de não ter essa tão elevada posição, próxima de quem se move nas alturas do pensamento.

    Condenado à mediocridade, começo logo por não entender como pode ser a ortografia do Português 2010 «antiga» e «moderna» a brasileira decretada de 1930 entre grandes manifestações de nacionalismo fascista.
    E devo confessar que me sinto bem acompanhado nestas minhas incompreensões e na incomodidade por este acordo que ninguém pediu, por Eduardo Lourenço, ou Pedro Tamen, Maria Filomena Molder ou Aguiar e Silva ou Miguel Esteves Cardoso, Miguel Serras Pereira e outros conservadores ultramontanos de igual jaez. Os vôos rasos do meu pensamento não me permitem compreender o motivo pelo qual a ortografia usada por Dickens ou Balzac é a mesmíssima usada hoje em Inglês e Francês e a do Português é tão diferente daquela que Eça usou. Se ao menos me pudessem explicar onde está o ganho de usar uma ortografia imposta por um governo ditatorial que falava da ortografia científica com o mesmo denodo com que achava científica e moderna a frenologia e mandava media os crânios dos padres jesuítas em busca de bossas religiosas… Mas nunca ninguém me explicou. E até um tal Pessoa chamou à reforma de 1911 um crime, um acto impolítico, impatriótico e imoral.

    Isto enquanto atrasadinho anti-acordo.

    Enquanto cidadão de uma democracia quero, muito simplesmente, saber onde está a fundamentação que levou a que se decidisse contra o parecer negativo de 25 dos 27 pareceres das entidades oficiais consultadas (sendo que um dos dos únicos favoráveis era da autoria do negociador do «acordo»).
    Enquanto isto não me for explicado, e porque o tempo das decisões de favoritas caprichosas já lá vai, quero tudo muito bem explicadinho.
    Se por acaso lhe tiverem soprado o motivo, não se acanhe e diga.

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  5. Só uma precisão: com o acordo os portugueses continuarão a escrever facto e os brasileiros, fato. A dupla grafia continua a ser assegurada em vários casos, respeitando a fonética. Esse equivoco é comum, mas que pelo menos isso não seja motivo de romaria ao túmulo do camões. Só a eliminação das consoantes mudas me parece uma medida de eugenia bastante censurável. Se todos lêssemos o acordo, o mundo tornava-se um pouco mais harmónico, mas muito mais chato, é evidente.
    O Pessoa a propósito daquela cena de que a sua pátria é a sua língua, disse que odiava ver a ortographia sem ipsilons. Phoda-se, bem o tramaram, mais do que ele pensava.

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    1. «A dupla grafia continua a ser assegurada em vários casos, respeitando a fonética»
      Não percebo o argumento: recepção e «receção» para mim têm uma única diferença: na 2ª irei fechar o “e”, aproximando de «recessão».
      Por outro lado, leio philosophia e filosofia do mesmo modo…
      A «aproximação da fonética» é um princípio desculpável em 1911. Hoje em dia, tem tanta relevância científica como as teses de Lombroso aplicadas na nesma altura.
      Um acordo desses limitar-se-ia a transformar o português numa ersatz, afastando-o das outras grandes línguas europeias e do português de Angola e Moçambique para o aproximar do português do Brasil, que tem 75% de analfabetos (entre os clássicos e os funcionais)

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  6. Como o Luís só lê em “estrangeiro”, Charles Dickens e coiso e tal, o acordo não afecta muito 🙂
    Agora a sério, eu até nem sou contra o Acordo (desde que ele não seja aplicado 🙂 )

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      1. Para who cares tem-se desmultiplicado a favor do «acordo». Se não é da maçonaria, não percebo. O «natural» é que um leitor não goste de mudanças inúteis e fúteis e que quem preze a democracia não tolere a arbitrariedade ademais aquela usa justificações de centro comercial de arrebalde.

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        1. “tem-se desmultiplicado a favor do «acordo»”

          Parece-me que a sua obsessão com a ortografia lhe tem prejudicado a capacidade de ler e interpretar textos. Chega de asneiras, ok?

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  7. Caramelo, tanto assim foi que se abastecia frequentemente na pharmacia com substâncias prohibidas, que lhe collocavam a alma no céu, após lhe terem phodido o “y” do cysne que lhe recordava o pescoço do dito.

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    1. zelisonda, nesses bons tempos os opeáceos eram tão prohibidos como o vinnho do cartaxo. Mas não bastava terem altterado o prontuário ortographico, mudaram também o prontuário terapêuttico e tudo isto é má sinna. Não é por accaso que a linggua e a itteratura fenesceram. Maldittos.
      Eu sou capaz de me habituar a isto e corro sério risco de nunca mais esccrever de outtra maneira.

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  8. Ça bouge! Não se fala de outra coisa! Somos oficialmente um país de gramáticos e filólogos! Tanto quanto o bouvard e o pecuchet eram especialistas em mandarim e sistemas de rega. Não conheciamos o étimo latino de lado nenhum, mas agora queremos ficar aconchegadinhos ao pobre do étimo, que ainda morre sufocado com tanto carinho. Muitos até descobriram agora, horrorizados, que afinal escrevem de acordo com reformas ortográficas aprovadas por via legislativa e vai até haver processos de indemnização por danos morais contra muitas professoras primárias reformadas por cumplicidade no etimocidio.
    Luis Jorge, aproveite. Discussões de massas de tão alto nível sobre isto só acontecem de cem em cem anos, ou nem isso.

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    1. É uma maçada, de facto. Bom é quando se fala de futebol e se deixam essas questões da língua materna por conta do Santana Lopes, do Cavaco Silva ou do Sarney.
      E aquela gente gente de Angola também é desgradável. Deviam limitar-se a pôr cá dinheiro e a escrever conforme o Brasil lhes ordenasse.

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