Alecrim e Manjerona.

Há pouco mais de uma semana José Sócrates afirmou que as dívidas de um Estado são por definição eternas — uma evidência que não inibiu a direita de lhe cair em cima.

Ontem, Pedro Passos Coelho esclareceu que não haverá emprego para milhares de professores, sugerindo-lhes em alternativa os países de língua portuguesa — declaração sensata, pela qual é hoje fustigado com repulsa.

Em Portugal podemos dizer tudo, excepto a verdade.

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25 pensamentos sobre “Alecrim e Manjerona.

  1. É precisamente por ser uma declaração sensata. Esse é que é o problema. A incrível falta de sensatez dos portugueses, que raia o patológico. É tão mau que tiveram de ir buscar o Forrest Gump para nos orientar. Hoje, ou ontem, não sei, teve de informar os professores que existem países onde os habitantes falam essa língua maravilhosa que é o português, que existe uma coisa chamada emigração e que, se juntarem essas duas coisas, há possibilidade de terem um emprego a ensinar coisas na mesma língua em que falam. Amanhã, vai transmitir a seguinte mensagem:
    Amigos, tomai atenção: está a chegar o Inverno e em vez de irem para a rua de cabeça descoberta, nessa maluqueira de apanhar chuva na cabeça, coisa que julgais confortável mas que vos pode provocar doenças, podeis ir a uma dessas lojas que vendem toldos redondos com uma armação chamados, chamados, chapéus de chuva, repito, chapéus de chuva.

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  2. Pode-se dizer uma das verdades e essa verdade até pode ser mentira. É claro que não se pode dizer A VERDADE, aqui e em qualquer parte do mundo. Agora confundir a impalpável e inatingível verdade com a lata, a desfaçatez, a farronca, a prepotência com que o fez esse fantoche idiota… Por que é que ele não manda emigrar os outros desempregados (lá virá a ocasião) e também a avó dele? Desempregado, cala-te e emigra, estás-me a incomodar.

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    1. Gaf, o problema é este: crise demográfica, crise das finanças públicas. Existirão menos alunos, precisaremos de menos professores. Soluções só há duas, que eu veja: ou os professores se reconvertem ou aproveitam oportunidades de carreira lá fora. Foram essas duas que o tipo apresentou.

      Tudo o resto que ele pudesse dizer seria um embuste: 1. vamos criar mais postos de trabalho, e tal — mentira. 2. Daqui a três anos vai estar melhor para os professores — nessa profissão não vai porque não pode estar, não há alunos.

      Existe alguma alternativa para além das duas que ele apresentou? Diga-ma.

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  3. Não podemos ficar tão enfeitiçados com essa espécie de politico novo que diz “A Verdade”, que nos esqueçamos da dimensão ética da política e esses pormenores que são a decência e o respeito. Um governante não precisa de mentir, prometendo o que não pode, para ser decente. Um governante deve saber quando falar e quando ficar calado e tem de ter cuidado com a arrogância da “Verdade”, até porque verdades há muitas. E não é decente um governante recomendar a emigração, é mesmo até um bocado palerma. Há quem possa emigrar, e muitos já o fazem sem precisarem que o PM lhes mostre o caminho e a luz, há quem não possa, até porque emigrar custa dinheiro.

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      1. As expectativas ainda estão altas? Então ele que baixe as expectativas. O que chateia é o estilo “tira o rabo do sofá e faz-te à vida”, dito pelo PM a pessoas adultas. É um estilo marialva de fazer politica que não precisamos. Pode ser que ele caia do cavalo.

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    1. E custa dinheiro formar – curso superior – para pôr a render num país estrangeiro e voltar quando for menos produtivo.

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  4. No caso de Sócrates o problema está no mensageiro, não na mensagem (também está na audiência, que desconhece como o Estado se financia; mas se tivesse de adivinhar diria que o efeito “mas-quem-é-este-gajo-para-agora-vir-dizer-esta-merda” foi o dominante). No caso de Passos é histeria. Não sei se à histeria nos media corresponde uma histeria real – se assim for é prova de que no “ajustamento” português as expectativas são mesmo a última coisa a ajustar. Um abraço.

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    1. Sim, julgo que tem razão. Quanto ao Passos Coelho, julgo que o raciocínio comum é “ele até pode ter razão, mas isso é uma decisão individual e portanto não devia dizer”. A questão é que muita gente no sector está parada, ou em situações de subemprego, e ainda tem esperanças infundadas. Por uma vez na vida creio que o homem não fez mal em despejar o balde de água fria.

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  5. caro Luís,
    não confundamos o primeiro-ministro com um amigo com quem temos uma conversa de café e nos dá uma opinião sobre as melhores saídas para a nossa carreira. é a terceira vez que surgem estas opiniões como se de conversas em família se tratassem, e são, na minha opinião muito graves.
    – Muito graves pela auto-demissão em fazer o país prosperar que encerram em si;
    – Muito graves até por alguns laivos de neocolonialismo ‘ide procurar melhores sortes pelo império que a metrópole está a encher’
    – Muito graves porque assumimos ‘é a geração mais preparada de sempre, mas nem temos que fazer com ela’. Não se assume, nesta economia moderna, qualquer tipo de incentivo ao auto-emprego e criação das próprias empresas, apesar da verborreia fácil do empreendedorismo, algo que os nossos governantes não conhecem minimamente.

    e só mais uma opinião , mais uma vez, pessoal, quem é que estes senhores querem mandar embora? é quem se queixa? a juventude que saiu à rua a 12/03 e a 15/10?

    e se estamos a mandar embora ‘os melhores’ (passe o exagero), fica quem?

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    1. Miguel, você está a confundir soluções para o país com o futuro de uma classe profissional que tem problemas específicos a enfrentar. Não é uma questão geracional ou de formação, mas de demografia e de excesso de profissionais. Para isto só vejo duas soluções: ou se reconvertem a outra coisa qualquer ou procuram oportunidades lá fora. Tem outra?

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    2. mas queremos solução para o país que exclua à partida as suas pessoas?
      peço desculpa, mas é estratégico – E PROVINCIANO.
      até por isso é que o senhor para cujo ministério ‘não há dinheiro’ vê estrategicamente esta saída:
      http://desmitos.blogspot.com/2010/11/nossa-maior-exportacao.html
      esvazie-se o país, esvazie-se a contestação, esvazie-se de pessoas, acabem-se os problemas!
      quanto à ‘classe profissional’, eu francamente considero que a nossa classe profissional não se encerra numa formação.
      qualquer pessoa com uma licenciatura de português, inglês, fisico-quimica,…, pode fazer outras coisas, haja emprego.
      há centenas de historiadores empregues nas indústrias de jogos e cinematográfica nos estados unidos, por exemplo. para se reconverterem, é necessário que haja emprego, e é esse que falta.

      mais uma coisa, Luís, passei metade deste ano a trabalhar em angola. estas notícias fazem com que eu, até agora uma pessoa valorizada a partir do primeiro contacto, passe a ser olhado automaticamente com alguma dúvida.

      A desvalorização do trabalhador português altera a relação de forças com todos os países parceiros. O que é que eles não percebem??!

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      1. Miguel, mas façamos ao homem a justiça de reconhecer que ele disse explicitamente que havia duas alternativas, e não uma. O que acontece é que toda a gente embandeirou em arco com a segunda.

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  6. Luis, este PM inventou o conceito de excedentários no país. Já se deu conta disso? Vá lá, não sugere o seu consumo alimentar, como o Swift fez com as crianças na Irlanda 😉 E se lhe começam a fazer a vontade em massa? Até os não excedentários podem começar a pensar que é melhor começarem a procurar melhores paragens lá fora, em sítios onde os governantes façam politica, em vez de darem conselhos à clientela amiga, como os barmen.

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  7. Ainda sobre a emigração. Isso de emigrar é uma coisa complicada. Ponderados os prós e os contras, talvez (vamos fazer de conta que suponho) compense mais ficar aqui a trabalhar num call center a ganhar trezentos ao mês a recibos verdes a vender pacotes de televisão por cabo, do que ir para África ou para o Brasil, mesmo que nos últimos casos, se possa ter direito a uma medalha no 10 de Junho. Malta nova sem família, filhos, pai e mãe, e tendo guito para a viagem, vai até para a Austrália ensinar português a ovelhas e até nem volta. Mas para a maior parte é complicado. Não é preguiça ou acomodação desta raça de preguiçosos, como dizem os mesmos que se puseram em bicos de pés a falar de honradez no pagamento das dívidas, a propósito do que disse o Sócrates. É mesmo uma decisão difícil de tomar. E não é a recomendação do PM que vai amanhã encher os aviões e os paquetes de emigrantes. Não é que seja mentira o que o PM disse. Mal ele imagina a verdade que a coisa é. Mas também é verdade que teria feito melhor em estar calado. Outro qualquer, teria posto o jornalista do CM em sentido quando o mesmo a propósito dos professores “excedentários” falou em “zona de conforto”. Mas este bonzo apanhou a deixa. A função constitucional do PM é criar um pais melhor para os seus habitantes. Do resto, fazer filhos ou emigrar, decide a gente, consoante o tipo der conta do recado ou não.

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  8. Luis, creio que não se deve analisar essas declarações do PC isoladamente.
    Nesse caso, terias toda a razão na tua análise. Mas quando as olhas no contexto da total ausência de propostas estratégicas para o futuro económico, industrial, científico, cultural, etc de Portugal a coisa toma um outro rosto. Eles estão a destruir o que restava da coesão social e da solidariedade entre os cidadãos– que é o que resulta de impor sacrifícios atrás de sacrifícios sem contrapartida nem horizonte. Pior, creio que é intencional.

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  9. … e eu acho que “emigrar“ não é o termo correcto na UE, era óptimo que muitos portugueses saíssem de Portugal e se estabelecessem felizes pela UE afora, só que a contrapartida seria de que malta qualificada viesse de fora para Portugal, isto é, “emigrar“ sim, mas não porque Portugal seja um “sítio“, uma “coisa“ miserável que só tem espaço para meia-dúzia que são os
    donos disto ….

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  10. mas o “gajo”, o PC claro, nem sequer falou na UE, tens raz ão, isso é sintomático, nem sequer lhe ocorreu, para ele é mais Massamá para Lisboa, de Lisboa para Massamá, e de vez em quando lá dá uma saltada a Bruxelas, tem de ser, para receber instruções, mas sempre em
    económica que a vida está muito cara… (pronto, agora calo-me)

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  11. Aqui e ali, sempre me vou lembrando do que o meu pai, em tom de desafio, me dizia, “nem todas as verdades podem/devem ser ditas”. Parece-me que é o caso. Não sei por que motivo tomar agora este sujeito como uma pessoa de grande verticalidade porque se lembra de dizer o que lhe vem à cabeça na veste de conselheiro. Talvez se devesse preocupar de forma honesta com as políticas a empreender e deixar as pessoas decidir o seu próprio caminho. Precisam os professores ou quaisquer outros desempregados de alguém que lhes mostre a porta de saída?! Pessoas adultas e minimamente sensatas já se aperceberam que os próximos tempos são de desafio, de reinvenção. Cada um de nós decidirá de que forma. E a emigração é uma hipótese tão ponderável quanto imponderável, de acordo com as circunstâncias pessoais.

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      1. A dimensão factual não pode estar desligada da dimensão política, apenas e tão-só pelo facto de o PM não ser de facto um técnico de um qualquer gabinete de estudos de políticas de emprego. E não sei que frutos se poderão colher das suas declarações que não se colhessem da mesma forma na sua ausência, o que nos remete para a sua original desnecessidade. Já a apontada virtualidade do desengano de tolos soa a paternalismo bacoco.

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        1. Sim, a última frase era perfeitamente dispensável. Mas quanto aos frutos: temos gente por aqui a vaguear sem emprego que ainda não perdeu as ilusões. Prolongá-las seria mais condenável do que acabar com elas.

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