O último Mon Chéri.

Estranhei o meu interesse súbito por romances vitorianos até compreender que me falavam da sociedade e da política, dos dias difíceis e da vida familiar — ou seja, de um mundo que também eu tinha deixado à porta nos anos noventa, enquanto lia Laclos e os sobrinhos do McInerney. Além disso, nenhum livro tem graça se tiver menos de oitocentas páginas.

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29 pensamentos sobre “O último Mon Chéri.

  1. Tenho andado com alguma curiosidade para ler Forster e Waugh, que nunca li. Digo isto porque serão (digo eu) os representantes pós-George Eliot na caracterização dos restos da era vitoriana e sobretudo da ascenção da classe média.

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    1. Quanto a Forster compreendo-o, mas parece-me, sem querer armar ao pingarelho, que ele aproveitou a armadura do romance canónico para introduzir na história literária alguns valores que o contradizem muito — mais que uma evolução, é quase um fenómeno simbiótico (ou de parasitismo, diria eu se o homem não se tivesse farto de trabalhar).

      A sua perspectiva de Waugh é interessante, mas aqui entre nós julgo que lhe dão muita importância em Portugal por um excesso de dandismo que nos chegou dos tipos do “Independente”. Embora ele seja um óptimo estilista, claro.

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      1. Waugh escreve bem, mas foi um «parvenu» a um ponto tal que o seu arrivismo afecta a lógica da narrativa em alguns dos seus livros. Waugh, como explicava alguém (com alguma maldade e muita pontaria), pensava que era um gentleman e foi a sua sogra quem teve de lhe explicar que não era.

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        1. A associação de Eliot ou do romance do séc. XIX com o mon cheri – um bombom ou rebuçado mau – é um bocado para o infeliz.

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  2. De acordo em relação às 800 páginas (os russos, nesse campo excedem expectativas). Middlemarch é um prazer, e Dorothea Brook uma das minhas personagens femininas preferidas. Não é em vão que se chama à época vitoriana a idade de ouro do romance na Grã-Bretanha: é uma época fértil em romancistas, romances, claro, e personagens únicos, que retratam esse fervilhar da sociedade britânica no séc.XIX: alguma mobilidade social, afirmação da classe média, nomeadamente através de uma vida profissional (médicos, advogados, ‘empresários’ na indústria…) geradora de riqueza, vida familiar, educação mais acessível a todos e em especial às mulheres, romance, tecnologia, desenvolvimento, descobertas científicas, etc. W. M. Thackeray, com ‘Vanity Fair’ também perto das 800 páginas é um exemplo. Elizabeth Gaskell – lamentavelmente não chegando às 800 páginas, também merece ser lida – ‘North anda South’ para citar um romance. Há muitos mais, e excelentes, mas hoje ninguém se lembra de os ler (andamos todos ocupados a ler Philip Roth ou Julian Barnes, (sem demérito para os ditos) por isso arrisco apostar que ainda há mais Mon Chéri na caixa, mesmo sem sair do séc. XIX.
    Joana

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    1. Coincidência: Ainda ontem tinha posto na mesa o Vanity Fair e o North and South (além de Cranford) e umas coisas do Trollope (não sei se se escreve assim, e falta-me o tempo para verificar)

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              1. Leia, mas estou convencido que cada livro tem o seu tempo. Não sendo Vc, presumivelmente, uma miss inglesa de idade e sexo indefinidos, espécie de «universal reader», creio que apenas um adolescente poderia ler com gosto o Great Expectations – que eu não li (o meu grande Dickens foi o David Copperfield).

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          1. Claro que sim. Uma coisa nunca substitui a outra, no caso de as adaptações televisivas ou cinematográficas serem boas, coisa que nem sempre acontece. Quando são olho para eles como ‘objectos’ estéticos independentes que valem só por si. Já li muitos livros porque vi ‘séries’, elas não me tiram a fome de ler.
            Joana

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  3. George Eliot. Sábado disse: apetece-me ler Eliot tens? Coincidencias.
    Do genero apetece-me “algo” ou tipo o “meu ultimo mon cheri”.
    (Não gosto de mon cheri, é sempre o chocolate que como em ultimo.
    Furo-o com um palito escorro-lhe o álcool e como o chocolate com a cereja.
    Mas está bem empregue para o post.)
    E Jane Austen? Vai ler a seguir ou já leu tudo?

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      1. Austen – que, na minha modesta opinião, joga no top ten da literatura mundial – é ‘pré-vitoriana’, se é que essa categoria existe. Eu também colocaria as Brontë aí. As Bronte olham mais para ‘dentro’, sobretudo nas suas obras mais aclamadas, mas Austen tem um olhar único sobre a sociedade; a sociedade é que ainda não é ‘vitoriana’, falta-lhe aquele ‘fervilhar’. Jane Austen devia ser de leitura obrigatória para todos os que abrem livros. Nabokov gosta de Mansfield Park que é o romance que eu menos gosto, mas mesmo assim já o devo ter lido três vezes. Daqueles de que gosto, e daqueles de que gosto muito, tenho vergonha de dizer quantas vezes já os li.
        Depois de Trollope há também Thomas Hardy (Tess of the Ubervilles). Mas Foster (reli recentemente Howards End) e Waugh (prefiro Graham Green) já são claramente do séc. XX.
        Joana

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        1. O Monte dos Vendavais é um obra prima absoluta; Jane Eyre um grande livro e, tem razão, Jane Austen foi uma das co-autoras do romance.
          Qualquer leitor digno desse nome tem vergonha das vezes que releu os seus livros preferidos 🙂

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      2. E gostou? Sempre achei que os “homens” não apreciavam Jane Austen. Eu li tudo e leria a lista do merceeiro se ela tivesse publicado a lista do merceeiro. E foram os únicos filmes que não me desiludiram após ter lido o livro.

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          1. Northanger Abbey é, para mim, o mais divertido e ‘light’ dos romances de Austen. Mr. Tilney, o herói, tem um sentido de humor único. E a heroína é um bocadinho ‘parvinha’ (as heroínas de Austen não o são normalmente) o suficiente para animar o enredo e para dar consistência a Mr. Tilney, mas nunca demais, não fossem os leitores perder a simpatia por ela.

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      1. Ai que resposta convencida! Tão, tão lisboeta.
        Olhe aí está um livro com mais de 800 palavras que vale a pena ler quer se acredite quer não.

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