Dia de cozido.

Há uma hora ainda a gorduraça escorria pela cartilagem do infortunado bácoro. Entre o pudim de arroz e a couve portuguesa despontavam troços de cenoura,  nacos de morcela, recortes de nabo, tiras de carne de vaca em cama de feijão vermelho, um chispezinho muito macio, muito guloso, cozido nos próprios sucos, e um pedaço de entrecosto desfeito em três tempos pelo comensal reconciliado com a sua virilidade. Certas coisas não estão ao alcance de um praticante de ioga ou uma activista dos casamentos gay. O vinho da casa, entre as merdas bebíveis da região de Pegões, foi avaliado com rating BB+, dois ou três pontos acima de algumas zurrapas que tenho padecido em restaurantes da moda — aos quais não tenciono voltar, é claro.

Assim se passou a minha greve dos transportes, dia de festa para mim e para as classes trabalhadoras. Se amanhã encontrar o metro fechado, sem táxis à vista, hei-de pedir umas tripas à moda do Porto.

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23 pensamentos sobre “Dia de cozido.

      1. Tripas à moda do Porto é uma boa escolha.
        O povo aprendeu com imaginação a comer as tripas porque a carne ia para o governo e para as suas obras públicas (descobertas).
        (tb se pode chamar dobrada, porque as pregas do intestino parecem dobradas)

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  1. Irra que vocês os bons (sem ironia) agora metem “activistas de casamentos gay” em tudo quanto é post. O FNV é a mesma coisa. Como se o vosso coração fosse branco – como não – mas precisasse de enquadramento realista.

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    1. Pronto, tem razão. E é uma análise sofisticada, embora menospreze os praticantes de ioga. De qualquer modo fique descansado, porque se alguém puser em causa esse direito saímos logo do armário. Salvo seja.

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  2. “greve dos transportes, dia de festa para mim e para as classes trabalhadoras.”.
    1º Não pertence as classes trabalhadoras?
    2º Será que noto um tom de alguma crítica ou só irritação natural de ter tido problemas?
    3º E bicicleta ou a pé, impossível?
    Dia de greve não é bom para ninguem, palavras do governo e eu concordo. Perdem todos por isso só em desespero se deve fazer greve, se a fazem deviam notar o desespero.

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  3. Isso é cozido à portuguesa? Com feijão vermelho? Então, e as batatas? E a galinha? É por isso que este país não anda para a frente. Cada um faz como quer. Depois o Álvaro quer exportar cozido e é uma chatice.

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      1. É aquilo tudo, menos o feijão vermelho, mais as batatas, toucinho entremeado e farinheira, mais coisa menos coisa. E o que é isso de tira de carne de vaca? É fiambre? Tem que ser carne de vaca de cozer, daquela gorda. Mas gostei dessa do “chispezinho muito macio, muito guloso”. Está de estalo. Parecem os abades do crime do padre amaro a falar, nas suas comezainas, mestre.

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  4. Cozido à portuguesa com galinha é coisa de mouraria. Na minha terra, cozido é com reco e vitela. E rabas, coisa difícil de achar-se nos dias que correm.

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