“Contra Corrente”.

Manuela Ferreira Leite voltou a exibir o seu tacto diplomático na televisão. Com a internet em chamas (é um déjà vu), temo que nos afastemos da pergunta que ontem fazia a mim próprio e hoje gostaria de fazer a alguém: que motivos existem para que um programa de análise política convide o proprietário do canal em que é transmitido, o partner de uma grande sociedade de advogados lisboeta, o presidente de uma fundação da Jerónimo Martins e uma senhora que ainda há pouco criticava os “ataques àqueles de acumulam vencimentos” para reflectirem, vejam bem, sobre os sacrifícios que é preciso impor ao país?

Há aqui uma resistência à vergonha de que os nossos jornalistas aparentemente não suspeitam, enquanto promovem mandarins a senadores.

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23 pensamentos sobre ““Contra Corrente”.

  1. Vivemos um tempo estranho, não é?

    A falta de coluna é tal que se confunde com acrobacia. A falta de ética é tal que se confunde com stand up. A falta de sentido de proporções é tal que acontecem momentos televisivos com os que referiu.

    E será que, ao menos, se aprende que há escolhas perversas?

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  2. Caro Luis M. Jorge,

    Tentarei uma resposta (a minha) à sua pergunta, mas primeiro uma nota: o chamado “tacto diplomático” de Manuela Ferreira Leite tem o condão de se revelar ou demonstrar mais cedo ou mais tarde (que chatice!) algo de que ninguém gosta: a verdade.

    Os motivos que levam um programa de análise política a convidar … terão provavelmente que ver com as expectativas de audiências, não? Assim a frio, eu sei que prefiro ouvir António Barreto ou Ferreira Leite (por exemplo) a tantos outros comentadores ‘mais novos’ ou ‘inovadores’ ou ‘recentes descobertas’, algumas fabricadas à forca de trocas de links em blogues, e que tantas vezes pouco mais fazem do que expelir ar pela boca. Mesmo que discorde, mesmo que me aborreça algum ‘senadorismo’, mesmo que transpareça o ‘status quo’ em que todos se sentam, prefiro a densidade de um curriculum e uma inteligência rodada, à esperteza tantas vezes oca da novidade, só porque sim, ou para fazer a quota de caras novas. Acredito não ser a única, no universo dos espectadores da SICN, a ter esta preferência. Como se as ideias se pudessem renovar ou inventar com a facilidade e a velocidade com que se renovam as caras… Deixemos isso para as telenovelas. Portugal é pequeno, não há nada a fazer!
    Joana

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    1. “o chamado “tacto diplomático” de Manuela Ferreira Leite tem o condão de se revelar ou demonstrar mais cedo ou mais tarde (que chatice!) algo de que ninguém gosta: a verdade.”

      Refere-se à “Verdade” que ela revela aos continentais ou aos madeirenses? Como sabe costumam ser incompatíveis.

      Lamento Joana, mas não quero ouvir de alguém que acumula pensões a explicação pedagógica da necessidade de diminuir os meus ordenados, ou o meu acesso à saúde, mesmo que isso contenha alguma verdade. Que comecem a aplicar esses imperativos patrióticos lá em casa e depois conversamos.

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      1. Está no seu direito claro. Pelo meu lado, eu – talvez mais desencantada (realista?), já não nutro fantasias sobre uma moral ‘cristalina’, ou sobre a absoluta ausência de interesses, etc. Aliás eu sinto-me sempre um pouco desconfortável com tantas evocações de ‘moral’.
        Joana

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    2. Joana a “densidade” curricular pode ser de chumbo, e a inteligência pode rodar uma vida inteira numa bicicleta sem rodas, ainda por cima em ritmo de passeio pelo campo. É pesado e imóvel, demasiada gravitas. Eu nunca ouço o Barreto, a MFL, o Balsemão e outros da mesma criação, não vale a pena. Foram todos interessantes uma vez na vida, com qualquer coisa, disseram nessa altura qualquer coisa de novo e com interesse e acabou. Infelizmente para eles, um gajo agora pode ver no cabo debates feitos lá fora, talk shows, etc. e vê a diferença, é assim nos americanos e eu seja cão se os franceses e ingleses e até os suecos e os servo-croatas não são mais estimulantes. É uma festa para os sentidos. Estes é renhónhó renhónhoó, parecem bustos (esta é homenagem ao Bruno Aleixo). Isto não tem nada a ver com a idade ou renovação de caras. Um velhote como o Umberto Eco, que tem a mesma cara redonda, a mesma barba e os mesmos óculos desde que nasceu, é um turbilhão de ideias, inventa uma todos os minutos. Mesma cá, há por aí milhares de putos muito mais estimulantes. Eu aprendo mais aqui com o Luís Jorge, o que é simultaneamente graxa ao Luís Jorge e uma grande verdade, ou com tipos com o Rui Tavares, por exemplo, e tantos outros, do que com esses.

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        1. ahahah!

          Eu subscrevo o comentário do caramelo. Apenas acrescento que não encontro nenhum bom motivo para “plebeus“ andarem por aqui a defender “senadores“ como estes. Comparemos a MFL com aquela ministra italiana que chorou enquanto anunciava as medidas de austeridade que iam impôr aos italianos. O que é que a comparação nos ensina? É que a italiana ainda tinha vergonha na cara, enquanto os nossos “senadores“ e a MFL nem vê-la. Eu compreendia se a “senadora“ deixasse bem claro quão *orgulhosa* estava do SNS que se conseguiu construir nas últimas décadas. E que, por essa razão — por temer pelo futuro do SNS e pelo futuro dos cidadãos, especialmente os mais vulneráveis (os tais velhinhos da hemodiálise, e um raio de uma lágrima ao canto do olho por esta altura que servisse para mostrar uma réstea de respeito pelos concidadãos caía bem) — achava que era preciso repensar o seu modo de financiamento. Mas, claro que por Portugal, os “senadores“ como a MFL acham que o SNS é um regabofe e que é preciso é acabar com a brincadeira. Que interessa a melhoria notavel dos indicadores de saúde dos portugueses, o que interessa que isso seja talvez o objectivo e a obrigação mais importante do Estado para com os cidadãos? Se o que interessa mesmo é pôr fim ao regabofe.

          (excepto na acumulação de pensões e ordenados vários das pessoas de demonstrado mérito senatorial, e com excepção do regabofe dos circuitos Governo –> Estado –> Empresas do Estado –> … –> Estado –> Governo, e outras coisas menores mas igualmente fundamentais para o regular funcionamento das instituições senatoriais).

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          1. “não encontro nenhum bom motivo para “plebeus“ andarem por aqui a defender “senadores“ como estes. ”

            Pode crer, é o mistério da portugalidade. Mais misterioso que o triÂngulo das Bermudas.

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          2. Miguel “amo-o”. Sem qualquer risco para a sua namorada, companheira/mulher.
            Eu podia ter escrito este post apenas a pontuação não estaria tão bem ;).

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      1. Caramelo,
        No meu comentário inicial referi o facto de sermos um país pequeno de recursos escassos. Isso reflecte-se também na quantidade de opinião com algum interesse. Concordo que não é muita, nem muito diversa, e é um pouco forçado compararmo-nos a esse nível (e outros) com os EUA, Reino Unido ou França. Por isso também referi o facto de não saber quanto tempo um programa desses se pode aguentar. Há um momento em que achamos que já ouvimos tudo e que ninguém tem mais nada a dizer que nos possa interessar. No final do dia as audiências é que mandam, não é?

        Quanto aos turbilhões de ideias, acho lindamente, embora mantenha que mais facilmente se encontra uma cara nova interessante do que uma ideia interessante. Mas venham eles sobretudo nos livros que leio, filmes que vejo e noutras áreas da cultura e do saber. Para a vida política de um país em crise de tudo, pobre e periférico, onde o acautelamento dos interesses de alguns (pessoas ou colectivos) é demasiado óbvio e escandaloso, e em que urge desfazer e voltar a fazer de novo, prefiro menos turbilhão e mais solidez granítica. São bustos? E então? Olhe em que deu o turbilhão de ideias chamado Obama.
        Joana

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        1. Joana, solidez granítica em tempo de crise é bom. Um bloco de granito em cima do país e acaba-se a crise. Eu só acho aborrecido que enquanto isso não acontece temos de ver debates com três ou quatro blocos de granito, a debitar verdades perenes como “temos de ser sérios” “não podemos gastar mais do que temos” e adjacências. Sempre tivemos um gostinho especial pela monumentalidade funerária. Antes fossem de mármore de Estremoz, sempre refletiam algum brilho.
          O que eu dizia é que não somos um tal deserto de ideias que tenhamos de tomar como oásis esses bonzos. Há por aí muito melhor. Estamos é demasiado condicionados a considerar que os debates sérios e as ideias são coisas que acontecem na televisão e nos jornais por catedráticos na reforma com uns fumos de cosmopolitismo e algumas leituras do Cícero. Não os vemos e lemos para saber o que eles dizem, mas sim para os ver dizer, é um ritual. Todos os dias há debate na internet, nos blogues e redes sociais, com gente que diz coisas mais interessantes. É aqui que acontece o que interessa, mas, obviamente, não tem a mesma caução religiosa.

          O Obama já foi em si uma grande ideia, uma das maiores que teve os Estados Unidos nos últimos cem anos. Quanto às que lhe saem da cabeça, que ele ultimamente não as consiga pôr em prática, não é desprimor para as ideias, é desprimor para ele e para os que o rodeiam. Cinicamente, são os que no Congresso lhe torpedeiam as ideias, que dizem que ele não consegue governar o país. Ter ideias é bom; mesmo que não nos governem, fazem-nos pensar, o que já não é mau.

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        2. Joana
          Só para dizer que a tenho lido antes e gosto das suas ideias bem arrumadas.
          Há umas que concordo e outras que não como tudo na vida.

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  3. Basicamente o que queres dizer é que todas estas figuras são suspeitas de estarem ligadas a interesses. E o debate foi ou não interessante? E posições que essas pessoas tomaram foram em defesa do seu canal, da JM e da sociedade de advogados para a qual trabalham?

    Apresentar António Barreto como “o presidente de uma fundação da Jerónimo Martins” não é acto de coragem ou de irreverência, mas sim jogo baixo. Se lá estivesse um jornalista do Público, chamavas-lhe o quê, um lacaio da Sonae?

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    1. Olha, este foi parar ao spam (o WordPress tem critério, está visto).

      Não estou a dizer nada disso. Estou a dizer que quatro mandarins que ganham fortunas e acumulam reformas não devem fazer discursatas sobre a necessidade de sacrifícios. É pudor, não interesse.

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  4. Também se poderia dizer que como acumulam reformas poderão sempre pagar a hemodiálise, caso venham a necessitar dela, não sendo assim potencialmente afectados pela medida “corajosa” que propõem. E para manterem essas reformas não podem tolerar gastos sumptuários em tratamentos de outras pessoas que não conseguiram acumular reformas. É esta a “Verdade” que nos foi revelada.

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