Notas (1).

A chantagem, como recurso narrativo, enfrenta o triste destino dos crimes de honra da literatura clássica: deixará de ser credível. Isto é uma pena, porque o chantagista introduzia no plot aquilo a que na linguagem do xadrez se chamam jogadas forçadas,  ou na linguagem jurídica se chama, suponho, um estado de necessidade; e nada dá tanta harmonia a um enredo como a sensação de que tudo o que o protagonista faz é necessário.

Mas o recurso esgota-se, porque um leitor normal não leva a sério as ameaças de um chantagista normal:

– Vou contar a nossa relação à tua mulher!
– Está bem, Belinha — julgas que foste a única?

– Hei-de manchar o teu nome nos jornais…
Manchar tipo Armando Vara ou tipo Dias Loureiro? Ai, que preocupado estou.

– Os teus filhos nunca voltarão a olhar para ti.
– Não conheces os meus filhos, mariola. Eles precisam de dinheiro.

Há setenta anos havia quem matasse em Portugal por causa das hortas. Há trinta, quem enriquecesse com as amantes dos outros. Hoje em dia é difícil ser vilão.

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7 pensamentos sobre “Notas (1).

  1. Quer o Luís Jorge dizer, em suma, que nos tornámos desavergonhados. Isto deve ser a crise moral do país de que fala aquele senhor que é dono do Pingo Doce. Antigamente, ainda uma criada podia fazer uim pé de meia com as cartas que apanhava às patroas. Acho que os sindicatos do trabalho doméstico se deviam pronunciar sobre isto.

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