A CP não presta.

Lisboa – Castelo Branco em primeira classe. Chego ao cais e não encontro diferenças entre as carruagens. Depois noto que uma tem bancos de forro avermelhado, para satisfazer a noção de prestígio de quem cobra mais sete ou oito euros pelo trajecto. Infelizmente eu não procurava prestígio mas sossego — aspiração logo contrariada pela horda ululante que invade o compartimento. Claro, são os funcionários da CP e suas mulheres, filhos, noras e gatos, de sacos de plástico nas mãos, bifana entre os dentes, garrafão de vinho à ilharga e imprecações contra os gajos.

Os gajos que mandam neles. Os gajos que lhes permitem viajar gratuitamente à janela numa carruagem de primeira igual às outras, enquanto eu pago 23 euros encostado à coluna, de costas para a paisagem, suspirando em vão pela tranquilidade e pela vista que mais uma vez perdi. É sempre assim, só que nunca me lembro que é sempre assim.

Evidentemente, não culpo estes palermas. Tal como eles, também acredito que a culpa é dos gajos. Do gajo que dirige o marketing desta merda e ainda não percebeu nem quer perceber que alguns dos seus clientes precisam de trabalhar enquanto viajam. Do gajo que senta o cu no conselho de administração e nunca deve ter posto os pés num comboio, mesmo que mande numa empresa de transportes ferroviários. Do gajo responsável pelas relações laborais, que trocou aumentos por arranjinhos e prebendas em espécie de alcance familiar. Do gajo que nunca quis saber se era errado cobrar mais por um serviço que vale menos ou cortar linhas enquanto se sonha com o TGV. Do gajo que não quis saber se o site pelo qual pagou uma fortuna a um bandido qualquer amigo de um palhaço qualquer do seu partido de sempre aceita reclamações, excepto talvez no único browser que o gajo conhece.

A CP é o pior exemplo do que pode acontecer a uma empresa pública assolada por funcionários políticos e separada dos cidadãos. Merece bem o opróbrio e a ruína.

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38 pensamentos sobre “A CP não presta.

  1. Não tenho más experiências com a CP. Mas também é verdade que – tirando percursos curtos nas linhas de Sintra e Cascais, sempre com lugar sentado e sem percalços multiculturais – tenho quase sempre viajado no Alfa (Lisboa-Porto e vice-versa). Nada de destinos exóticos desses, com nativos pitorescos. Come-se aceitavelmente, dorme-se tranquilamente, lê-se, conversa-se amenamente.

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          1. 🙂 Para a paparoca, sai-se sempre de qualquer sítio para qualquer sítio.

            E “os Lisboa” saem de Lisboa. Inclusive para o campo. Acontece apenas que, muito rapidamente, sentem uma enorme urgência de regressar a sítios recheados de imensas pessoas (que convém, cuidadosamente, evitar), engarrafados de automóveis (de que só se faz uso dos táxis) e onde se labuta freneticamente (o que o médico recomenda que se evite).

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  2. Luís para quem é de Braga o alfa é uma forma de viajar menos poluente e quase com as mesmas horas que a TAP, com os seus atrasos e as ridículas horas que é preciso ir antes para os aeroportos. Quando me dizem que tenho de estar 2h antes num aeroporto sinto os meus músculos a contrairem. (Já lhe disse, lisboeta, que o aeroporto Sá Carneiro é melhor que o de Pedras Rubras? É mais friendly e tem internet gratuita sem ser preciso computador ou iPad).
    É por isso que uma amiga diz que eu sou a única mulher que conhece que vai 10 dias para a Europa com uma mala de mão, é para poupar 1h nos aeroportos. Mas não vale a pena se quem acompanha não leva mala de mão.
    A primeira classe que só uso se não tiver lugar na outra ou seja muiiiito raramente, só serve para ter jornais ou revistas e qualquer coisa para comer gratuitos porque se marcar com antecedencia há um lugar sózinho para a frente e com acesso a tomada que não é incomodado, tem vistas, não enjoa, pode ligar computador ou TM e não fica dependente de o(a) parceiro(a) do lado achar que pode fazer logo ali um engate. Não pode é marcar por multibanco.
    Aproveito para:
    Apresentar queixa das distribuidoras de filmes em Portugal e concordar consigo acerca das limitações de Braga. Ontem queixei-me no cinema a dizer porquê que estou para ver 2 filmes que nunca mais chegam a Braga mas estão no Porto, Lisboa e (!) Coimbra – pelos vistos as distribuidoras tem só 3 cópias !!!
    Com a crise acho que vai ficar: estreias só em Lisboa.

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          1. Preconceito… isso era a 20 anos atrás.
            E Norte escreve-se no novo acordo com letra grande por ser região (só norte como ponto cardinal é que não).
            Só corrijo quem vale a pena, não é para levar a mal.

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    1. “o aeroporto Sá Carneiro é melhor que o de Pedras Rubras?” Então, não é o mesmo?!
      Mas é verdade, o de Pedras Rubras é uma jóia. Só é pena as obras nunca mais acabarem, talvez terminem no terceiro milénio.

      Acabar com a CP, com as companhias de autocarros, com os eléctricos, era o sonho do Cavaco. Tudo de carro é o caminho. Quem merece a ruína são os administradores que, como diz, aposto que nunca viajaram de comboio, os FdP. Esses sim, merecem o “opróbrio e a ruína.” Qualquer utilizador regular da CP conseguiria melhorar os serviços prestados. Qualquer um mesmo, desde que não tivesse o cartão de um partido.

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        1. Isso deve ser um daqueles programas onde os tugas reclamam da lentidão do crescimento da relva do estádio da Luz , seguido de um outro que reclama que a água da praia que frequenta está muito salgada. Ah, e esses tipos que ligam, desconfio que têm cartão do partido.

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      1. “o aeroporto Sá Carneiro é melhor que o de Pedras Rubras?” Então, não é o mesmo?!
        Não não é o mesmo. Atribuiram o nome a um homem que morreu de acidente de aviação explico sempre isto aos estrangeiros (depois de aterrarem, claro).

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  3. Ainda hoje perdi um combóio porque o horário no site da cp está pura e simplesmente errado. Diz que o comboio sai às 17h45 e na realidade é às 17h35…

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      1. Mas o funcionário da bilheteira manteve-se impassível perante a minha reclamação de que segundo o site o horário é 17h45. “Não”, respondeu amavel mas firmemente.

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        1. Sim o site é que está errado …
          Diga lá qual o comboio, dia da viagem e estações de origem e chegada para ver quem está errado.

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  4. A Linha da Beira Baixa, no troço entre Castelo Branco e Covilhã, foi recentemente electrificada e requalificada para condições de velocidade e conforto compativeis com um serviço de qualidade. Nesta obra a REFER investiu mais de 100 milhões de euros na renovação da via: drenagem, carris, travessas bibloco, catenária, sinalização, etc.). Porém, neste momento, o material circulante é tracionado velhas automotoras com 40 anos, “reabilitadas” para o efeito.

    Segundo a CP, é economicamente mais vantajoso. Assim, em vez de locomotivas modernas temos automotoras antigas, mas “energeticamente mais eficazes”. Cada pais tem o que merece…

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  5. Também fui à terra a semana passada e fiquei surpreendida com as carruagens. Fui de 1ª tb para ter mais sossego e deparei com um cenário semelhante ao teu. Julgo mesmo que eu era a unica pessoa a pagar bilhete na carrruagem.
    Não sei até que ponto agora com o pagamento de portagens não haverá mais gente a viajar de comboio… se calhar não…

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  6. A má gestão não se fica por aí. As negociações de horários, os privilégios para os funcionários e relação com o sindicato dos ferroviários roçam o surreal. Assim, os maquinistas acumulam prémios de antiguidade e pontualidade, chegando a dar origem a rendimentos escandalosos (digamos que há maquinistas que sacam tanto quanto o presidente do estaminé). Sabia que ganhavam – não sei se a situação se mantem – 6,5 euros a mais por dia, só por comparecerem no posto de trabalho? Era o subsídio de assiduidade. Tratando-se de Brâmanes, aí está o agradecimento por se humilharem voluntariamente numa degradante actividade laboral: o transporte regular de Párias. E os horários de trabalho? Uma percentagem importante dos serviços urbanos da CP são prestados sob o regime de horário nocturno e de horas extraordinárias. Todo o serviço normal dos fins-de-semana é pago como horas extraordinárias – podendo acumular-se ao horário nocturno – ainda que o funcionário tenha os seus dois dias de descanso semanal garantidos. Uma amiga, que trabalhou 20 anos na administração da CP, diz que não fazemos ideia da proporção do regabofe que para ali vai. E que uma reunião do sindicato dos ferros é uma máquina do tempo, com via verde para uma festinha trauliteira do PREC. Não admira que os comboios andem no estado de pocilgas ambulantes que se sabe.

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  7. Eu enjoo no alfa. Uma maçada muito grande. Tive de deixar de andar de comboio. Chegava a Lisboa doente. Até este post cuidava que o problema estava exclusivamente em mim…

    : ))))

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  8. ” Claro, são os funcionários da CP e suas mulheres, filhos, noras e gatos, de sacos de plástico nas mãos, bifana entre os dentes, garrafão de vinho à ilharga(…)2
    os tiques de classe fodem-te a lógica toda.
    é pena

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      1. Uahahahaha, Upstairs, Downstairs! Parece a baronesa viúva do Dowton Abbey! Agora esteve bem, Luís Jorge. Catano, mas isso parecia o relato de um sub-regional chinês ou, pior, da carreira Brandoa-Malveira nos anos setenta. Eles também levavam galinhas e patos vivos? E onde arranjaram eles os garrafões de vinho? Foram àquela loja da Catarina Portas? Aposto que também cheiravam a sabão azul. Isso não seria uma recriação organizada pelo grupo etnográfico dos funcionários da CP? Fizeram uma boa pesquisa: já não me lembrava do que significa “ilharga” e fui agora verificar que é cada uma das partes laterais e inferiores do baixo ventre. Se na próxima viagem o maquinista puser no leitor de cassetes uma cassete de anedotas do Fernando Rocha, também quero ir. Vida Breve e Dura, Luís Jorge.

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