A ler.

Este post do Filipe:

O corpo de uma mulher morta à pancada faz tanto pela diminuição da violência sobre as mulheres como o deserto faz pela falta de água. A linha é a mesma das campanhas de prevenção rodoviária: carros destruídos, sangue, aleijados, o resultado é o mesmo. (…)
O espancamento e assassínio de mulheres, namoradas e companheiras é um crime metódico. Borges desprezava um pouco os policiais, porque os crimes não se resolvem por raciocínios, mas por denúncias. Uma mulher que denuncia, neste nosso assunto, é uma mulher que tem mais probabilidades de acabar no hospital ou na morgue do que no tribunal ou segura ( não são, infelizmente, a mesma coisa).
A ideia de uma campanha para prevenir a maldade é pateta. Imaginam uma campanha contra o abuso sexual de meninas de seis anos? Imaginam o velho quase impotente e o trolha avinhado sensibilizados pelo anúncio de TV?
Existe, neste nosso assunto, como no bilhar livre, um efeito contrário: quanto mais as mulheres recusam o estatuto, mais pancada se arriscam a levar. Eles não acompanharam a evolução dos costumes.
A única saída é uma resposta rápida e eficaz da máquina repressiva (…), coisa que parece estar destinada apenas ao tabaco. Enquanto ela não existe, a melhor campanha seria a introdução do tema em todas as palavras. Tal significa politizar o assunto, retirar-lhe a canga doméstica e colocá-lo no plano da vida da cidade.

Quero acrescentar alguma coisa. Nós, especialistas de comunicação, também fazemos parte da vida da cidade. É natural, legítimo e honroso que dediquemos alguns dias por ano a temas de interesse público que nos comovam. O que falha quase sempre, por razões práticas, é o trabalho de preparação. Ora, o Filipe é terapeuta, e um insight como aquele que nos fornece aqui seria precioso em qualquer agência antes de esta se pôr a criar e a produzir anúncios.  Até porque todos, nesta profissão, sabemos bem que uma campanha não tem de ser uma campanha e um anúncio não tem de ser um anúncio.

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3 pensamentos sobre “A ler.

    1. Na verdade o “insight” é uma componente fundamental da estratégia de comunicação — em teoria cada uma se deve fundar num insight seleccionado entre vários, mas não te vou maçar com estas tretas. O problema é que em Portugal isto não funciona porque a) as agências já não têm tempo nem dinheiro b) costuma existir, também por razões económicas ou por tacanhez dos responsáveis, uma desigualdade entre o nível da criatividade e o nível do planeamento estratégico — em que a agência que pende para um lado ou para o outro consoante as cirunstâncias. Por isso são tão raras as campanhas equilibradas.

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  1. Antes alguma campanha que campanha nenhuma mas concordo consigo Luis quando diz:
    “Ora, o Filipe é terapeuta, e um insight como aquele que nos fornece aqui seria precioso em qualquer agência antes de esta se pôr a criar e a produzir anúncios.”

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